terça-feira, 22 de setembro de 2009

Ela é...


Ainda não apareceu ninguém nesse mundo que conhecesse Helena e já tivesse corrido o risco de dizer ou saber que ela é. Mesmo que tal afirmação seja contraditória para ela, pois acredita que quando conhece algo sabe o que o “algo” é. Quando tinha cinco anos de idade seu pai lhe perguntou o que era aquele pano encardido que ela não largava nunca e ela explicou:

- ...é o “rolofôto”... é macio e me faz muito carinho...
- Isso é um pano encardido e só!! – enfatizou o pai.

Daí pra frente já entendeu que seu pai não conhecia o “rolofôto”, mas ainda assim teve esperança que um dia lhe pudesse explicar com mais clareza. Boca santa. Na adolescência retomou a polêmica em uma generalização quando seu pai perguntou o que era aquela música e ela lhe explicou com perseverança:

- É rock!... É relaxante e ajuda a expressar minhas dores do mundo.
- Isso é um barulho irritante. Abaixe o volume!!!

Não parou nesses casos isolados, a recorrência desses eventos eram demasiadamente freqüentes. Quando em uma aula da escola Helena descobriu que “autismo” referia-se a “pessoas que vivem em outro universo” pôde finalmente entender porque seu pai nunca poderia conhecer as coisas que ela conhece.
Boca santíssima. Mais tarde, um pouco antes de sair de casa para ir fazer a graduação em uma universidade de outro estado, num episódio de lapso de emoção chorosa diante do pai, fez a pergunta:

- Você me ama como eu sou?
- Sim meu amor. Amo a sua beleza, você é linda. Lembro-me de você com o seu pano encardido andando pra lá e pra cá e que “benzadeus” você o largou. Lembro-me de você ouvindo aquelas músicas barulhentas e sem sentido. E veja você agora: uma mulher madura, decidida sobre o seu futuro, educada e responsável.
- ... (lágrimas).

Helena despediu-se emocionada. O pai não a conhecia. A essa altura da vida já sabia que o pai não era autista, sabia também que talvez ela nunca tenha se apresentando formalmente ao seu pai. Contentava-se de que, ao menos ele sabia que ela era linda, mas pensava no que adianta se isso todo mundo poderia ver. Ele não conhecia a maioria das coisas, mal sabia que era uma garota assustada querendo voltar atrás, sempre que fazia uma escolha perdia a certeza de tê-la feito, era educada com tudo e todos sem nunca entender exatamente o porquê, e achava insuportável ter responsabilidade porque sempre que falhava sentia uma culpa mais pesada que um navio. “Talvez a culpa seja minha”, ela pensava durante a viagem.
Quando me arrisco a dizer o que ela é, digo que é linda, completamente linda, desde a pele até a profundidade da pupila, e é, acima de tudo, um poço de expectativas. Só um poço de expectativas poderia ser algo tão inconstante e de ser inalcançável. Mas retificando, era um poço de expectativas que sentia culpa.

sábado, 19 de setembro de 2009

Despertar


Helena, ao preparar o despertador do amanhã, constata que horas são e é tomada por uma ansiedade contraditória, vê que tem menos de seis horas de descanso, de fuga do mundo e da existência, ultimamente, morna, na inércia do mundo. Contraditória ansiedade porque ao pensar nisso perde o sono que ainda nem encontrou e faz com que rapidamente dali a pouco tenha menos de cinco horas de descanso, quatro horas de descanso, e por aí vai, quanto mais preocupação, menos tempo de descanso, menos se ausenta do mundo. Desfaz a cama e organiza os travesseiros de uma maneira aconchegante e protetora, na sequência apaga a luz, de modo que não vê onde está aquele “ninho” aconchegante que tinha acabado de organizar pra tentar lá encontrar o sono, mas sabe exatamente o caminho pra chegar lá, afinal, já fizera isso por mais de 13 anos, desde que em algum momento específico o seu pai não mais lhe colocava sobre a cama e dava-lhe um beijo estalado apagando a luz ao sair. Essa praxe de quase toda a noite parece a ela algo tão eterno e ininterrupto, como se entre esse ritual da busca do sono e o próximo tivesse um vácuo cheio de coisas. Deitada, com seus olhos abertos, só vê o escuro, que parece engolir seu corpo ou desmaterializá-lo, sente que existe ali só pela consciência de si, do quarto, de estar sendo puxada em direção a sua cama. Porém, aos poucos suas pupilas imensamente dilatadas absorvem o escuro como um grande aspirador deixando-a ver o ambiente todo sem cor e completamente distinguível. Ainda assim não encontrava o sono, estica-se, abraça os seus cobertores, se enrola com os cobertores e fecha os olhos. Tudo some, agora são só sensações presas em si. A sensação inoportuna de tantas coisas que queria mudar e quem sabe amanhã seja de fato possível. É uma pena que tudo não dependa só dela, mas sim de eventos caóticos e controladores. Ah! Se não fosse assim seria tão diferente... Abre os olhos que aparentam estar grudados e foram incomodados por uma luz fraca que incide nas insuficiências funcionais da cortina e ao mesmo tempo pelo som de alguém, qualquer pessoa que anda fora do quarto. Intrigada, pensa se ainda tem algum tempo para dormir, a sua indisposição é gigantesca e agora ela tem o sono forte e só pra ela, finalmente... Agressivamente o despertador toca.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Sutileza De Le Fante


