terça-feira, 31 de julho de 2012

Amador


Fui dormir com uma angústia de fim do fim de semana, as coisas não vão tão bem, mas antes que eu pudesse vangloriar-me de pensamentos tão depressivos tudo foi assumindo um gosto hilário de chocolate amargo, e eu fui soltando um risinho desconcertado da vida, miúdo, entre eu e meu travesseiro. Pouco sonoro, mas era um risinho: içava as ancas dos meus lábios, davam rubor e calor nas articulações da face, e crescia exponencialmente. Fiquei vomitando ironia em forma de riso, e me surpreendi tal como a fantasia ilustre do palhaço alegre, que naquela boca vermelha estirada e largamente sorridente nunca se esquece de fazer uma gota fosca pequenina a representar uma lágrima titubeante, contraditória. Eu gargalhava, de repente, alto e bom som, e intercalava soluços com olhos marejados. Corri até o espelho. No que levantei de uma vez o corpo bastante cadenciado deu uma disritmia no coração, uma falta de fôlego e uma leve esbranquiçada na vista com a queda da pressão. Corri até o espelho, porque estava confuso, e talvez se eu me visse de fora eu poderia desmistificar a incongruência dos meus sentimentos. Refletido eu me indaguei e constatei que era de bom grado sofrer, reclamar da vida. Não era histérico o que eu sentia, nem sem fundamentos, a tristeza naquela época tinha uma razão óbvia de existir, e eu poderia justificar meus sentimentos para qualquer um, e até para mim. Mesmo assim, era saboroso sofrer. É tão preciso tropeçar nos percalços, bater o queixo no chão e ralar os cotovelos se reerguendo. A dor tem um tom edificante, ou pelo menos deve ser esse o sentido que a embutimos. De outro modo, se não tomamos a dor como nossa, pela qual nos afirmamos responsáveis, ficamos alienados na fatalidade realista de que a dor tem que ser dor e só, puramente destrutiva.  Enquanto pra nós a dor deve compelir a ser curada, reconstrutiva. É mais que preciso se dar mal, pode ser precioso, reconheçamos. 

Comecei a dedicar essa atenção mais exclusiva a dor, tristeza, fracasso, palavras tão rudes de se dizer pra si. Não mais as tratei como algo que se impunha a mim, o qual eu queria me livrar o mais rápido que pudesse, por qualquer remédio. Eram minhas e tão ou mais valiosas que bem feitorias antes vivenciadas. Passei a usufruir esses abscessos torturantes como alicerces, e como coordenadas pra delimitar melhor por onde é que devo andar; como devo me mover, e que riscos estou disposto a suportar. Eu aprendi um pouco de cautela, um pouco de coragem, um misto dessas parafernálias emocionais tão importantes na superação de adversidades. Eu aprendi o quanto eu posso ir, quando eu posso ir. 

Por um momento foi ingênuo, teria eu encontrado a fórmula de não sentir mais desprazer? Foi um momento ingênuo. Nua e crua verdade que não há jeito complexo ou trivial de aniquilar a dor. Num movimento contrário fui de encontro a ela com maior frequência, e não nego que cheguei a sentir tristeza com maior frequência, e a vê-la onde antes passava despercebida. Valeu a pena. Foi nesse contato intimista com minhas lamúrias que eu pude construir coisas maravilhosas, e a porção de felicidade que pude encontrar variou diretamente proporcional ao tamanho da disposição que eu tinha de olhar praquilo que dói em mim.