Fui dormir com uma angústia de
fim do fim de semana, as coisas não vão tão bem, mas antes que eu pudesse
vangloriar-me de pensamentos tão depressivos tudo foi assumindo um gosto
hilário de chocolate amargo, e eu fui soltando um risinho desconcertado da
vida, miúdo, entre eu e meu travesseiro. Pouco sonoro, mas era um risinho:
içava as ancas dos meus lábios, davam rubor e calor nas articulações da face, e
crescia exponencialmente. Fiquei vomitando ironia em forma de riso, e me
surpreendi tal como a fantasia ilustre do palhaço alegre, que naquela boca
vermelha estirada e largamente sorridente nunca se esquece de fazer uma gota
fosca pequenina a representar uma lágrima titubeante, contraditória. Eu
gargalhava, de repente, alto e bom som, e intercalava soluços com olhos
marejados. Corri até o espelho. No que levantei de uma vez o corpo bastante
cadenciado deu uma disritmia no coração, uma falta de fôlego e uma leve
esbranquiçada na vista com a queda da pressão. Corri até o espelho, porque
estava confuso, e talvez se eu me visse de fora eu poderia desmistificar a
incongruência dos meus sentimentos. Refletido eu me indaguei e constatei que
era de bom grado sofrer, reclamar da vida. Não era histérico o que eu sentia,
nem sem fundamentos, a tristeza naquela época tinha uma razão óbvia de existir,
e eu poderia justificar meus sentimentos para qualquer um, e até para mim.
Mesmo assim, era saboroso sofrer. É tão preciso tropeçar nos percalços, bater o
queixo no chão e ralar os cotovelos se reerguendo. A dor tem um tom edificante,
ou pelo menos deve ser esse o sentido que a embutimos. De outro modo, se não tomamos
a dor como nossa, pela qual nos afirmamos responsáveis, ficamos alienados na
fatalidade realista de que a dor tem que ser dor e só, puramente destrutiva. Enquanto pra nós a dor deve compelir a ser
curada, reconstrutiva. É mais que preciso se dar mal, pode ser precioso,
reconheçamos.
Comecei a dedicar essa atenção
mais exclusiva a dor, tristeza, fracasso, palavras tão rudes de se dizer pra
si. Não mais as tratei como algo que se impunha a mim, o qual eu queria me livrar
o mais rápido que pudesse, por qualquer remédio. Eram minhas e tão ou mais
valiosas que bem feitorias antes vivenciadas. Passei a usufruir esses abscessos
torturantes como alicerces, e como coordenadas pra delimitar melhor por onde é
que devo andar; como devo me mover, e que riscos estou disposto a suportar. Eu
aprendi um pouco de cautela, um pouco de coragem, um misto dessas parafernálias
emocionais tão importantes na superação de adversidades. Eu aprendi o quanto eu
posso ir, quando eu posso ir.
Por um momento foi ingênuo, teria
eu encontrado a fórmula de não sentir mais desprazer? Foi um momento ingênuo.
Nua e crua verdade que não há jeito complexo ou trivial de aniquilar a dor. Num
movimento contrário fui de encontro a ela com maior frequência, e não nego que
cheguei a sentir tristeza com maior frequência, e a vê-la onde antes passava despercebida.
Valeu a pena. Foi nesse contato intimista com minhas lamúrias que eu pude
construir coisas maravilhosas, e a porção de felicidade que pude encontrar
variou diretamente proporcional ao tamanho da disposição que eu tinha de olhar
praquilo que dói em mim.
