ela é discreta e não se pode sentir-se por ela amado se for sujeito do tipo que espera as mais grandes declarações, daquelas feitas de filme, de provas indubitáveis. assim ela namora, deixa seus amantes ingênuos sempre em dúvida. portanto: a maioria deles foi-se embora, sempre tão cedo. é que por ironia seus amantes precisavam de comprovações, enquanto ela só pode revelar seu amor nos minimalismos; nem por isso é questionável em se tratando da intensidade do afeto que sente. na verdade o motivo de suas discrição é uma exacerbada prudência, quando ama sente tanto amor que não poderia despejar duma só vez, seria assustador, o caos. por isso ela ama sem a verborragia, sem ficar declarando dramaticamente a gigante solidão que sente, sem ficar contando pra todo mundo, sem usar aliança, sem todo o figurino. não que os amantes assíduos para com o romantismo não sejam honestos, aqueles que dizem eu te amo por todos os poros, a todo o tempo e sem censuras. são igualmente verdadeiros e não podem, também, serem recriminados. o absurdo é que tenhamos recorrentemente a estranha atitude de naturalizar esses amorosos extrovertidos como o modo normativo, ai ficamos achando que o amor só emerge nas formas de declarações convictas, plenas e, principalmente, publicáveis. não é bem assim, ao menos não pra ela.
o segredo de sabê-lo – do amor que ela sentia – é até que simples, mas só pode ser conhecido se for um amante paciente, perseverante, que a tenha como namorada quase como se fosse um ato de fé. mas aquele que puder de início se contentar com pequenas demonstrações, como a vez em que ela usou um brinco pela primeira vez só pra impressionar, ou aquele abraço maníaco que ela tem de dar sempre que se despede, haverá de se refestelar de um namoro duradouro. não é fácil apostar nela, não mesmo. mas a sorte é sempre uma coisa discreta, a sorte é o risco do não previsível, mas que de lambuja nos dá uma satisfação com um ar de que fizemos uma escolha para a qual fomos destinados. é por isso que afirmo, ainda que sem muita certeza, que aquele que apostar no amor dela, esse tão inédito, indeclarado, distinto de todas as mesmices já tão romanceadas nos livros mais vendidos, haverá de ser sorteado.
