A mãe de Helena queria que ela fosse bailarina, mas não adiantava, ela rasgava a meia e soltava o cabelo. E o fazia de uma forma sádica, aguardava silenciosamente o empenho da mãe e alimentava a sua esperança pra depois frustrar aquelas expectativas. Mas ela não é tão má se considerarmos que, até a morte carregarmos as expectativas dos outros é uma missão impossível, e aqueles que se aventuram dessa idéia sentem-se fragmentos das vontades do mundo. Mais sádica ainda, Helena gostava era de piscina, rio, mar, lago ou cachoeira. Não importa a temperatura, sabor, profundidade, se for água, ela quer estar lá imersa. Não deu outra. Quando a mãe perguntou o que ela queria fazer ela disse:
- Nataçãooooo!
Trata-se de um esporte magnífico, a mãe concorda. Mas ela que queria tanto que Helena fosse uma bailarina com aquele pescoço longo e uma coluna perfeita, com movimentos suaves e uma expressão fidedigna do gênero feminino. Temia que ela viesse a parecer aquelas nadadoras alemãs que apareciam na TV nas épocas de olimpíadas, altas demais pra fazer bom par com qualquer homem no altar, e larga demais para que pudesse usar roupas delicadas, e fosse , então, por conseqüência, uma expressão fidedigna de mulher-macho. São tantos medos sobre Helena, acho que o que ela é é o ao contrário de tudo que ela deveria ser. É que por mais que tentemos controlar as minúcias das primeiras aprendizagens do ser humano, caoticamente, um acontecimento descontrolado mínimo e único torna cada um de nós especial.
O inevitável estava feito, e se a mãe estivesse viva para ver teria se surpreendido ao verificar que o produto foi melhor que a encomenda. Helena era uma nadadora com corpo de bailarina, a única da equipe de natação da universidade. Nadava tão femininamente que dava a impressão de estar voando e apenas resvalando a superfície da piscina. Era como se quando ela afundasse o braço para gerar impulso gerasse 1/3 das bolhas que as nadadoras comuns geravam.
Era a etapa final das eliminatórias para definir a equipe que participaria dos campeonatos de grande status. O quesito era 200m de nado borboleta. Helena mergulhou, não estava à frente, ficou ansiosa, pensou em quase tudo ao mesmo tempo, olhava para as meninas e via que estavam na frente, percebeu que seu coração estava disparado e tentou controlá-lo, começou a se lembrar de todas as técnicas de respiração, força e controle emocional, fez a volta para a reta final sem fôlego e as suas picuinhas mentais explodiram. Silêncio interior total. Era uma imersão no vácuo das relações com o mundo, o movimento de borboleta permaneceu naturalmente mecânico. Os únicos vínculos dos sentidos agora eram dois, primeiro um estrondo dos gritos da torcida, e depois o som da água, o apaziguador som da água. Uma batalha de ataque e contra ataque contra os gritos humanos estridentes e sem sentido e o som da água explicando tudo o que ela precisava ouvir.
Helena toca o azulejo da borda da piscina. Quando levanta a cabeça alguns amigos correm em sua direção. Helena mergulha e imersa na água fria com gosto de cloro grita:
- É pra você mamãe onde quer que esteja. Amo você.




