quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Poster Geist

Tem alguns lugares da natureza, ou mesmo até na urbanidade, que as pessoas sacralizam como um lugar inspirador. Essas escolhas desses lugares carregam um cunho muito pessoal e quase proprietário, por assim dizer. Não é que as pessoas sejam donas desses lugares no sentido de ter a escritura formalizada, na verdade essas pessoas têm só escritura histórica. Dum dia, algum fato, que colou ali, pra tirar um pouco de dentro de si mesmo e jogar naquele espaço de linhas invisíveis aos olhos alheios. Aí se cria toda uma coisa de cunho pessoal e proprietário como eu vinha dizendo: o lugar se torna rotulado da pessoa. Ela até conta pros outros de tudo que esse lugar guarda de sublime, tudo que ela sente quando vai lá, mas é daquele jeito de oferecer pedaço só por educação, com o tempo todo negando nas entrelinhas veladas que nenhum outro qualquer é capaz de vê-lo por inteiro tal como o dono do lugar pode. Esse ciúme pode até se tornar mais permissivo, numa tarde qualquer, mais ou menos solitária, convida-se alguém especial, sortudo, para dividir aquele espaço, como se quisesse dizer a essa pessoa que quer dividir-se a si mesmo.

Claro que há lugares que são disputadíssimos. Tais como mirantes de pontos turísticos, meios de trilhas super conhecidas em temporadas, uma cachoeira com nome e até site na internet. Mas também tem aqueles menos extravagantes, mais criativos, mais tímidos ou mais aconchegantes. Há lugares desses tanto quanto há pessoas desses lugares. Lembro-me agora até de uma amiga mais velha da minha infância, ela não era mais da mesma inocência que eu, por ter três anos mais dos meus e mulher. Ela foi rapidinha ter seu lugar e eu o achei lindo. Era numa mangueira velha e escondida. Esse lugar já tinha nele mesmo um esforço para encontrá-lo, um engajamento sabe? Quando minha amiga me levou lá me foi sofrido subir naquele galho, foi vencido, foi um lugar ganhado. Percebi que pra ela, pra ser dela, tinha que ser assim, a duras penas, diferentes de todos. Eu estava com medo sob aquele galho, mas ela não. Era dela, era ela. Fiquei ali um tempo, eu a olhando e ela como se dormisse sobre si mesma, como se tivesse marcado um encontro com ela mesma. O sol foi caindo, as risadas foram amortecendo os lábios e fomos embora.

Naquele dia, descido da árvore eu estava orgulhoso de ser convidado, e mais, sabia aonde encontrá-la se eu a perdesse de vista, ela estaria ali, e se ela fosse para longe ali estaria nela. E eu tinha agora um dilema pra vida, eu tinha uma tarefa incomensuravelmente significativa de achar meu canto. Fiquei numa ansiedade danada, sem canto.

E foi naquele imediatismo da infância que eu me desesperei e fiquei olhando pra tudo quanto é lugar que eu ia, e eu estudava cada canto e nada. Eu olhava se tinha tudo que eu gostava, comparava até como ficava em diferentes estações, quantas pessoas cabiam lá, se muitas pessoas freqüentavam, eu fiz uma pesquisa refinada de dados e nada do meu canto. Fiquei na angústia de não caber nesse mundo, ainda que soubesse que o mundo era bem maior do que aquele meu bairro pobretão, aquele meu pequeno perímetro, meu mundão.

Almejar não deu em nada além de frustração. Cansei, cresci, sem canto. Tanto sem canto que saí cedo de casa, como se me rebelasse de não ter um canto queria de tudo quanto é lugar. Minha mãe passou um monte de anos, quando eu ligava nas minhas discagens diretas à distância, dizendo que morria de saudade, eu dizia “nada disso mãezinha, de saudade é que você vive”. Ela me criou solto e eu nunca quis que fosse diferente. Suas implicações foram poucas e boas, sensatas e amorosas. E meu pai era do mesmo feitio, singelo, e suas implicações nem foram nada além de explicações que guardo pra todo dia. Foi assim que o mundo ficou liso pra mim.

