quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Lepdoptera


A mãe de Helena queria que ela fosse bailarina, mas não adiantava, ela rasgava a meia e soltava o cabelo. E o fazia de uma forma sádica, aguardava silenciosamente o empenho da mãe e alimentava a sua esperança pra depois frustrar aquelas expectativas. Mas ela não é tão má se considerarmos que, até a morte carregarmos as expectativas dos outros é uma missão impossível, e aqueles que se aventuram dessa idéia sentem-se fragmentos das vontades do mundo. Mais sádica ainda, Helena gostava era de piscina, rio, mar, lago ou cachoeira. Não importa a temperatura, sabor, profundidade, se for água, ela quer estar lá imersa. Não deu outra. Quando a mãe perguntou o que ela queria fazer ela disse:

- Nataçãooooo!

Trata-se de um esporte magnífico, a mãe concorda. Mas ela que queria tanto que Helena fosse uma bailarina com aquele pescoço longo e uma coluna perfeita, com movimentos suaves e uma expressão fidedigna do gênero feminino. Temia que ela viesse a parecer aquelas nadadoras alemãs que apareciam na TV nas épocas de olimpíadas, altas demais pra fazer bom par com qualquer homem no altar, e larga demais para que pudesse usar roupas delicadas, e fosse , então, por conseqüência, uma expressão fidedigna de mulher-macho. São tantos medos sobre Helena, acho que o que ela é é o ao contrário de tudo que ela deveria ser. É que por mais que tentemos controlar as minúcias das primeiras aprendizagens do ser humano, caoticamente, um acontecimento descontrolado mínimo e único torna cada um de nós especial.

O inevitável estava feito, e se a mãe estivesse viva para ver teria se surpreendido ao verificar que o produto foi melhor que a encomenda. Helena era uma nadadora com corpo de bailarina, a única da equipe de natação da universidade. Nadava tão femininamente que dava a impressão de estar voando e apenas resvalando a superfície da piscina. Era como se quando ela afundasse o braço para gerar impulso gerasse 1/3 das bolhas que as nadadoras comuns geravam.

Era a etapa final das eliminatórias para definir a equipe que participaria dos campeonatos de grande status. O quesito era 200m de nado borboleta. Helena mergulhou, não estava à frente, ficou ansiosa, pensou em quase tudo ao mesmo tempo, olhava para as meninas e via que estavam na frente, percebeu que seu coração estava disparado e tentou controlá-lo, começou a se lembrar de todas as técnicas de respiração, força e controle emocional, fez a volta para a reta final sem fôlego e as suas picuinhas mentais explodiram. Silêncio interior total. Era uma imersão no vácuo das relações com o mundo, o movimento de borboleta permaneceu naturalmente mecânico. Os únicos vínculos dos sentidos agora eram dois, primeiro um estrondo dos gritos da torcida, e depois o som da água, o apaziguador som da água. Uma batalha de ataque e contra ataque contra os gritos humanos estridentes e sem sentido e o som da água explicando tudo o que ela precisava ouvir.

Helena toca o azulejo da borda da piscina. Quando levanta a cabeça alguns amigos correm em sua direção. Helena mergulha e imersa na água fria com gosto de cloro grita:

- É pra você mamãe onde quer que esteja. Amo você.

Barrigudinha


Nos nossos tempos modernos a adolescência está muito gorda. Isso não é notícia muito nova e já há muita pesquisa empírica relacionando a idade com os comportamentos próprios da infância: brincar, chorar e ser totalmente sincero; e os comportamentos próprios do adulto: produzir a própria existência pelas condições possíveis ou pela sorte do berço de ouro. Os outros comportamentos, despreocupação e filosofia existencial, são os mais comuns da adolescência larga e não são avaliados diretamente, mas são resultados do não enquadramento na gênese ou maturidade do ciclo vital. Bom, enrolando menos, a adolescência engordou e até misturou-se com algumas juventudes, e os seus extremos sofrem pressões desesperadoras. Na ponta dessa barriga, no umbigo, estão muitos universitários. Sem uma precisão de como tornar-se adultos e sendo empurrados para um emaranhado de escolhas, que com o passar do tempo parecem cada vez mais irreversíveis. A finalidade esperada é conseguir mergulhar no umbigo e voltar-se pra dentro de si mesmo, de modo a garantir a sua fatia do bolo. Pena que nem todos foram convidados pra festa...

