
A Manoela não perdeu o fio e continuou, ainda que ele não tivesse dito nada. Ficou falando o quanto ela adorava esse amigo, e quando ela olhava para o Jorge sentia tantas saudades. Nesse bate-papo monológico o Jorge ficou se sentindo só uma carcaça, como se ele só servisse para evocar a nostalgia na Manoela, e por baixo daquele pano de lembranças não tinha mais nada. Nada mesmo, era uma angústia, que ele mesmo nem podia reconhecer-se e sentia-se vazio.
Não dava jeito mesmo, o Jorge esmoreceu. Já fazia meses que ele ia se aproximando bem devagarzinho da Manoela. De um jeito tão devagar que ela nem percebeu as reais intenções. Muita gente que sabia da paixão dele pela Manoela insistia que ele fosse rápido e deixasse de ser lerdo! Só que Jorge não estava sendo lerdo. Na verdade ele sempre foi um franco atirador com mulheres, e quando queria dar uns beijos em alguma não tardava nem um pouco em falar, isso quando não era rápido demais, deixando as garotas falsas beatas super desconcertadas.
A mudança na abordagem amorosa não foi insanidade, é que com a Manoela ele tinha que ter aquela certeza absoluta. Ele estava tão caidinho por ela que mesmo com vinte e poucos anos nas costas se viu fazendo um coraçãozinho na orelha do livro. Quando fez isso pensou “puta que o pariu”, aliviado de ninguém ter visto. Cortou a orelha do livro, e foi jogar o papelzinho fora. Quando foi colocar no lixo ficou com remorso, e só conseguiu jogar fora quando deu um beijo no papel e pediu desculpas. A situação estava realmente no nível do descontrole, e se esse amor de Jorge por Manoela não fosse verdade ele estava então numa das maiores fantasias da sua vida.
Continuavam o passeio, e o papo ainda era “Jorge: a grande analogia do super amigão de Manoela”. Se ela tivesse um pouco de sensibilidade teria sido esperta o suficiente pra sacar o que ele estava sentindo. Jorge chegou até a sentir uma raivinha dela. Como se ela já soubesse tudo o que ele sentia, mas ficasse pisoteando o coração dele, aquele coração que ele vacilou ao jogar fora. Devia ter enfiado no lixo com as duas mãos. Só que pisoteada de amor não dói. E mesmo que sentindo vazio e raivinha, a Manoela foi tirar uma marca de suco que ficou no nariz do Jorge. Ele foi dar uma virada enorme naquele copo bocudo de suco de açaí, queria se afogar ali mesmo, aí ficou a marca no seu nariz. A Manoela, linda do jeito que era, quando sorriu dele e foi limpar o nariz do pobre coitado o fez virar uma criança. Aquela carcaça de lembrança de um amigo da Manoela se encheu de alegria, como se uma migalha de pão alimentasse a fome do mundo inteiro. E não parou por aí, a menina tinha um cheiro doce na mão, e quando aproximou delicadamente a mão do nariz do Jorge ele quase abriu a boca e comeu a mão dela de tão hipnotizado que ficou.
Foi só esse pequeno episódio do suco e o Jorge já esqueceu tudo que achou de ruim nela. Ele realmente estava apaixonado, cego do mundo e vislumbrado só dela, da Manoela. Tinha outras coisas também que o faziam ser vagaroso com a Manoela. Era a primeira vez que ele sentia que sentia algo assim, e já conseguia imaginar ele e ela fazendo de tudo juntos. De tudo mesmo! Além de que nos vinte e poucos anos começa aquele papinho de jovem que tem pressa em ser meia-idade e sai dizendo por aí sem vergonha que já curtiu o tempo de curtir, que agora vai começar a etapa do grande sonho capitalista da vida, namoro sério, casamento, carreira, família, filho, e o depois disso ninguém sabe direito.
Era um fato que ninguém desmentia. O Jorge estava caidão e só a Manoela, ou não sabia ou fingia que não sabia. As más línguas diziam que ela sabia. Que mulher é bicho controlador mesmo, e não perde a oportunidade de domar um homem e ficar tirando proveito. Falavam que tinha certeza que o Jorge pagava um monte de coisa e ela ficava só aproveitando, afinal ela não tinha porque não aceitar. Era um exagero soberano isso, era quase dizer que a Manoela era uma prostituta. Isso dizia as boas línguas. E essas diziam também que a Manoela sabia sim, mas que gostava de homem que se colocava, fosse firme. Provavelmente virou só amiga do Jorge porque ele demorou tanto que ela achou que era isso que era pra eles serem mesmo.
Acho que a Manoela sempre soube e não era santa. Mas não há culpa em seu regozijo. Mas por outro lado também não era a diaba. Não tinha certeza mesmo sobre o que Jorge queria afinal. Já tinha ouvido falar que ele beijou sei lá quem em uma sei lá qual festa depois de ter virado amiga dele. Ela não arriscaria nunca interceder, fora uma das últimas mulheres ainda educada pela sociedade sexista de que os homens é quem dão o conchavo final.
O Jorge, sufocado pelo cheiro ludibriante da mão da Manoela num ato reflexo segurou a mão dela e deu um beijo. Foi uma cena de filme mesmo. A Manoela continuou sorrindo do atrapalhado Jorge com seu suco, mas agora ela sorria do demorado Jorge que tomava então a grande providência. Ela havia esperado tanto que quase desistia mesmo de achar que fosse verdade. O Jorge largou o copo meio cheio ou meio vazio de suco no chão. Ficaram os dois bobos, rindo, sem nada a declarar. As declarações já vinham a meses sendo feitas e veladas naquilo que eles fingiam ser uma amizade qualquer. Ao mesmo tempo se deram um beijo, conchavaram juntos, fecharam afinal um negócio, depois de uma árdua negociação meticulosa no seu melhor tempo.
Foi um primeiro beijo de muitos que se seguiram. Sem saber mais se eram boas ou más, enquanto as línguas do Jorge e da Manoela se enroscavam apaixonadas, as outras línguas só diziam que já sabiam mesmo que uma hora isso ia acontecer, com aquele gostinho de quem sabe prever bem o futuro dos outros, só dos outros.