E nessa coisa de ser crescido sempre levei uma pulga atrás da orelha pro meu canto, como uma maldição, eu era o joão-sem-canto. O que me acalmava é que eu sabia, eu tinha certeza absoluta que não tem jeito, é destinado, todo mundo tem seu canto. O que me fez demorar em achá-lo não foi imprudência e negligência de procura, foi não saber, como um tolo, desde sempre que comecei minha busca: o canto não se escolhe, se é escolhido por um canto. Essa foi uma primeira coisa que tive de pensar quando achei meu lugar fotográfico. É meio simples e impossível de se explicar sobre palavras, e nem mesmo uma boa metáfora ajuda muito. É como se eu tivesse me dissolvido na natureza e fosse eu, o canto, o mundo todo, numa só consciência.

Meio banal e comum, aconteceu no meio de uma manhã de céu azul, tempo seco. Eu morava numa cidade perto de mar, e o que não faltava era natureza, tocada pelo homem só de leve, com cicatrizes finas de terra que levavam a lugares maravilhosos, as trilhas. Eu fazia uma trilha que já tinha feito numa vez ou outra, mas era a primeira vez que eu fazia sozinho. Como julgava conhecer bem o caminho, um dia levantei entediado e resolvi fazer sem um bom por quê.

A caminhada era rápida até, mas tinham umas partes íngremes. A secura do tempo me deixava cada vez mais sedento. Ainda o sol se punha cada vez mais no meio do céu azulão, e fritava meus pêlos todos. A minha pele ficou sensível, ardia. A roupa roçava, os pequenos galhos roçavam, a mochila roçava nos ombros quentes. Passei por uma parte em que a terra do chão ia ficando mais empedrada, o passo ficava mais fácil. Nessa parte sabia que dali pra pouco que vinha o céu aberto, o mar, a recompensa daquele caminhozinho quente, o fim da subida pra parada, pra morte do desejo de trilhar.

Cheguei ali, naquela pedrona redonda. Alarguei um sorriso sincero, e ficava mais sincero ainda por não ter quem olhá-lo. Eu preocupava-me pouco em rir sozinho e adorei, quanto mais eu pensava nisso mais eu sorria. Larguei sem cuidado a mochila no chão, tirei o sapato e sentei no ponto mais alto daquela pedra quente. Via as ondas parecerem estar em câmera lenta tentando derrubar a montanha, que sólida só acalmava o mar turbulento em borbulhas brancas espumosas, como se sentisse cócegas. Ainda não era meu canto.

Num susto surpreendente veio não sei de onde, um vento fino, reto, frontal. O vento foi permeando meus pêlos, me esfriando, esfriando a pedra. Meu sorriso alargou como nunca pudera ter sido. Fiquei sabendo o quanto eu sempre postergava coisas. Como me era uma tarefa difícil escolher todo dia, o que ser, o que ser quando crescer. Minha escolha era sempre a postergação. Dei-me conta que postergando as escolhas eu escolhia ser inerte, irresponsável pela vida. Eu escolhi não escolher e postergar tudo, todos, seguir só os impulsos que vinham sem uma boa racionalização. Escolhi ser movido pelo tédio, pela boa manipulação. Escolhi ser levado pelo vento pra qualquer lugar que ele me levasse. Por esse vento. Escolhi meu canto.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Carta dúm clandestino que veio no vento