Um ponto disso é que, a transição entre a adolescência-juventude, é frequentemente impulsionada pela necessidade de ocupar-se. E é a idéia de ocupação que vale a pena ser bem discutida...

Quando Helena era adolescente era uma borboleta e não sabia. Olhava-se no espelho e sentia-se uma verdadeira lagarta. Achava que só viria a tornar-se borboleta quando finalmente o tempo de poder ser desocupada, pela justificativa na fase do ciclo vital, tivesse o seu fim. Esperava ansiosamente, e nas suas tardes vazias ficava especulando sobre o futuro e a mulher que iria ser pro mundo. Sabia que seria magra, mesmo depois do seu terceiro filho, sabia também que queria formação superior para conhecer muito sobre algo e não ter que trabalhar por obrigação em qualquer coisa, e, sobretudo, que seria feliz. Helena tinha lá seus desejos e sonhos profissionais. Mas antes de profissionais, desejos de Helena. A profissão é só um conceito, uma entidade objetiva, pra indicar o que Helena gosta de fazer e se é importante o bastante para que garanta os subsídios de sua existência, afinal, ela já sabe que viver custa trabalho.

A universidade estava lhe parecendo uma grande corrida. Havia uma onda gigante vindo atrás de um monte de estudantes correndo pra conseguir cair dentro do umbigo e não correr o risco de ficar boiando em um mar de “desocupados”.

Helena um dia sentiu-se desocupada. Desocupada no sentido de desnecessária para qualquer coisa útil naquele momento. Ficou olhando na janela do seu quarto e vendo as pessoas andando, ela acabou olhando pra si mesmo. Estavam elas andando com as suas preocupações. Na verdade estavam elas andando com as suas pré-ocupações. Helena poderia descansar e isso, na prática é uma maneira de ocupar-se. Sentir-se desocupado e estar pré-ocupado. Pré-ocupado de coisas que levariam ao próprio umbigo, umbigo fundo e irreversível dessa pança gorda.

Ninguém ensinou pra Helena uma maneira de ocupar-se sem ser pro caminho do seu próprio umbigo. Na verdade, quando alguém descobre como fazer isso, há uma grande probabilidade de morrer sozinho no mar. Helena sabia nadar bem, e decidiu tapar seu umbigo e pensar em como fazer isso e acabar com essa idéia idiota de umbigo. Foi um momento passageiro que ocupou a vida de Helena inteira.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Urge ao surdo uma vez


É só pela milésima vez o urgente devorando o necessário. Mas do que exatamente ela necessita se não mais do que a urgência? A urgência que urge: “faça-me!”. Construiu-se como pessoa necessitando o urgente. Entristece-se de necessitar a urgência, de precisar ser chamada por outra coisa que não si mesma. É por isso que o tédio que é tão dolorido pode lhe agradar, é só o que nasce dessa raiz sem genética que lhe é necessário e, claro, sem urgência.

Confinada em um lugar sem paredes, Helena, andava pela rua sabotando todos os seus pensamentos que tentavam dar fluidez ao seu cristal de urgências. Todas aquelas coisas que ela acreditava que a constituíam ajudavam nessa empreitada de sabotagem. Havia um contra-ataque de quase ultimo suspiro do verdadeiro propósito intrínseco a sua existência tentando evitar ser completamente suprimido por tal armadilha. Na cabeça falava a “prova”, falava o “trabalho”, falava o “ser como outros queriam que ela fosse”, falava o “fazer o que lhe solicitavam com prontidão” (o que demonstraria sua alta significação). Ela não sabia o porquê, mas eu sei. Ela nunca respondeu nenhuma pergunta errada, mas nunca extravasou suas perguntas que só ela sabe que seriam excelentes e poderiam revolucionar as quinquilharias filosóficas das pessoas de senso comum.

