sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Geléia real

Helena, já desde por volta dos sete anos, pensava onde passaria a sua lua-de-mel. Ficava difícil decidir entre uma praia paradisíaca de águas azuis e verdes, em época de lua cheia e um calor com vento leve. Ou uma cidade de arquitetura antiga e detalhada, e com neve de sobra, aonde pudesse ver montanhas e um dia de sol derretesse tudo para uma caminhada na graminha. Ainda que esse impasse fosse impossível de decidir, ela sabia que, caso se sentisse “gorduchinha”, optaria pela neve sem mais especulações.

Sem muita malícia, pensava também – a respeito de sua lua-de-mel – se seria só lá, na praia ou na neve, que entregaria seu corpo feminino para algum menino. Aos sete anos, indubitavelmente seria só lá: dali a muitos anos, o quão mais tardar possível. Adiamento esse que, o pai sempre reforçara, mas claro que sob outras motivações muito diferentes do que as de Helena, que vivia uma fase em que o contato entre as diferenças de gêneros são extremamente explosivos. Embora, tal verdade, só mude em forma mais tarde...

Aos treze anos essa certeza virou a maior incerteza. Além de ter um monte de meninos, que agora estavam chegando cada vez mais perto, Helena já crescia num mundo onde a mulher de agora tinha que batalhar muito e brilhar longe da sombra de um homem, pra que, só depois que estivesse totalmente independente do amor, pudesse amar. Ou seja, a lua-de-mel foi adiada. E as curiosidades dela somada aos contos das amigas aventureiras deixaram bem difícil esperar tal evento.

Um pouco mais tarde, aos 17 anos, os contos das amigas aventureiras já não faziam tanta diferença, nessa idade a galera já respeitava a idéia de cada pessoa viver na sua própria realidade, a seu próprio tempo. Ainda havia um monte de meninos, e agora eles eram bonitos e falavam sobre coisas inteligentes. Ficou difícil. Quis se segurar pra que a lua-de-mel fosse mais especial. Mas não deu. Escolheu um amigo inesquecível. Pra suportar tudo isso Helena botou na cabeça pra sempre que não existe segunda vez para as coisas, é tudo sempre primeira vez. Talvez, pra uma senhorinha religiosa isso seja um grande infortúnio na vida de uma menina e esse pensamento seja só uma maneira de conformar uma juventude transviada. Eu prefiro pensar que não poderia ter sido de outro jeito.

Junto a isso Helena não se sentiu “gorduchinha” e gostava mesmo era de tomar sol e nadar no mar transparente. No casamento o maridão veio com duas passagens na mão para a Suíça no alto inverno. Isso pode parecer um contrasenso, mas de alguma maneira Helena gostava de subverter, às vezes, as próprias vontades. Era desafiador e quando dava certo é como se ela pudesse ser feliz de todo o jeito. Quando estava diante da lareira, e nevava muito do lado de fora do quarto, ainda dava pra ver, pela janela, um sol pálido e sem força se pondo nas montanhas geladas. E ainda, quando, o menino que escolheu pra casar a acolheu em seus braços, com uma garrafa de vinho de uma safra não muito boa, e uma timidez de quem quer vencê-la, Helena teve sua primeira vez com a certeza que podia ser feliz de todo o jeito.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Acordamos mais cedo para nos vermos mais de perto


Helena, em seus primeiros anos de casamento, gostava de acordar antes que o despertador tocasse. Assim, ela podia ficar olhando um tempo para seu prometido, não sei por quem, marido. Mal sabia que dali algum tempo a mais acordaria várias vezes antes do despertador tocar, com o choro de angústia de seus pequenos que não pediram nem um pouquinho pra nascer.

Ela gostava de olhar o homem quando ele estava desse jeito – de olhos firmemente fechados – pois assim o olhava com quaisquer tipos de olhares que quisesse.