A quem deixo,

não julguem premeditadamente em mim uma teimosia equivocada disfarçada num discurso utópico de liberdade verdadeira, sem antes pelo menos não vulgarizar o que é que vocês entendem até hoje por utopia. Se é que entendem por algo inalcançável já logo vejo que penduraram suas botas longe de onde possam vê-las, se é que me acompanham e vêem - ainda que fosco - na utopia uma resignação a essa terra clandestina de nosso verdadeiro espírito, acompanhe minhas outras palavras que aqui se seguem: não deixei que me torturassem e me matassem por um capricho heróico, já que até sei que de nada vale uma revolução morta se não como exemplo em praça pública de que a revolução é só dos loucos, ou dos que passaram e passarão, foi só uma conseqüência cruel e irreversível de desesperar-me por vocês meus filhos, que terão seus filhos e muito mais, e poderão, quem sabe, amar-se inteiramente por baixo desses panos coloridos com sangue tingido, aonde habitam aquilo que nos deveria ser o mais sagrado: o respeito aos homens e mulheres e à humanidade. Quem dera isso seja verdade, num mundo onde esses valores de hoje, inescrupulosos e pretensamente universais, não corrompam a possibilidade inocente de cada corpo que nasce, sabendo só ser aquilo que lhe deixa vivo. E ficam vivos, mas nesse jeito de cultivarmos a vida em nossas culturas esses corpos novos são infestados por uma culpa sem nada antes terem cometido de crime, sem nunca terem feito com propósito alguém chorar, e se o fizessem seria por acidente que naturalmente seriam comovidos para reparar os danos, mas por responsabilidade de preocupar-se com o outro, porque não há culpa num mundo aonde os atos não são prescritos por uma competição desenfreada, um mérito descabido, seres cegamente individualizados e um dono. Reconheçam e percebam que mérito e culpa são, se não a mesma coisa com palavras diferentes, palavras diferentes que indicam a mesma coisa. Porque o culpado pelo bem feito é o mérito do fracassado e vice-versas. Entendam que se parto sem querer é por tentar de algum modo aproximar-me o mais que pude de vocês meus amores. Sonhei em reaver nossas limitações afetivas e cobranças dolorosas. A quem amava de fato quando era só orgulhoso de seus feitos indóceis com o mundo? Vocês se lembram quando tomávamos café juntos em dias quentes? O calorão que sentíamos no peito e compartilhávamos o calor somado ao sol e atenuado pela janela aberta ao vento sul? Era nosso pão, nosso alimento feito junto pra gente junto. Era uma mesa horizontal, aonde nos olhávamos nos olhos reconhecendo nossa condição única de sermos eternamente diferentes, e destinados nessa vida ingratamente pouco longeva, a nos querermos bem, sabendo-nos que perdendo a um de nós perderíamos um mundo inteiro. Porque cada ser humano carrega em si um mundo de novidade que se mistura em todo dia-a-dia de sempre. Não quero pedir desculpas, quero só sentir saudades e ser sentido, sem ser culpado por uma despedida surpreendente. Que meus erros não sejam também cometidos por vocês amores, mas que meus acertos não sejam mal vistos também. Hoje, ainda vivo nessa escrita, guardo como valioso a agressividade que me foi realçada quando fui violentado pela opressão imprudente do militar, quando gritei ao homem que me punia sem motivo a quem ele protegia de fato, quando não quis pedir perdão em nenhum segundo, e quando tive certeza de que as mãos que me açoitavam não eram mãos verdadeiramente humanas, mas dejetos do nojo social. Espero que sobreviva em vocês essa agressividade, que quando for honestamente acuada transcenda as vossas fachadas de bem-estar, e encontrem na revolução ou na morte a vida que sempre nos foi negada.

Sem mais. Sem nunca mais.

Jovem Retrógrado

Eu não sei quando foi o tempo em que aquelas calças que viravam bermuda deixaram de ser um sucesso, só sei que o sucesso delas foi de um mês ou dois no máximo. Foi uma idéia simples que radicalizava uma concepção de escolha do tipo de roupa que eu deveria usar. O clima deixou de ser um problema pra mim porque eu carregava intrínseco, em uma roupa só, duas. Era uma sugestão simples, um ziperzinho ali, interno e abaixo do joelho que complementava a falta que a bermuda faz no frio, ou que retirava o excesso que a calça longa faz no calor. Acho que o único pequeníssimo empecilho era ficar com aquelas partes da calça nos bolsos quando o dia era de bermuda.