Por um instante o contra-ataque adormeceu o que lhe ataca. Helena decidiu parar e foi entrar na livraria mais próxima com um picolé de uva na mão. Tomando todo o cuidado pra não melar os dedos - já que precisaria deles para manusear os livros - Helena melou todos os seus dedos e esforçou-se ao máximo para limpa-los: escondendo-se por trás de uma das gôndolas de livros e ao obter certeza de não haver nenhum humano nos seus 360º, lambeu-os e depois os passou suavemente sobre a calça jeans. Com suas mãos limpas fez uma escolha. Um autor, um assunto, o que pareceria uma escolha óbvia dentro de uma livraria. Mas Helena escolheu o que queria fazer da vida, que função ia ter dentro de toda essa estrutura social que parece que cada um só compreende do seu jeito e isso não faz nada funcionar muito bem. Não tinha certeza se iria dar certo, mas tinha a absoluta certeza de que arriscaria por ali manifestar o seu contra-ataque às urgências que, milagrosamente, podem ser adormecidas esporadicamente.

domingo, 4 de outubro de 2009

A morena dá o amor é nada


Tomou aquele banho longo e bem ensaboado, encheu seu corpo de creme e sintonizou o melhor contraste possível na combinação de suas roupas. Era uma noite quente e agradável, o bafo calorento era compensado por uma brisa de vento friozinho que vinha com uma freqüência variada, mas sempre chegava antes que Helena pudesse sentir calor demais. Algumas partes de sua pele, aquelas expostas pelas roupas de verão, estavam morenas do sol, e mesclavam-se com as partes morenas de Helena que revelavam-se com seu vestido tomara-que-caia. Estava pronta e a caminho de encontrar alguém que reparasse o empenho dela na sua auto-produção. Se só isso fosse realmente verdade o objetivo de Helena teria sido alcançado no primeiro passo, parece exagero, mas pelo menos 70% dos homens que a tiveram no campo de visão repararam, e 100% das mulheres que a viram bolaram planos para arrumar-se em alguma ocasião especial.

O destino era uma festa de amigos que para Helena, no fim, foi uma festa de despedida. Ela obteve sucesso no ingresso de duas universidades, uma bem longe de casa e outra perto. A longe era de pior qualidade e era longe, a perto era de melhor qualidade e era perto. Parece óbvio a decisão que tomaria. Chegou à festa, a recepção foi calorosa:

- Uauuuuu! Que gata. – um tom uníssono das amigas que já tinham tomado alguns drinks.
- Você sabe que eu estou solteiro e sou um bom partido? – uma cantada furada dentre várias do estilo.

Helena sorriu e o tom avermelhado da maça do seu rosto misturou-se a cor morena de sua pele. Fazia-lhe bem ouvir os elogios, mas estava centrada em encontrar alguém específico. E o objetivo específico de ser notada era por essa pessoa. Um amigo, meio namorado às vezes, que sabe o que ela é e ela sabe o que ele é. Eram diferentes de todos os outros casais, eram presos pelas suas próprias liberdades. Era essa liberdade que os atava imensamente e faziam com que o amor lhes parecesse incondicional.

- Oi Lêna. – disse o rapaz chegando por trás sem que ela percebesse – Eu tenho uma surpresa pra você. Eu acho você comumente estonteante, mas é impossível não comentar o quanto você está completamente linda. Eu me sinto privilegiado por poder consumir com meu olhar a sua beleza.

Sorrindo timidamente virou-se:

- Eu me sinto privilegiada. Você é a única platéia que a mim importa. Você sabe como eu sou curiosa, o que você tem pra me surpreender?

- Me acompanha? Eu quero te mostra em um lugar particular...

Andaram até um jardim externo ao salão de festas, aonde a luz era pouca e quase só da lua, o banco era de praça e as bexigas na porta que dava ao jardim irradiavam algumas luzes de cores mescladas no vestido branco de Helena. Fizeram-se carinho, beijaram-se. O rapaz a pediu que fechasse os olhos:

- Eu quero eternizar o nosso amor, eu quero construir com você algo duradouro e dedicar o máximo de tempo que eu puder a tudo o que você me faz sentir de bom, você namora comigo?

E entregou-lhe uma aliança.

Helena a recebeu, ficou estupidamente feliz e triste, e, depois de uma longa pausa disse:

- Eu vou me mudar pra um lugar distante... Não é o momento. Talvez nós não precisemos ficar juntos dessa maneira, nosso amor é diferente, é real...

Naquela hora o rapaz frustrou-se, ele não tinha culpa, estava sentindo-se enganado no meio de todos aqueles casais de aliança, pessoas que diziam já ter curtido a adolescência o suficiente e estavam prontas para alguma relação madura e sincera. Deu-lhe um beijo curto e entrou pra festa deixando a sua aliança em cima do banco.

