terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Pérolambulando


Era moça tímida e não tem jeito, por natureza de sua vergonha antecipada, sem jeito. Sem jeito de ser, porque não há jeito que queira experimentar, já que ser de qualquer jeito que for pode ser arriscado demais. O azar do tímido é um fato que o conhecimento popular, aquele que vasa nas conversas cotidianas, sabe melhor que ninguém, que o tímido no seu esforço explícito em não ser visto é mais visto que o filme em cartaz.

Eu não conheci bem essa moça, mas me lembro dela do casamento de uma amiga rica minha. Ocasião ideal para um lugar cheio de gente que não se conhece, unidos por um objetivo comum: aproveitar a fartura dos comes e bebes e, quem sabe, pegar o buquê e conhecer um amor prometido ali mesmo. Essa moça estava com um vestido azul marinho, e sobre o decote tomara-que-caia uma jóia de pérolas pendurada no pescoço fino. Isso me marcou, porque a moça não soltava o colar. Ficava manipulando as pérolas com as pontas dos seus longos dedos, como se rezasse um terço em romaria. De tanto fazer isso, a pele de seu colo ficou com um vergão vermelho.

Fui a esse casamento não porque eu era chegado dos noivos, e para falar a verdade eu nem sabia quem era o cara que disse “sim”. Só que por obra do destino reencontrei essa amiga, a noiva, duas semanas antes do casório. Eu não a via já fazia uns dezessete anos. Nós éramos bons amigos no ginásio, mas nada que ultrapassasse os muros da escola, embora, uma vez ou outra, tivéssemos dados uns amassos nesse mesmo muro. O fato foi que ela me reencontrou e me convidou.

Na cerimônia do casamento tinha tanta gente que fiquei imaginando que ela me convidou só porque estava com mania de ser rica. Queria um casamento daqueles que ficam na lembrança de muita gente, queria mostrar que alguém como ela era digna de uma audiência gigantesca que testemunhasse o amor ali concretizado. Mas eu estava parcialmente errado, de fato ela era uma rica exibida e não casaria em igreja sem afrescos, mas ela me convidou também por outros motivos. Quando a vi caminhando sobre o corredor central daquela igreja eu percebi. Ela própria, que naquele evento era o símbolo da pureza e da verdade do amor monogâmico ocidental, carregava naquele decote voluptuoso o antagonismo do amor idealizado. Se a direção dos seus passos não a levasse para o altar eu diria que ela andava na direção de uma boate, pronta para o crime. Andava como se desfilasse numa passarela, e seus passos eram tão incertos que queriam voltar pra trás. Num dado momento ela me olhou de longe. Sorria para sair bem nas fotos, mas eu vi, naquela fração de segundo, um olhar de desespero, de que agora ela seria de um só homem. Havia ali um conflito ambulante de um desejo histérico de ser desejada por todos e o medo de não ser desejada por ninguém. O conflito se concretizava ali, sob aqueles afrescos ao som dos violinos, num homem escolhido dentre vários, que eu não sei quem é e disse “sim”.

Eu estava ali, só somando mais um no grande aglutinado de gente desconhecida que refletia o conflito daquela mulher de branco e seios fartos querendo sair do decote, e de fato teriam de sair, porque o casamento não bastaria e um ou mais filhos rapidamente se seguiriam para que, quem sabe agora, o desejo de ser desejada fosse bastado.

O meu valor numérico ficou claro na hora da festa posterior a cerimônia, meu nome estava sob uma mesa, com umas oito pessoas, todas desconhecidas entre si. Éramos o grupo dos sem grupo. Lembro que regados a uísque cheguei a comentar com o rapaz que estava ao meu lado que nós éramos os sem-família, a piada não foi boa, mas naquela circunstância nos rendeu assunto e risadas por uns trinta minutos, além da minha descoberta curiosa de que alguns de nós éramos “sócios” porque já tínhamos dado uns amassos na noiva, claro, antes da noiva ser mesmo noiva.

Naquela mesa hipócrita eu me esbaldei dos comes e bebes. Não queria ser interesseiro, mas acho que era o mínimo que eu podia receber por contracenar como um convidado feliz, testemunhando o amor eterno. Não havia melhor lugar aonde eu poderia estar. Foi lá que eu reparei na moça envergonhada que orava incessante no seu colar de pérolas. Ela ficou quieta e sorria sem mostrar os dentes o tempo todo. No começo todo mundo queria entrosá-la de algum modo, mas ela era infalível na sua arte de reprimir-se.

