
Era moça tímida e não tem jeito, por natureza de sua vergonha antecipada, sem jeito. Sem jeito de ser, porque não há jeito que queira experimentar, já que ser de qualquer jeito que for pode ser arriscado demais. O azar do tímido é um fato que o conhecimento popular, aquele que vasa nas conversas cotidianas, sabe melhor que ninguém, que o tímido no seu esforço explícito em não ser visto é mais visto que o filme em cartaz.
Eu não conheci bem essa moça, mas me lembro dela do casamento de uma amiga rica minha. Ocasião ideal para um lugar cheio de gente que não se conhece, unidos por um objetivo comum: aproveitar a fartura dos comes e bebes e, quem sabe, pegar o buquê e conhecer um amor prometido ali mesmo. Essa moça estava com um vestido azul marinho, e sobre o decote tomara-que-caia uma jóia de pérolas pendurada no pescoço fino. Isso me marcou, porque a moça não soltava o colar. Ficava manipulando as pérolas com as pontas dos seus longos dedos, como se rezasse um terço em romaria. De tanto fazer isso, a pele de seu colo ficou com um vergão vermelho.
Fui a esse casamento não porque eu era chegado dos noivos, e para falar a verdade eu nem sabia quem era o cara que disse “sim”. Só que por obra do destino reencontrei essa amiga, a noiva, duas semanas antes do casório. Eu não a via já fazia uns dezessete anos. Nós éramos bons amigos no ginásio, mas nada que ultrapassasse os muros da escola, embora, uma vez ou outra, tivéssemos dados uns amassos nesse mesmo muro. O fato foi que ela me reencontrou e me convidou.
Na cerimônia do casamento tinha tanta gente que fiquei imaginando que ela me convidou só porque estava com mania de ser rica. Queria um casamento daqueles que ficam na lembrança de muita gente, queria mostrar que alguém como ela era digna de uma audiência gigantesca que testemunhasse o amor ali concretizado. Mas eu estava parcialmente errado, de fato ela era uma rica exibida e não casaria em igreja sem afrescos, mas ela me convidou também por outros motivos. Quando a vi caminhando sobre o corredor central daquela igreja eu percebi. Ela própria, que naquele evento era o símbolo da pureza e da verdade do amor monogâmico ocidental, carregava naquele decote voluptuoso o antagonismo do amor idealizado. Se a direção dos seus passos não a levasse para o altar eu diria que ela andava na direção de uma boate, pronta para o crime. Andava como se desfilasse numa passarela, e seus passos eram tão incertos que queriam voltar pra trás. Num dado momento ela me olhou de longe. Sorria para sair bem nas fotos, mas eu vi, naquela fração de segundo, um olhar de desespero, de que agora ela seria de um só homem. Havia ali um conflito ambulante de um desejo histérico de ser desejada por todos e o medo de não ser desejada por ninguém. O conflito se concretizava ali, sob aqueles afrescos ao som dos violinos, num homem escolhido dentre vários, que eu não sei quem é e disse “sim”.
Eu estava ali, só somando mais um no grande aglutinado de gente desconhecida que refletia o conflito daquela mulher de branco e seios fartos querendo sair do decote, e de fato teriam de sair, porque o casamento não bastaria e um ou mais filhos rapidamente se seguiriam para que, quem sabe agora, o desejo de ser desejada fosse bastado.
O meu valor numérico ficou claro na hora da festa posterior a cerimônia, meu nome estava sob uma mesa, com umas oito pessoas, todas desconhecidas entre si. Éramos o grupo dos sem grupo. Lembro que regados a uísque cheguei a comentar com o rapaz que estava ao meu lado que nós éramos os sem-família, a piada não foi boa, mas naquela circunstância nos rendeu assunto e risadas por uns trinta minutos, além da minha descoberta curiosa de que alguns de nós éramos “sócios” porque já tínhamos dado uns amassos na noiva, claro, antes da noiva ser mesmo noiva.
Naquela mesa hipócrita eu me esbaldei dos comes e bebes. Não queria ser interesseiro, mas acho que era o mínimo que eu podia receber por contracenar como um convidado feliz, testemunhando o amor eterno. Não havia melhor lugar aonde eu poderia estar. Foi lá que eu reparei na moça envergonhada que orava incessante no seu colar de pérolas. Ela ficou quieta e sorria sem mostrar os dentes o tempo todo. No começo todo mundo queria entrosá-la de algum modo, mas ela era infalível na sua arte de reprimir-se.
Ela me fez pensar tanto. Fiquei observando seus trejeitos e vendo como mesmo quando seus olhos queriam dizer algo o seu corpo se contraia assustado. Era um medo irracional como um monstro que tentava dominá-la e mesmo que ela quisesse nunca poderia vencê-lo. A sua única arma era seu copo de uísque que ela não conseguiu findar, a cada gole a bebida descia seca, e ela torcia o nariz e apertava o colar de pérola, com a mão inteira. Raramente ela ficava calma e começava a se soltar, e se conseguia durava só até que alguém lhe solicitasse algo.
Foi curioso imaginar o que a levara ali, se ela era como um de nós, uma desconhecida naquela multidão e ao mesmo tempo tão tímida, porque haveria de se arriscar num evento social desse calão? Suponho que de alguma forma ela precisava manter-se viva em sua vida enclausurada. Imaginei que a história da vida dela era feita de fatos dissociados da experiência que teve. Depois dessa festa as amigas lhe perguntariam o que andava fazendo e ela diria que foi a um casamento super chique, mesmo que em verdade ela não estivesse lá. Assim ela garantiria que fosse uma pessoa normal, como um ateu, filho de uma beata, freqüentador assíduo da missa de domingo.
Eu a chamei para dançar comigo, para ver se ela soltava um pouco daquele colar. A moça ficou besta de surpresa, mas cedeu, como se negar fosse pior ainda frente ao meu convite ousado. No começo, como era de se esperar, ela estava dura e destoava de um jeito brega daquela música agitada demais. Só que como num bailinho de filme americano a música mudou para uma valsinha lenta, nós nos encostamos e ela foi aos poucos relaxando, ela dançava brilhantemente, eu nunca me senti tão bem acompanhado. Notei que ela seguia os passos dançantes de olhos fechados.
Quando a música acabou, nós nos afastamos um pouco, eu fiquei tão surpreso e extasiado pelo privilégio de poder vê-la viva que num ato impulsivo e repentino eu a aplaudi afoitamente. Os estranhos da mesa dos sem-família também não puderam evitar. Um fotógrafo atento passou e não perdeu a chance, embora não soubesse o motivo do alarde. Nós, integrantes da mesa dos estranhos, nos abraçamos e fomos tirar uma foto juntos. Foi a única foto que fiz questão de dar um jeito de guardar desse dia.
Hoje eu peguei essa foto e me lembrei de tudo isso. Quando eu olho para moça de vestido azul, de colar de pérolas, eu sinto algo inexplicável. Na foto ela aparece mostrando quase todos os dentes, os braços abertos engolindo os amigos que só se viram uma vez na vida, unidos por obra dos desejos histéricos de uma noiva fadada a ser meio feliz. Os olhos da moça de vestido azul lacrimejando em alegria. Consigo acreditar que as coisas podem sempre mudar, completamente.