Num dia dado (sabe-se lá por Deus ou pelo Big-Bang) (ou pelas duas coisas) Helena acordou vinte e dois minutos antes do despertador. Sentia um pouco de frio, estava sem suas cobertas, e ao abrir lentamente os olhos, aconteceu mais uma vez, e mecanicamente, como sempre, dela ir lembrando quem era e o que fazia da vida, junto com uma angústia do por quê era e do por quê fazia o que fazia da vida.

O quarto deles era bastante peculiar. Era quase um quadrado típico se não fosse por uma aresta a mais aonde havia uma porta que levava a um banheiro íntimo. As cores de tudo oscilavam principalmente em tons de verde-bem-escuro, marrom, branco e creme. A cama do casal era de roupa toda branca e travesseiros enormes. Sobre o marido repousava um edredom verde-bem-escuro, entrelaçado entre as pernas dele, que o cobria das canelas até o umbigo, justificando a sensação de frio de Helena.

A idade já lhe havia avançado um pouco, era madura de corpo. A meninice só não abandonara o seu jeito de andar e olhar pelas janelas. Virada de bruços fez meia flexão para que erguesse a cabeça e o pescoço apoiando a face sobre as mãos e cotovelos; a sua lombar encurvando parecia ter sido lapidada por mãos firmes e perfeccionistas. A meninice do seu andar lhe escapulia enquanto, perpendicular as coxas, balançava os pés pelo ar.

Olhava o marido de modo destemido e atrevido. Naquelas circunstâncias ele não lhe oferecia nenhum perigo, nenhuma obrigação de renúncia. Sentiu-se completamente livre e despersonalizada, como se o histórico entre eles não houvesse. Como se não houvesse laços. Até que começou a entreter-se com o homem. Mordeu os próprios lábios e lembrou-se como se casaram rápido. Talvez fosse por um medo desesperado de que o amor passasse do ponto alto, no auge. Sábia, entendia que no início dos relacionamentos há engajamento, ambos contrapõem-se a identidade em prol da fusão, e depois tentam resgatar a identidade, e que vai ser a capacidade de equilibrar que vai determinar a duração do laço amoroso. O casamento ajuda a motivar essa equilibração, institui um núcleo de oscilação, um ponto de equilíbrio. Ritualiza um voto de comprometimento, culpabiliza os excessos prejudiciais.

Abaixou a cabeça, percebeu os braços formigando, deitou-se de lado e colocou o rosto bem próximo dele. Conseguia sentir a respiração de um sono ansioso que daqui a pouco quer acordar. Estava com saudade de separar o que era dela e o que era do mundo. Conforme o relacionamento amoroso ia avançando, desenvolvia uma célula viva com dinâmica própria, regida por suas próprias leis, um filho bastardo, não planejado. Filho da somatória incalculável de danos e reparações. Também sentia saudade da decisão imediata, decisão não-mediada, sobre as coisas.

Faltavam mais três minutos para que tocasse o primeiro som do dia, o anúncio da realidade. Helena fez carinho na própria cabeça jorrando os cabelos para trás. Depois se sentou na beira da cama e desligou o despertador antes que gritasse. De costas para o marido torceu a lombar, o pescoço, e com o queixo quase sobre o ombro direito, o olhou pelo canto do olho. Achava-o lindo, queria ter certeza que ele o amava e seria sua única possibilidade de ser completamente repleta em suas necessidades singulares. Queria ter certeza de que ela o merecia. Lembrou da certeza que teve quando disse que o amava pela primeira vez. Irritou-se com as suas insatisfações eternas, saco-sem-fundo.

Passava um minuto da promessa do despertador e ela deitou-se novamente de lado. Colocou a mão sobre o peito do marido. Inesperadamente ele sorriu e disse em baixo tom:

- Porque me olha tanto Lê?

Helena constrangeu-se por menos de um segundo, mas daí voltou à típica compostura. Ele percebeu, mas preferiu não perguntar duas vezes. Nela, a história e o que tinha se tornado por conseqüência da enorme fileira de escolhas que já havia feito veio à tona. Nessas condições havia intimidade, o constrangimento tinha sido abastado pela intimidade.

