
Helena, já desde por volta dos sete anos, pensava onde passaria a sua lua-de-mel. Ficava difícil decidir entre uma praia paradisíaca de águas azuis e verdes, em época de lua cheia e um calor com vento leve. Ou uma cidade de arquitetura antiga e detalhada, e com neve de sobra, aonde pudesse ver montanhas e um dia de sol derretesse tudo para uma caminhada na graminha. Ainda que esse impasse fosse impossível de decidir, ela sabia que, caso se sentisse “gorduchinha”, optaria pela neve sem mais especulações.
Sem muita malícia, pensava também – a respeito de sua lua-de-mel – se seria só lá, na praia ou na neve, que entregaria seu corpo feminino para algum menino. Aos sete anos, indubitavelmente seria só lá: dali a muitos anos, o quão mais tardar possível. Adiamento esse que, o pai sempre reforçara, mas claro que sob outras motivações muito diferentes do que as de Helena, que vivia uma fase em que o contato entre as diferenças de gêneros são extremamente explosivos. Embora, tal verdade, só mude em forma mais tarde...
Aos treze anos essa certeza virou a maior incerteza. Além de ter um monte de meninos, que agora estavam chegando cada vez mais perto, Helena já crescia num mundo onde a mulher de agora tinha que batalhar muito e brilhar longe da sombra de um homem, pra que, só depois que estivesse totalmente independente do amor, pudesse amar. Ou seja, a lua-de-mel foi adiada. E as curiosidades dela somada aos contos das amigas aventureiras deixaram bem difícil esperar tal evento.
Um pouco mais tarde, aos 17 anos, os contos das amigas aventureiras já não faziam tanta diferença, nessa idade a galera já respeitava a idéia de cada pessoa viver na sua própria realidade, a seu próprio tempo. Ainda havia um monte de meninos, e agora eles eram bonitos e falavam sobre coisas inteligentes. Ficou difícil. Quis se segurar pra que a lua-de-mel fosse mais especial. Mas não deu. Escolheu um amigo inesquecível. Pra suportar tudo isso Helena botou na cabeça pra sempre que não existe segunda vez para as coisas, é tudo sempre primeira vez. Talvez, pra uma senhorinha religiosa isso seja um grande infortúnio na vida de uma menina e esse pensamento seja só uma maneira de conformar uma juventude transviada. Eu prefiro pensar que não poderia ter sido de outro jeito.
Junto a isso Helena não se sentiu “gorduchinha” e gostava mesmo era de tomar sol e nadar no mar transparente. No casamento o maridão veio com duas passagens na mão para a Suíça no alto inverno. Isso pode parecer um contrasenso, mas de alguma maneira Helena gostava de subverter, às vezes, as próprias vontades. Era desafiador e quando dava certo é como se ela pudesse ser feliz de todo o jeito. Quando estava diante da lareira, e nevava muito do lado de fora do quarto, ainda dava pra ver, pela janela, um sol pálido e sem força se pondo nas montanhas geladas. E ainda, quando, o menino que escolheu pra casar a acolheu em seus braços, com uma garrafa de vinho de uma safra não muito boa, e uma timidez de quem quer vencê-la, Helena teve sua primeira vez com a certeza que podia ser feliz de todo o jeito.






