quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Impressões


“Você se parece tanto com um amigo meu”. A frase bateu no meio do estomago do Jorge. “Puta que o pariu”, ele pensava falseado em um risinho. Ficou olhando a Manoela se deliciando com a coincidência, mas sabia que aquilo não era nada bom. Logo o Jorge, que estava se empenhando para mostrar para aquela garota o quanto ele era original, de repente ele sabe que parece alguém para ela, só que ele não faz idéia de quem é essa pessoa!

A Manoela não perdeu o fio e continuou, ainda que ele não tivesse dito nada. Ficou falando o quanto ela adorava esse amigo, e quando ela olhava para o Jorge sentia tantas saudades. Nesse bate-papo monológico o Jorge ficou se sentindo só uma carcaça, como se ele só servisse para evocar a nostalgia na Manoela, e por baixo daquele pano de lembranças não tinha mais nada. Nada mesmo, era uma angústia, que ele mesmo nem podia reconhecer-se e sentia-se vazio.

Não dava jeito mesmo, o Jorge esmoreceu. Já fazia meses que ele ia se aproximando bem devagarzinho da Manoela. De um jeito tão devagar que ela nem percebeu as reais intenções. Muita gente que sabia da paixão dele pela Manoela insistia que ele fosse rápido e deixasse de ser lerdo! Só que Jorge não estava sendo lerdo. Na verdade ele sempre foi um franco atirador com mulheres, e quando queria dar uns beijos em alguma não tardava nem um pouco em falar, isso quando não era rápido demais, deixando as garotas falsas beatas super desconcertadas.

A mudança na abordagem amorosa não foi insanidade, é que com a Manoela ele tinha que ter aquela certeza absoluta. Ele estava tão caidinho por ela que mesmo com vinte e poucos anos nas costas se viu fazendo um coraçãozinho na orelha do livro. Quando fez isso pensou “puta que o pariu”, aliviado de ninguém ter visto. Cortou a orelha do livro, e foi jogar o papelzinho fora. Quando foi colocar no lixo ficou com remorso, e só conseguiu jogar fora quando deu um beijo no papel e pediu desculpas. A situação estava realmente no nível do descontrole, e se esse amor de Jorge por Manoela não fosse verdade ele estava então numa das maiores fantasias da sua vida.

Continuavam o passeio, e o papo ainda era “Jorge: a grande analogia do super amigão de Manoela”. Se ela tivesse um pouco de sensibilidade teria sido esperta o suficiente pra sacar o que ele estava sentindo. Jorge chegou até a sentir uma raivinha dela. Como se ela já soubesse tudo o que ele sentia, mas ficasse pisoteando o coração dele, aquele coração que ele vacilou ao jogar fora. Devia ter enfiado no lixo com as duas mãos. Só que pisoteada de amor não dói. E mesmo que sentindo vazio e raivinha, a Manoela foi tirar uma marca de suco que ficou no nariz do Jorge. Ele foi dar uma virada enorme naquele copo bocudo de suco de açaí, queria se afogar ali mesmo, aí ficou a marca no seu nariz. A Manoela, linda do jeito que era, quando sorriu dele e foi limpar o nariz do pobre coitado o fez virar uma criança. Aquela carcaça de lembrança de um amigo da Manoela se encheu de alegria, como se uma migalha de pão alimentasse a fome do mundo inteiro. E não parou por aí, a menina tinha um cheiro doce na mão, e quando aproximou delicadamente a mão do nariz do Jorge ele quase abriu a boca e comeu a mão dela de tão hipnotizado que ficou.

Foi só esse pequeno episódio do suco e o Jorge já esqueceu tudo que achou de ruim nela. Ele realmente estava apaixonado, cego do mundo e vislumbrado só dela, da Manoela. Tinha outras coisas também que o faziam ser vagaroso com a Manoela. Era a primeira vez que ele sentia que sentia algo assim, e já conseguia imaginar ele e ela fazendo de tudo juntos. De tudo mesmo! Além de que nos vinte e poucos anos começa aquele papinho de jovem que tem pressa em ser meia-idade e sai dizendo por aí sem vergonha que já curtiu o tempo de curtir, que agora vai começar a etapa do grande sonho capitalista da vida, namoro sério, casamento, carreira, família, filho, e o depois disso ninguém sabe direito.