- Porque amo.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

In Secretum


Com 10 anos de idade Helena não sabia falar latim, e tampouco aprendera pelo resto da vida. Mas sabia reconhecer algumas palavras em latim quando imersas no meio do vocabulário brasileiro.

Foi nessa época que concluiu uma lógica inegável, de que para que uma palavra seja latim basta, simplesmente, pegar uma palavra em português e substituir a sua terminação típica por “um”. Com o fim de aprovar sua teoria pediu a mãe uma bola de sorvetum, e como os adultos não costumam perder tempo questionando as brincadeiras inocentes das crianças a mãe lhe comprou logo uma daquelas cestinhas de biju com três bolas de sorvete! E como as crianças acham que os adultos, principalmente pai e mãe, sabem tudo, a tese da conversão de línguas estava confirmada. Antes de crescer, e perceber que as coisas são mais complexas do que se imaginava, a garota passou uns longos 5 anos imaginando como a palavra “um” (seja como numeral ou artigo indefinido) seria em latim.

Nessa fase, quase adolescente, Helena empenhou-se em juntar centenas de papéis coloridos e cortá-los no mesmo tamanho pra fazer um diário. Depois não veio mais a chamar de diário, mas continua o usando da mesma forma. A capa é branca, e está escrito, com bastante detalhamento, fruto da caneta preta de ponta fina que o pai não a deixava usar, o seguinte termo: “In Secretum”. Para Helena e para quem conhece latim significa e pode significar “em segredo” – prova ínfima de que o saber pode ser uma grande ilusão – significava também que ali colocaria tudo que sabia, não queria esquecer e em hipótese alguma contaria a alguém ou escreveria em outro lugar.

A triagem dos pensamentos qualificados como “in secretum” e, portanto, confinados no livro colorido é bastante simples. O procedimento se resume em separar sob o ponto de vista da própria Helena tudo aquilo que pudesse magoar alguém que ela gosta ou ama, e/ou, que pudesse fazê-la sentir uma vergonha insuportável por pensar naquele pensamento.

Quando Helena amou pela primeira vez ficou in secretum uma tentativa diária, de explicar com as poucas palavras que conhecia sobre a realidade, aquelas sensações inéditas e intermináveis de desejar tornar duas pessoas uma unidade indissociável, de descrever a vontade de tomar decisões inconseqüentes que colocam o amor na frente de tudo. De tudo.

Quando Helena amou pela segunda vez, mais esporadicamente, ou melhor, quando sobrava tempo ou tristeza, ficou in secretum toda a forma de racionalizar que aprendeu pra não correr o risco de doer muito, foi uma tentativa de entender o amor. Uma tentativa de tentar prever e manipular a dinâmica daquele amor. Já não existe mais o amor enquanto aquele a quem ela ama, mas o amor enquanto aquilo que ela tem por alguém. Há um trecho que define muita coisa e mostra seu apreço por neologismos:

“ [...] no fundo eu sei que o que nos une é uma pura fantasia mútua e desentrelaçada. E tomara, torço, que não seja totalmente desentrelaçada. Só assim, quando algum de nós, ou “nós”, for tão pés-no-chão ou o que fazemos for tudo mesmidade, haverá algum laço desfantasiado pra fazer verão pra sempre [...]”.


Quando a mãe de Helena foi-se para sempre o que ficou in secretum foi raiva. A frustração de não poder fazer a mãe sofrer de tê-la feita sofrer tanto, a vontade de punir a mãe por não cumprir seu papel de morrer velhinha, e no meio de tantas páginas rabiscadas e molhadas, pedidos de desculpas e promessas de manter a mãe eterna no seu coração.

"In Secretum ficou um monte de cores em branco. Foi tornando-se mais um álbum de pensamentos do que um cofre de segredos. Conforme o tempo foi passando, bastante ocasionalmente lia, e mais ocasionalmente ainda nele escrevia. Adulta foi ficando com segredos tão guardados que quase sempre os escondia de tudo.

domingo, 8 de novembro de 2009

Batida perfeita

Helena não se toca só se deixa que toquem. Tanto não se toca que não sabe aonde é que, alguém, quando se aproxima deve encostar. Quando sente aquela coisa boa por alguém é uma das maiores coisas boas do mundo. Ama vulneravelmente. Porque recebe toques de surpresa aonde jamais saberia que apertar ali nela podia dar-lhe tanta felicidade... Ou vontade de ficar bem longe dali.

