
- ...é o “rolofôto”... é macio e me faz muito carinho...
- Isso é um pano encardido e só!! – enfatizou o pai.
Daí pra frente já entendeu que seu pai não conhecia o “rolofôto”, mas ainda assim teve esperança que um dia lhe pudesse explicar com mais clareza. Boca santa. Na adolescência retomou a polêmica em uma generalização quando seu pai perguntou o que era aquela música e ela lhe explicou com perseverança:
- É rock!... É relaxante e ajuda a expressar minhas dores do mundo.
- Isso é um barulho irritante. Abaixe o volume!!!
Não parou nesses casos isolados, a recorrência desses eventos eram demasiadamente freqüentes. Quando em uma aula da escola Helena descobriu que “autismo” referia-se a “pessoas que vivem em outro universo” pôde finalmente entender porque seu pai nunca poderia conhecer as coisas que ela conhece.
Boca santíssima. Mais tarde, um pouco antes de sair de casa para ir fazer a graduação em uma universidade de outro estado, num episódio de lapso de emoção chorosa diante do pai, fez a pergunta:
- Você me ama como eu sou?
- Sim meu amor. Amo a sua beleza, você é linda. Lembro-me de você com o seu pano encardido andando pra lá e pra cá e que “benzadeus” você o largou. Lembro-me de você ouvindo aquelas músicas barulhentas e sem sentido. E veja você agora: uma mulher madura, decidida sobre o seu futuro, educada e responsável.
- ... (lágrimas).
Helena despediu-se emocionada. O pai não a conhecia. A essa altura da vida já sabia que o pai não era autista, sabia também que talvez ela nunca tenha se apresentando formalmente ao seu pai. Contentava-se de que, ao menos ele sabia que ela era linda, mas pensava no que adianta se isso todo mundo poderia ver. Ele não conhecia a maioria das coisas, mal sabia que era uma garota assustada querendo voltar atrás, sempre que fazia uma escolha perdia a certeza de tê-la feito, era educada com tudo e todos sem nunca entender exatamente o porquê, e achava insuportável ter responsabilidade porque sempre que falhava sentia uma culpa mais pesada que um navio. “Talvez a culpa seja minha”, ela pensava durante a viagem.
Quando me arrisco a dizer o que ela é, digo que é linda, completamente linda, desde a pele até a profundidade da pupila, e é, acima de tudo, um poço de expectativas. Só um poço de expectativas poderia ser algo tão inconstante e de ser inalcançável. Mas retificando, era um poço de expectativas que sentia culpa.


