quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Vemchuvaí


- Vem chuva aí... – constatou o pedreiro que enxugava a testa suada e suja de poeira de concreto. Tirava um boné azul e laranja que divulgava uma empresa de peças para tratores, para assim arejar um pouco a quentura do cocuruto. Constatava alto para si mesmo, mas o amigo desavisado que levava a areia no carrinho de mão, tomou o diálogo para si. Olhou cabreiro para o céu cinzento. Não teve desgosto pela previsão do colega de obra, só era ruim que não tivesse chovido antes, durante aquele sol de rachar que se fez ao meio-dia:

- É, vem mesmo...

Luiza foi quem viu essa cena, passando na calçada do outro lado da rua. Ouviu o comentário sobre a chuva, nem sequer voltou-se para o céu para verificar a hipótese levantada. Só que a frase, num sentido particular a ela, lhe caia bem. Ela estava carregando uma ansiedade do desconhecido porque se decidiu por procurar ajuda para a cabeça. Dirigia-se ao psicólogo, com um pequeno mapa improvisado que tinha desenhado no papel toalha, e nessa hora pensou que tinha chegado mesmo a hora de chuva chegar:

- É, vem mesmo... – disse num cochicho para ninguém mais ouvir.

Luiza dava um passo para frente e um para trás. Não tinha nada pra falar, mas queria ter. Queria vencer a supressão que continha no peito, que a fazia viver sem um sentido claro. Tudo o que fazia era só a praxe diária, e as coisas lhe eram sempre tão sem desejos que ficavam árduas. Luiza fantasiava que, no fim das contas prestadas a pessoa paga para ouvi-la, lhe seria concedido uma liberdade dessa supressão. Os seus desejos então fluiriam em cada ato seu, e não mais como desconhecidos.

Olhou a enormidade do prédio ainda cinzento que aqueles pedreiros levantavam, e aos poucos os foi deixando para trás, aqueles homens exaustos e sua obra. Aquela construção já devia vir de longa data, e aqueles homens eram pincéis fatigados do pintor que havia tido uma idéia de um quadro. Não havia paixão no ato daqueles homens, não enquanto modelavam o concreto sob os tijolos e vigas. Havia sim uma honra de serem trabalhadores e garantirem algumas das infindas necessidades de suas proles, ou até, quem sabe, uma birita pra encher-lhes um dia de risos descontrolados. Luiza queria sentir paixão nos seus atos, precisava apaixonar-se por si mesma, e por aquilo que ela desejava e ainda desconhecia.

Continuou sua caminhada um pouco mais segura de que estava certa no que iria fazer. Precisava de ajuda que já antes não conseguia encontrar noutro lugar. Ergueu a bolsa que queria sair daqueles ombros magros e a prendeu mais próxima de seu pescoço. Pisou firme e com passos mais largos o que a fez chegar com certa antecedência desnecessária. Desnecessária mesmo, pois a espera lhe evocava querer planejar o que é que ia dizer ao médico das angústias, o que é que seria entendido daquilo que ela poderia dizer. E nesses planos acabava por sempre faltar a verdade, consigo mesma.

O que é bom, é que a vida acontece na espontaneidade. E mesmo aqueles homens que vivessem sentados mergulhados nos seus pensamentos e hipóteses, quando postos diante da empreitada cederiam aos anseios de seu corpo, que lhes são, em certo ponto, desconhecidos. Por tal razão, quando o psicólogo a convidou para que entrasse, já ali, Luiza perdeu-se daquilo que achava que era ela mesma para enfim encontrar-se consigo mesma. Cantarolou palavras descabidas que não seriam ditas em qualquer outro lugar, declarou seus anseios para alguém que, em verdade, era ninguém, era só um lugar aonde a Luiza podia acontecer.

Não importaram tanto os pormenores desse primeiro encontro, e nem foram mesmo àqueles os mais lembrados nos vários próximos encontros. É que nesse dia Luiza tinha dado um salto para um abismo desconhecido, e surpreendeu-se de cair de pé com os pés no chão. Quando ia embora passava em frente aquela obra, agora vazia. Uma gota de chuva amaciava a areia do carrinho de mão, a segunda caiu sobre Luiza que, nas gotas seguidas, esqueceu-se por uns minutos da sombrinha na bolsa porque não queria mais se proteger daquilo que não poderia mesmo lhe machucar.