A maior virtude da amizade são suas formas que a seguram. É solta, pode ir e voltar. Não deve, e se deve só paga quando puder. Um abraço apertado. Quando Helena estava tediosa do mundo e saiu do quarto conheceu a sua colega estudante. Claro que já tinham trocado meias palavras pra estarem morando juntas, mas nenhuma sabia ainda o que a outra era. Impressionou como se sentiu tão bem, só podia ser coisa do destino. O que cá entre nós é uma baboseira, as condições históricas dos estudantes distantes de pais são tão semelhantes que é difícil não ter papo pra falar ou conversa fiada.

Quando Helena saiu do quarto e passava pela sala pra ir fazer sabe se lá o quê: abrir a geladeira, tomar água sem sede ou olhar pela outra janela e voltar. Aconteceu.

- Oi! – naturalmente dito.
- Olá! – respondeu Helena com o tônus muscular do corpo inteiro rígido, e pensando se a colega poderia perceber.
- A gente nem se conhece e moramos juntas – risos – deve ser essa coisa louca de estudante, só usando a casa pra dormir, e olha lá, com essa quantidade de festas, a minha nova casa me serve mais como um closet do que uma casa – mais risos.

Helena não ia tanto a festas, mas conseguiu ver que nos últimos dias pensava que deveria ir já que a colega quase nunca estava em casa. E disse sorrindo do comentário:

- É verdade. Acho que desprender-se da família faz a nossa casa não ser mais física, mas ser o lugar aonde a gente quer estar.

A colega, que a propósito, chamava-se Marcela, ficou muito surpresa com a profundidade de Helena e disse:

- Nossa. Você traduziu tudo o que eu quis me dizer, mas não consegui me escutar.

Helena não sabia. Marcela também não sabia. Que Helena gosta que as pessoas entendam os seus significados das coisas, e que acreditem nos seus significados das coisas. Helena não sabia e Marcela sabia. Que Marcela gostava de pessoas que pensassem sobre o significado das coisas. Só podia dar certo mesmo.

É todo mundo tão diferente de ser agradado. Quem se conhece bem, sabe rápido quem, o que, e como deve procurar. Quem não se conhece bem tem que ter sorte. Os choques cotidianos vêm pra cima de nós nos encostando desenfreadamente. Toca aqui, toca ali. A gente aprende como gosta de ser tocado e nos viciamos em uma maneira de tocar. Helena não se toca. Helena não sabe que sabe muito bem como tocar.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Lepdoptera


A mãe de Helena queria que ela fosse bailarina, mas não adiantava, ela rasgava a meia e soltava o cabelo. E o fazia de uma forma sádica, aguardava silenciosamente o empenho da mãe e alimentava a sua esperança pra depois frustrar aquelas expectativas. Mas ela não é tão má se considerarmos que, até a morte carregarmos as expectativas dos outros é uma missão impossível, e aqueles que se aventuram dessa idéia sentem-se fragmentos das vontades do mundo. Mais sádica ainda, Helena gostava era de piscina, rio, mar, lago ou cachoeira. Não importa a temperatura, sabor, profundidade, se for água, ela quer estar lá imersa. Não deu outra. Quando a mãe perguntou o que ela queria fazer ela disse:

- Nataçãooooo!