Ela me fez pensar tanto. Fiquei observando seus trejeitos e vendo como mesmo quando seus olhos queriam dizer algo o seu corpo se contraia assustado. Era um medo irracional como um monstro que tentava dominá-la e mesmo que ela quisesse nunca poderia vencê-lo. A sua única arma era seu copo de uísque que ela não conseguiu findar, a cada gole a bebida descia seca, e ela torcia o nariz e apertava o colar de pérola, com a mão inteira. Raramente ela ficava calma e começava a se soltar, e se conseguia durava só até que alguém lhe solicitasse algo.

Foi curioso imaginar o que a levara ali, se ela era como um de nós, uma desconhecida naquela multidão e ao mesmo tempo tão tímida, porque haveria de se arriscar num evento social desse calão? Suponho que de alguma forma ela precisava manter-se viva em sua vida enclausurada. Imaginei que a história da vida dela era feita de fatos dissociados da experiência que teve. Depois dessa festa as amigas lhe perguntariam o que andava fazendo e ela diria que foi a um casamento super chique, mesmo que em verdade ela não estivesse lá. Assim ela garantiria que fosse uma pessoa normal, como um ateu, filho de uma beata, freqüentador assíduo da missa de domingo.

Eu a chamei para dançar comigo, para ver se ela soltava um pouco daquele colar. A moça ficou besta de surpresa, mas cedeu, como se negar fosse pior ainda frente ao meu convite ousado. No começo, como era de se esperar, ela estava dura e destoava de um jeito brega daquela música agitada demais. Só que como num bailinho de filme americano a música mudou para uma valsinha lenta, nós nos encostamos e ela foi aos poucos relaxando, ela dançava brilhantemente, eu nunca me senti tão bem acompanhado. Notei que ela seguia os passos dançantes de olhos fechados.

Quando a música acabou, nós nos afastamos um pouco, eu fiquei tão surpreso e extasiado pelo privilégio de poder vê-la viva que num ato impulsivo e repentino eu a aplaudi afoitamente. Os estranhos da mesa dos sem-família também não puderam evitar. Um fotógrafo atento passou e não perdeu a chance, embora não soubesse o motivo do alarde. Nós, integrantes da mesa dos estranhos, nos abraçamos e fomos tirar uma foto juntos. Foi a única foto que fiz questão de dar um jeito de guardar desse dia.

Hoje eu peguei essa foto e me lembrei de tudo isso. Quando eu olho para moça de vestido azul, de colar de pérolas, eu sinto algo inexplicável. Na foto ela aparece mostrando quase todos os dentes, os braços abertos engolindo os amigos que só se viram uma vez na vida, unidos por obra dos desejos histéricos de uma noiva fadada a ser meio feliz. Os olhos da moça de vestido azul lacrimejando em alegria. Consigo acreditar que as coisas podem sempre mudar, completamente.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Mal enquadrado


- Amor! Quero uma foto nossa aqui!

A lua era de mel. Para Lina era tão bom fotografar o amor. O Tadeu não se importava muito, era pouco fotogênico e escondia essa vergonha sob o pretexto de que ele não precisava de fotografias para se lembrar de momentos bons. Mas como eu disse, a lua era de mel, é praxe cultural e indispensável chegar e mostrar para todo mundo os resquícios fotográficos.

Alguns meses antes do casamento a Lina tinha virado uma atleta, não só para dar conta de arquitetar ponto-a-ponto o casamento dos seus sonhos, mas porque a escolha por uma lua de mel praiana implicava em biquíni. Mais que isso, implicava em biquininho. Havia nela uma força feminina que não se subjugava aos homens em geral. Era diferente só para o seu homem. Por Tadeu essa força se esvaía longe. Lina queria garantir que o seu homem ficasse realmente satisfeito por ter dito o tão esperado sim. Ele nunca insistiu para que ela tivesse esse tipo de cuidado, até porque se assim ele fizesse, teria que dar um jeito naquela pança peluda que era nele quase que inata. Ele mesmo quando chacoteado de gordinho dizia que a coisa era genética.

- Aonde Lina? Aqui não tem nada de especial!

