Toquem os violinos cortantes, que
hoje é dia de sentir saudade. É hora de sentar à mesa com os amigos, relembrar
a infância pra fazer o balanço: o que é que temos hoje e o que deixamos pra
trás, o que nos foi tirado, roubado, o que insistimos e o que desistimos. E se... Alguns ameaçam dizer
descontentes e arrependidos. Outros convictos repugnam tal atitude, não
trocariam nem um minuto que fosse, estão no lugar em que queriam estar. Para os
arrependidos as suas memórias são fatos irremediáveis, e a história mais parece
um porão abandonado aonde coisas tão boas parecem sombrias, machucam. Já os
convictos tem no passado uma causa explicada, e o destino parecer ter sido
sempre grato e nos conformes.
Ambos estão ligeiramente cegos ao
se opor. É inevitável que para todos, para as coisas tal como aconteceram, existem
suas razões. Estas razões, que por si só resignam o estado atual das coisas. Há
sempre uma explicação pra hoje se escavarmos os sonhos e as lembranças que
teimam submergir. Somos todos sujeitos do tempo implacável, mas enquanto alguns
se satisfazem no remédio que o acaso os trouxe, outros anseiam atordoados os
fatos irremediáveis. Estão todos no mesmo barco. No fundo convicções e
arrependimentos são feitos do mesmo substrato, naturalmente idênticos.
Aos poucos, sentados à mesa,
rememorando tanto os fatos, causando suspiros longínquos uns nos outros, vamos
todos nos dando conta, desta verdade irrevogável sobre as convicções e os
arrependimentos. Se num primeiro momento houve oposição era, de um lado, a
inveja dos arrependidos que não podem sequer ter algum regozijo em sua própria
história, e, do outro, o orgulho dos convictos inabaláveis, que não poderiam lesar
os alicerces confortáveis nos quais repousam. Esses ânimos aos poucos se
atenuam, a inveja em sua miséria e o orgulho em sua ambição, se vão amainando,
ficando com cara de exagerados, até que se tornem risíveis. Até que falar do
passado, embrenhar-se na memória, se trata de contar-nos um pouco uns aos
outros e de nos fazer conhecidos para nós mesmos.
É surpreendente que o nosso
passado possa beirar o infinito, que seja possível recriá-lo em cada novo instante
presente. E quando os violinos cortantes cessam, e retomamos a vida, estamos
agora mais cheios de experiências do que antes, estamos até mais cheios de nós
mesmos do que de tantas trivialidades diárias, as quais nunca se tornam dignas de
lembrança. É precioso fazer esse exercício de nos sentarmos à mesa para
relembrar, para cruzar nossas histórias, nos encontrarmos em lugares que não
estivemos juntos e reconstruí-los.