Trata-se de um esporte magnífico, a mãe concorda. Mas ela que queria tanto que Helena fosse uma bailarina com aquele pescoço longo e uma coluna perfeita, com movimentos suaves e uma expressão fidedigna do gênero feminino. Temia que ela viesse a parecer aquelas nadadoras alemãs que apareciam na TV nas épocas de olimpíadas, altas demais pra fazer bom par com qualquer homem no altar, e larga demais para que pudesse usar roupas delicadas, e fosse , então, por conseqüência, uma expressão fidedigna de mulher-macho. São tantos medos sobre Helena, acho que o que ela é é o ao contrário de tudo que ela deveria ser. É que por mais que tentemos controlar as minúcias das primeiras aprendizagens do ser humano, caoticamente, um acontecimento descontrolado mínimo e único torna cada um de nós especial.

O inevitável estava feito, e se a mãe estivesse viva para ver teria se surpreendido ao verificar que o produto foi melhor que a encomenda. Helena era uma nadadora com corpo de bailarina, a única da equipe de natação da universidade. Nadava tão femininamente que dava a impressão de estar voando e apenas resvalando a superfície da piscina. Era como se quando ela afundasse o braço para gerar impulso gerasse 1/3 das bolhas que as nadadoras comuns geravam.

Era a etapa final das eliminatórias para definir a equipe que participaria dos campeonatos de grande status. O quesito era 200m de nado borboleta. Helena mergulhou, não estava à frente, ficou ansiosa, pensou em quase tudo ao mesmo tempo, olhava para as meninas e via que estavam na frente, percebeu que seu coração estava disparado e tentou controlá-lo, começou a se lembrar de todas as técnicas de respiração, força e controle emocional, fez a volta para a reta final sem fôlego e as suas picuinhas mentais explodiram. Silêncio interior total. Era uma imersão no vácuo das relações com o mundo, o movimento de borboleta permaneceu naturalmente mecânico. Os únicos vínculos dos sentidos agora eram dois, primeiro um estrondo dos gritos da torcida, e depois o som da água, o apaziguador som da água. Uma batalha de ataque e contra ataque contra os gritos humanos estridentes e sem sentido e o som da água explicando tudo o que ela precisava ouvir.

Helena toca o azulejo da borda da piscina. Quando levanta a cabeça alguns amigos correm em sua direção. Helena mergulha e imersa na água fria com gosto de cloro grita:

- É pra você mamãe onde quer que esteja. Amo você.

Barrigudinha


Nos nossos tempos modernos a adolescência está muito gorda. Isso não é notícia muito nova e já há muita pesquisa empírica relacionando a idade com os comportamentos próprios da infância: brincar, chorar e ser totalmente sincero; e os comportamentos próprios do adulto: produzir a própria existência pelas condições possíveis ou pela sorte do berço de ouro. Os outros comportamentos, despreocupação e filosofia existencial, são os mais comuns da adolescência larga e não são avaliados diretamente, mas são resultados do não enquadramento na gênese ou maturidade do ciclo vital. Bom, enrolando menos, a adolescência engordou e até misturou-se com algumas juventudes, e os seus extremos sofrem pressões desesperadoras. Na ponta dessa barriga, no umbigo, estão muitos universitários. Sem uma precisão de como tornar-se adultos e sendo empurrados para um emaranhado de escolhas, que com o passar do tempo parecem cada vez mais irreversíveis. A finalidade esperada é conseguir mergulhar no umbigo e voltar-se pra dentro de si mesmo, de modo a garantir a sua fatia do bolo. Pena que nem todos foram convidados pra festa...

Um ponto disso é que, a transição entre a adolescência-juventude, é frequentemente impulsionada pela necessidade de ocupar-se. E é a idéia de ocupação que vale a pena ser bem discutida...

Quando Helena era adolescente era uma borboleta e não sabia. Olhava-se no espelho e sentia-se uma verdadeira lagarta. Achava que só viria a tornar-se borboleta quando finalmente o tempo de poder ser desocupada, pela justificativa na fase do ciclo vital, tivesse o seu fim. Esperava ansiosamente, e nas suas tardes vazias ficava especulando sobre o futuro e a mulher que iria ser pro mundo. Sabia que seria magra, mesmo depois do seu terceiro filho, sabia também que queria formação superior para conhecer muito sobre algo e não ter que trabalhar por obrigação em qualquer coisa, e, sobretudo, que seria feliz. Helena tinha lá seus desejos e sonhos profissionais. Mas antes de profissionais, desejos de Helena. A profissão é só um conceito, uma entidade objetiva, pra indicar o que Helena gosta de fazer e se é importante o bastante para que garanta os subsídios de sua existência, afinal, ela já sabe que viver custa trabalho.