Era um fato que ninguém desmentia. O Jorge estava caidão e só a Manoela, ou não sabia ou fingia que não sabia. As más línguas diziam que ela sabia. Que mulher é bicho controlador mesmo, e não perde a oportunidade de domar um homem e ficar tirando proveito. Falavam que tinha certeza que o Jorge pagava um monte de coisa e ela ficava só aproveitando, afinal ela não tinha porque não aceitar. Era um exagero soberano isso, era quase dizer que a Manoela era uma prostituta. Isso dizia as boas línguas. E essas diziam também que a Manoela sabia sim, mas que gostava de homem que se colocava, fosse firme. Provavelmente virou só amiga do Jorge porque ele demorou tanto que ela achou que era isso que era pra eles serem mesmo.

Acho que a Manoela sempre soube e não era santa. Mas não há culpa em seu regozijo. Mas por outro lado também não era a diaba. Não tinha certeza mesmo sobre o que Jorge queria afinal. Já tinha ouvido falar que ele beijou sei lá quem em uma sei lá qual festa depois de ter virado amiga dele. Ela não arriscaria nunca interceder, fora uma das últimas mulheres ainda educada pela sociedade sexista de que os homens é quem dão o conchavo final.

O Jorge, sufocado pelo cheiro ludibriante da mão da Manoela num ato reflexo segurou a mão dela e deu um beijo. Foi uma cena de filme mesmo. A Manoela continuou sorrindo do atrapalhado Jorge com seu suco, mas agora ela sorria do demorado Jorge que tomava então a grande providência. Ela havia esperado tanto que quase desistia mesmo de achar que fosse verdade. O Jorge largou o copo meio cheio ou meio vazio de suco no chão. Ficaram os dois bobos, rindo, sem nada a declarar. As declarações já vinham a meses sendo feitas e veladas naquilo que eles fingiam ser uma amizade qualquer. Ao mesmo tempo se deram um beijo, conchavaram juntos, fecharam afinal um negócio, depois de uma árdua negociação meticulosa no seu melhor tempo.

Foi um primeiro beijo de muitos que se seguiram. Sem saber mais se eram boas ou más, enquanto as línguas do Jorge e da Manoela se enroscavam apaixonadas, as outras línguas só diziam que já sabiam mesmo que uma hora isso ia acontecer, com aquele gostinho de quem sabe prever bem o futuro dos outros, só dos outros.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Magrela

Pedala menina magrela. Sobre sua bicicleta vermelho-amarela. Pedala forte e rápido, e na sua pressa e com sua finura, você passou bem rápido e quase ninguém a viu. Pedala menina magrela, leva sobre essas duas rodas a sua pessoa cheia de compromissos. Pedala e desvia no meio desse monte de gente que não tem nada a ver com isso. Muita gente te viu passar pra lá e pra cá e esqueceu logo depois. Menina magrela é só um sopro que nunca se sabe se está de encontro ou contra o vento.

Só que num dia eu estava sentado, na beira duma guia de um rio de concreto. Estava sem nada por fazer e cansado de tanto usar calçado tinha saído de chinelo, sentei na graminha pra deixar meu pé ver um pouco do sol. E ai eu vi você menina magrela, sem sorriso e sem ternura, e só te reconheci na sua bicicleta vermelho-amarela. Você foi pra lá sem peso, e eu quase não te vi. Você voltou pra cá um tempo depois, e eu quase não te vi de novo. Pedalava naquela bicicleta com para-lamas, com cesto na frente vazio, e uma mochila levando um bom peso nas costas.

Depois de tantas passagens não pude esquecer mais. Não sabia mais ao certo se sua finura e sua pressa desenfreada no seu jeito esguio de desviar do monte de gente era um esforço seu em cegar o mundo de sua magreza. E não devia parar só por aí, não devia ser só em cima da bicicleta. A sua comida no restaurante por quilo era de tão pouca comida quase de graça. Você me chamou a atenção para aquilo que passa, a gente vê, mas não deixa graça.

De que mundo você quer se esconder menina magrela? Qual é afinal o vislumbre que não pode te acolher? Fiquei perguntando mil coisas sem saber responder. E num certo momento, quando me espreguicei e você passava mais uma vez percebi que alguma vez seria a última passagem. A menina magrela precisa descansar suas pernas longas, num colchão bem macio que pra ela nem um pouco afunda. Seus passos são como sob as rodas, não fazem barulho, não trotam. E nessa última vez você levava junto do pequeno corpo uma sacola, cheia de livros que precisariam de muito mais tempo do que parece para serem lidos.

Pedala menina magrela, pela última vez de hoje. Mais um dia de missão cumprida e você conseguiu, escamoteada em seus compromissos mais um monte de gente quase não te viu. Você foi no meio do vento, quase sem cheiro, pra lá e pra cá. E voltou para algum mesmo lugar. No espaço pequeno dentro de você pouco deve caber, um pequeno desejo, um pequeno anseio, um tolo desprazer.