Transitando dia-a-dia e rotineiramente pelo mesmo lugar há uma grande probabilidade de encontrar-se sempre com a mesma gente. Daí a possibilidade – das maneiras como ocorrerão esses encontros e dos significados que serão atribuídos – emerge nesse lugar metafísico das interações humanas. Lugar esse onde de inicio não há delimitações ou regimento restrito, mas que na velocidade da luz surge de forma sutil e mais controladora que qualquer lei nacional.

É só mais um dia normal na vida de Helena, exceto que depois de sair de casa (nesse dia) vai para o seu primeiro dia de aula na universidade. Quase tudo já está programado: o ônibus que precisará pegar, o trecho que vai precisar percorrer andando, a roupa que vai usar, entre outros pormenores similares. Quanto ao guarda-chuva, Helena não sabe se deve levar, desde criança não confia nos meteorologistas e suas probabilidades, foram tantos fins de semana na praia esperados e no fim chuvosos... Toda essa preparação de repente lhe dá ansiedade e Helena se dá conta: como serão as pessoas? Só pensar nisso lhe acelera o pulso de imaginar tantas possibilidades que cabem na sua vida dali pra frente, as coisas não vão indo mal, mas também não vão indo bem. Será ali, na universidade, que terá um grupo de amigos revolucionários e começara a lutar por uma verdade que dará sentido a sua existência mesmo que a impeça de ter uma vida tradicional com uma família bem instituída? Será que lá vai encantar-se com algum jovem inteligente e aventureiro, que não use drogas, seja moreno, romântico, popular, do tipo animado e feliz? Dessas duas possibilidades em diante ela pode calcular mais umas duzentas e vinte e duas. Sem perceber é claro, no que implica os seus duzentos e vinte e quatro enquadramentos possíveis.

Não é de todo problemática a construção das possibilidades, só o é se esquecer-se de considerar que uma possibilidade também é construída, ainda mais se tratando de juntar outras pessoas, outros universos, nas nossas possibilidades. É nessa minuciosa escolha de esperar algo de algo que não se sabe o que esperar que o ser humano perde a calma, tropeça e deixa passar voando aquilo que é mais seu do que de qualquer outra pessoa no mundo.

No fim do dia, Helena, deitada em sua cama, só tinha no devaneio pré-sono duzentas e quarenta e quatro frustrações. Sentia uma culpa devoradora de todos os seus atos sem perceber o desrespeito que tinha causado a si mesma quando antes de compreender a si mesma quis compreender um monte de pessoas que ainda nem existiam. Seria tão diferente se as expectativas fossem como a certeza de que não deveria confiar nos meteorologistas e arriscar se molhar porque achava incomodo carregar essa geringonça. Quando se formou tinha uma história maravilhosa pra contar, cheias de virtudes extremamente singulares, mas sem calma, começou a especular sobre a sua próxima jornada no mercado de trabalho...

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

significado das coisas


Não é de se impressionar que o esporádico duradouro signifique tanto, o que é de se impressionar é que o todo-dia esvaia de uma só vez. Talvez. Talvez só seja que: no enlace ou na batalha de uma força constante e uma força surpreendente, o desequilíbrio se apresente com maior magnitude. Não sei se é por aí. Eu já me ouvi tanta verdade que de agora em diante eu não acredito mais em mim, quando um contraponto vence o ponto e vice-versa nem parece que qualquer fato seja digno de ser inserido em uma lógica existencial. Mas de alguma maneira eu sinto algo como um eixo, no qual se oscila tantos desejos e frustrações querendo do eixo se afastar o mais que puder e sendo puxados de volta mesmo quando não se quer.O que dorme em mim parece de sono tão profundo, tão no fundo, tanta coisa com medo de acordar. Parece que não tem jeito, tem que dormir ao menos com o olho direito se o esquerdo quiser alguma coisa para contemplar; abrir os dois olhos pode fazer a gente pirar.