A universidade estava lhe parecendo uma grande corrida. Havia uma onda gigante vindo atrás de um monte de estudantes correndo pra conseguir cair dentro do umbigo e não correr o risco de ficar boiando em um mar de “desocupados”.

Helena um dia sentiu-se desocupada. Desocupada no sentido de desnecessária para qualquer coisa útil naquele momento. Ficou olhando na janela do seu quarto e vendo as pessoas andando, ela acabou olhando pra si mesmo. Estavam elas andando com as suas preocupações. Na verdade estavam elas andando com as suas pré-ocupações. Helena poderia descansar e isso, na prática é uma maneira de ocupar-se. Sentir-se desocupado e estar pré-ocupado. Pré-ocupado de coisas que levariam ao próprio umbigo, umbigo fundo e irreversível dessa pança gorda.

Ninguém ensinou pra Helena uma maneira de ocupar-se sem ser pro caminho do seu próprio umbigo. Na verdade, quando alguém descobre como fazer isso, há uma grande probabilidade de morrer sozinho no mar. Helena sabia nadar bem, e decidiu tapar seu umbigo e pensar em como fazer isso e acabar com essa idéia idiota de umbigo. Foi um momento passageiro que ocupou a vida de Helena inteira.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Urge ao surdo uma vez


É só pela milésima vez o urgente devorando o necessário. Mas do que exatamente ela necessita se não mais do que a urgência? A urgência que urge: “faça-me!”. Construiu-se como pessoa necessitando o urgente. Entristece-se de necessitar a urgência, de precisar ser chamada por outra coisa que não si mesma. É por isso que o tédio que é tão dolorido pode lhe agradar, é só o que nasce dessa raiz sem genética que lhe é necessário e, claro, sem urgência.

Confinada em um lugar sem paredes, Helena, andava pela rua sabotando todos os seus pensamentos que tentavam dar fluidez ao seu cristal de urgências. Todas aquelas coisas que ela acreditava que a constituíam ajudavam nessa empreitada de sabotagem. Havia um contra-ataque de quase ultimo suspiro do verdadeiro propósito intrínseco a sua existência tentando evitar ser completamente suprimido por tal armadilha. Na cabeça falava a “prova”, falava o “trabalho”, falava o “ser como outros queriam que ela fosse”, falava o “fazer o que lhe solicitavam com prontidão” (o que demonstraria sua alta significação). Ela não sabia o porquê, mas eu sei. Ela nunca respondeu nenhuma pergunta errada, mas nunca extravasou suas perguntas que só ela sabe que seriam excelentes e poderiam revolucionar as quinquilharias filosóficas das pessoas de senso comum.

Por um instante o contra-ataque adormeceu o que lhe ataca. Helena decidiu parar e foi entrar na livraria mais próxima com um picolé de uva na mão. Tomando todo o cuidado pra não melar os dedos - já que precisaria deles para manusear os livros - Helena melou todos os seus dedos e esforçou-se ao máximo para limpa-los: escondendo-se por trás de uma das gôndolas de livros e ao obter certeza de não haver nenhum humano nos seus 360º, lambeu-os e depois os passou suavemente sobre a calça jeans. Com suas mãos limpas fez uma escolha. Um autor, um assunto, o que pareceria uma escolha óbvia dentro de uma livraria. Mas Helena escolheu o que queria fazer da vida, que função ia ter dentro de toda essa estrutura social que parece que cada um só compreende do seu jeito e isso não faz nada funcionar muito bem. Não tinha certeza se iria dar certo, mas tinha a absoluta certeza de que arriscaria por ali manifestar o seu contra-ataque às urgências que, milagrosamente, podem ser adormecidas esporadicamente.