Eu te vi, e não me esforçarei pra não te esquecer. Quando você não passou mais eu me voltei pra mim mesmo, sentado na guia, na margem daquele rio de concreto eu vi uma outra moça na janela. Ela me olhava com a testa frisada e intrigada. Levantei, já estava na hora de ter algo por fazer, fui num passo atrás do outro, no rio de concreto, voltar pro mesmo lugar de todo dia.

Cem Palavras


Ela fechou a porta do quarto e me deixou sozinho. Houve duas escolhas por ali, a dela e a minha. A dela de ir, sem olhar para trás. A minha de deixar ir, sem puxar pelo braço com força. Eu fiquei meio atônito, tentando nomear aquilo que tinha acontecido com alguma palavra que naquilo que tinha acontecido coubesse. Foi uma sensação engraçada. Parece que uma palavra tem um poder curioso, e pode ser realmente perturbador quando não se pode nomear alguma parte da vida.

As palavras realmente fazem as coisas parecerem claras, torna-as compreensíveis. É como se na palavra a gente pudesse colocar as coisinhas que sente por aí, cotidiano a fora. Quando não há palavras para as coisas é como se as coisas não pudessem ser colocadas para fora, é como se ficassem como uma coisa não-nomeada e parasita dentro do nosso corpo, e fica-se irritado querendo falar algo, querendo jogar aquilo pra fora.

Maldição! Racionalizar não adianta, só faz ficar em torno dessa coisa com um monte de palavras, como se perseguisse um nome para aquilo. Aquilo, indefinido e indefinível. Eu queria tanto uma palavra pra essa coisa que a tirasse de mim, daí eu poderia olhar pra ela de fora, poderia vê-la e compreendê-la, poderia explicá-la. Mas como é que fazemos pra nomear algo que não sabemos do nome?

Eu arrisquei ainda dizer que o que tinha acontecido ali era uma ocorrência indefinível, mas essas duas palavras significam para mim algo que não pode ser definido, e nesse paradoxo eu não supri minha necessidade. Eu precisava de uma palavra certa, da palavra que significasse aquilo que eu realmente queria por pra fora. Não deu outra e numa outra tentativa bem desesperada: Feretch! Inventei uma palavra que não significava nada. Nem ao menos parece uma palavra da minha língua. Tentativa inútil. Não adianta juntar qualquer coisa esperando que dê certo, isso seria sorte demais.

Nesse desespero de buscar pela palavra certa eu percebi que estava desesperado. Desesperado! Eu senti que embora essa não fosse a palavra que dissesse aquilo que precisava ser dito, era uma palavra que estava pertinho, que puxava pelas mãos aquilo que precisava ser dito. E desesperado se parece tanto com separado! Olha só! As essas palavras estão quase de mãos dadas e eu ainda poderia formar um razoável neologismo desseparados. Elas realmente me pareciam de mãos dadas agora, mas como se rodopiassem em torno daquilo que eu ainda não conseguia nomear.

E nessa ciranda de palavras em torno da maldita coisa, que eu não sabia ainda dizer, eu fiquei cantarolando. Desesperados, separados, perdidos, soltos, desajuizados, inconseqüentes, inquietos, imediatistas, impulsivos, inconsoláveis, sozinhos, solitários, desistentes, rebeldes, e palavras por aí a nos punhados de dicionários. Elas ficavam nessa ciranda em volta do que eu sentia, cantavam como se ironicamente soubessem o que era, mas como se não pudessem me dizer, já que cada palavra só poderia dizer aquilo que ela mesma significava.

Só que nessa ciranda, nesse monte de palavras, nessa música do desespero de estarmos separados, uma angústia infinita escalava a minha garganta, uma angústia apertava meu coração fazendo meu corpo todo estremecer. Um tremor que levava minha mão aos olhos, que me fazia inconsolável, que me fazia lacrimejar. E eu vomitei a angústia com uma palavra, com a palavra certa. Abandonados.

Fizemos isso um com o outro. Abandonamo-nos. Ficamos oriundos. Sem bando, ou pior dizendo, com bando debandado. Eu fiquei ali dizendo a mim mesmo. Ela escolheu sair pela porta sem olhar para trás, me abandonou, me deixou abandonado. Eu escolhi a deixar sair sem puxar o seu braço com força, eu a abandonei, a deixei abandonada. Fiquei olhando para meus próprios dedos e pensando como foi que deixei que ela me escorresse por entre eles, como manteiga esquecida em cima da mesa. Quando fui que a esqueci? Quando foi que eu a abandonei? Quando foi que nós, burramente, nos abandonamos?