Helena junto às duas alianças e apertou contra seu colo, tirou a fita do seu cabelo e prendeu as duas, usando como um colar, como um amuleto. Foi a insegurança da eminência de perdê-lo que fez com que Helena não o perdesse enquanto sentia-se insegura até essa noite. Quando o rapaz prometeu-lhe a vida inteira e esteve certo disso, tal possibilidade de findar as outras possibilidades a assustou e ela fugiu para bem longe do rapaz para preservar aquele amor que sentia por ele para sempre.

sábado, 3 de outubro de 2009

Tédio


O tédio remete a impossibilidade de fazer algo que o cure, mas ironicamente é quando o entediado se dá conta da impossibilidade infinita do tédio é que ele encontra sua cura. A grande verdade (maior que a anterior) é que o tédio não é nada mais do que um meio pelo qual o entediado, que muito frequentemente auto-atormenta-se de necessidades artificiais, liberta-se de tais necessidades. A maior verdade de todas (maior que as duas anteriores somadas) é que só o tédio, ou só o entediado, pode sentir a pressão da latência que compõe categoricamente o que é ser. Somando-se as grandes verdades que se engolem: a pressão da latência do ser torna entediantes os significados artificiais que atribuímos para nos sentirmos menos sozinhos e nos dá a possibilidade de criar algo que, de fato, só existe porque nós existimos.

Helena sempre adorou o tédio que a vida pôde trazer, ou a recíproca: a vida que o tédio pôde trazer. Não o tédio unicamente pelo tédio. Mas o tédio como unívoco de algo nela que vence o tédio e consegue criar os seus grandes momentos inesquecíveis e que em 99% dos casos foram os diretores do rumo da sua história de vida. Poderia relatar vários desses momentos, afinal o que há em Helena de precioso é a imensa potência da pressão da latência do seu ser, que entedia sempre que pode, por mais que Helena seja uma ás na arte de esquivar-se dessa pressão. É nesse sentido que ela se constitui como uma pessoa incrivelmente forte, mas forte em dois pólos que digladiam entre si dia e noite.

No outro dia, depois do primeiro dia de aula na universidade, e que já dava inicio ao fim de semana, Helena acordara em um lugar diferente de todo seu passado. Além da porta do seu quarto havia uma pessoa que dividia o teto com ela e esse era o único elo entre elas, o que era estranho para ela entender nesse principio da vida de estudante distante da família, mas que, de certa forma, a deixava mais calma, mais livre, ainda que assustasse. Nessa hora, pensar no que fazer soava estranho, era uma terra nova e que sem disposição para conhecer novidades era uma terra de nada. Helena se esforçou para sentir saudades de alguns chegados, mas não conseguiu sentir nenhuma tristeza, mesmo das amigas de infância. Tentou novamente retomar suas expectativas de novidades na terra nova, mas uma expectativa não pode ser retomada, tem de ser, obviamente, esperada. Pensava: “que tédio insuportável”.

A sensação de Helena e quase que universal no que diz respeito à sensação de tédio, é como se tudo o que você quisesse de fato fazer fosse impossível na dinâmica do mundo. Quando ela pensava em algo divertido sempre tal ação não cabia naquele momento, dependia de outras circunstâncias ou algum detalhe a impedia de que fosse perfeita como gostaria.

- Quer saber? Que se dane... Hum... Vou tomar um banho bem longo, ir até o mercado e comprar um cappuccino e ler aquele livro que me prometo ler a tanto tempo. Nem que seja forçada por mim mesma. – pensou Helena.

Feito o planejado Helena estava em paz, com a sensação de estar fazendo o que deveria ser feito, de estar exatamente aonde queria e podia estar. Ela não verbalizou isso em pensamentos, mas adorava imensamente um banho bem tomado mesmo quando estava limpa, como ela gostava do sabor de cappuccino, e nas primeiras páginas do livro já entendeu porque queria tanto ler e demorava pra fazê-lo. O banho ela podia ficar tomando até que cansasse, o cappuccino ela podia tomar quantos litros quisesse até que se tornasse ruim ou a deixasse doente, mas o livro, ao começar a lê-lo faria com que ela o acabasse para sempre.

Helena terminou o livro no mesmo dia e uma lágrima escorreu de seu rosto. Resolveu sair do quarto e conhecer a pessoa que morava com ela, e elas realmente se conheceram. Sem nenhuma expectativa. Helena tinha agora alguém que sabia o que ela é.