Não tinha nada de especial mesmo. Era uma praia, na qual já tinha tirado várias fotos, e aquele dia nem estava com o céu tão azul assim. Tadeu queria mais era ficar de carinhozinho na areia, estava cansado de ser aquele turista super animado. Só que ele deu o famoso tiro no pé, o sorriso da Lina se desfez.

- Como você é grosso!

Lina achou uma insensibilidade gigantesca. Ela tinha escolhido o melhor e menor biquininho naquele dia. Ficou estupefata pelo insensível Tadeu dizer que não havia nada de especial. Não era possível que ele estivesse olhando só para a paisagem, nas fotos deles dois sempre deveria haver algo de especial, afinal, eles estariam na foto e isso era o elemento mais importante, não a praia, o mar, o pôr-do-sol, um monumento, uma cachoeira, esses lugares típicos para fotos imperdíveis.

- Ah Lina. O que é isso? Eu não disse nada! Só queria saber... – foi cortado bruscamente por Lina.

- Você disse que não tem nada de especial! É a nossa LUA DE MEL Tadeu! – ela disse “lua de mel” bem alto e vagarosamente.

- Não vá ficar chateada por isso vai? Não vai começar a estragar tudo...

- EU? – nessa hora o Tadeu deu uma arregalada no olho e levantou as mãos meio que com medo de ser atacado – Você está dizendo que EU estou estragando? – os “eu” foram bem enfatizados assim como na fala anterior.

Bom, da para imaginar que o resto da conversa não foi das melhores. Tadeu até tentou voltar atrás e pegou a máquina fotográfica, só era tarde demais. Eu não sei quem estava com a razão, acho que os dois. Se Tadeu tinha sido insensível demais, Lina tinha sido incompreensiva demais. Ela saiu afundando a areia como se tivesse o dobro de seu peso normal e pediu em baixo tom, só queria ficar um pouco sozinha.

Uma briguinha dessas é comum nos relacionamentos, mas na lua de mel tem um peso de um elefante com um hipopótamo sentado em cima. As pessoas costumam ter aquela crença impregnada de começar com o pé direito. Parece um dogma dos relacionamentos que se eles não se originarem de uma paixão épica a coisa não tende a fluir para a redenção do feliz para sempre. Pior que nem Lina nem Tadeu tinham ocorrências anteriores de relacionamentos amorosos para dizer se essa crença era falaciosa ou não, mas eles acreditavam nisso.

Ficaram na mesma praia, como crianças birrentas. Por meia hora sentados na areia, estavam uns cinqüenta metros longe um do outro. A Lina ficou pensando que só queria uma foto. Ela se lembrava como era legal quando sua mãe lhe mostrava as fotos da lua de mel. A mãe tinha sido tão bonita em sua juventude, nas fotos havia tantos sorrisos que estavam anunciando uma história enorme, que estavam anunciando a vinda de Lina pra terra. Queria mostrar pros seus futuros filhos como tinha sido bonita, como foi feliz o namoro jovem com o pai. Ela de algum modo esperava que quando os casais estão mais velhos o amor se expressa por vias mais sérias. O Tadeu ficou pensando que ela estava sendo tola demais. Se por uma coisinha assim ela podia fazer caso imagina na batalha que eles teriam de enfrentar juntos nos próximos anos. Só que algo apertava o coração de Tadeu, ele também não era machista com todas as mulheres, mas com a sua ele queria fazer que fosse a mulher mais feliz do mundo, que precisasse de sua compreensão e proteção.

Muitos anos depois, a filha da Lina, já jovem, folheando um álbum amarelado, mas de fotos bem conservadas viu numas páginas seguidas umas fotos curiosas. Eram várias fotos seguidas de Lina jovem. Na primeira Lina estava com a cabeça enfiada nos joelhos. Na segunda estava com um olhar cheio de lágrimas para câmera. Na terceira, de olhos fechados espremendo as lágrimas últimas. Na quarta, uma ruborização nas bochechas e o esboço de um sorriso. Na quinta um sorriso começando a mostrar os dentes. Na sexta uma gargalhada de Lina que de tão forte lhe fechava os olhos. Na sétima o Tadeu colando o nariz no nariz de Lina, eles gargalhavam juntos. Na oitava beijavam-se amassando as bocas, num beijo tosco, mas de tão sincero bonito. Na nona os dois olhando para câmera, rindo e chorando, ao mesmo tempo.