Muitos tendem a achar que tal invenção foi uma idiotice brega, tal como os tênis de rodinhas. Mas eu duvido muito. Os tênis de rodinhas vêm aparentemente disfarçados de facilitadores do andar, daí o sujeito compra um par deles sonhando que não precisa mais andar, ele pode rolar. Grande sonho, andar não será mais um problema. Mas é só aparência, as rodinhas não estão aptas a todas as intempéries do asfalto da cidade, e numa ladeira, um passo em falso pode virar um tobogã com atrito violento. Claro, claro, não dispenso a diversão que ele pode causar num piso de shopping, no mesmo em que pares rolantes análogos estão nos melhores locais de visualização das vitrines.

Eu sinto falta, mas ao mesmo tempo não usaria mais. Eu me sentia confortável de estar feliz com a calça-bermuda e ver nas ruas amigos de calças-bermudas. Era uma coisa nossa, todo mundo sentia a mesma coisa que eu, colhendo e usufruindo dos privilégios de uma idéia fascinantemente simples que liquidava naqueles tempos os estoques das lojas de diferentes tendências e tribos. Mas depois me senti sozinho, me senti meio obsoleto, e da calça só sobrou uma bermuda eterna e dois paninhos de limpeza pro meu quarto.

E se lança tanta coisa por aí. Eu não sei bem quem começou a enxergar tantos problemas no nosso modo de viver, mas parece que é um atrás do outro. É meia antiderrapante, creminho com essência de flores que promovem sono tranqüilo, esses dias eu até vi uma boneca que fazia tudo sozinha, e na frente dela tinha uma garotinha imóvel assistindo a boneca se divertir a valer. Faz a gente pensar que nossos antepassados viviam sofrendo pra tudo, pra brincar, dormir e todas as outras coisas.

O pior é que esses pequenos inconvenientes do dia-a-dia não acabam nunca. Meu falecido avô ficava falando que hoje a gente sofre muito menos do que ele sofria na época dele, quando não tinha luz, não tinha água em todo canto da casa, a comida não vinha embaladinha, e bla bla bla. Mas a gente ainda sofre. E de algum modo eu sinto até inveja do meu avô. Parece que quando ele tinha a minha idade era ele quem cuidava dos problemas dele, e seria até desonroso ter que dar dinheiro numa coisa que vai cuidar da sua própria vida, pra não dizer que é um indicador de que hoje o que a gente tem é uma preguiça luxuosa lascada.

Ah, mas foi ingenuidade do meu falecido avô. Bastava que ele olhasse o quanto tá todo mundo aí, trabalhando que nem louco, vendendo a alma, agregando valor em si mesmo em tudo quanto é curso, título, oficina e até trampinho de bico. E tudo isso pra resolver esses problemas. A minha mana mais velha fica tão estressada de trabalho, que a casa dela é um museu do futuro, tem máquina pra tudo! Sem contar as peripécias tecnológicas de conforto, poltrona que faz massagem, cortina que fecha por controle remoto. Eu até brinco com o meu tio, que ele tem quem faça massagem nela no lugar dele sem correr o risco de ser chifrudo. E bem, não faço a mínima idéia de quando foi que ela olhou pela janela e viu um céu estrelado, porque a cortina fecha sozinha sem precisar olhar pra ela.

Eu não sei. Essas coisas não me confortam muito, acho que é porque eu gostava das histórias do meu avô. Parece que ele via mais as coisas. Ainda que a ele parecesse que naquela época a vida fosse muito dolorosa. Quando ele me pegava pra fazer cafuné, o que era raro, aquela mão calejada tinha uma história enorme escrita, e ele ficava passando na minha cabeça e é como se eu pudesse reconhecê-lo. No meio das rugas do seu rosto eu ficava tentando imaginar quantas vezes aquele velho durão chorou, e por qual vias as lágrimas passavam em seu rosto fazendo ele se sentir mais leve. O sofrimento contado pelo do meu avô me valia ouro, queria me dizer que estamos aqui por alguma coisa, que a gente tem de viver lutando, que a natureza é brutal e ao mesmo tempo imprescindível para o homem. A minha avó o ama até hoje, é saudosa e vai ser até a morte, diz que não tem homem mais bonito, nem mesmo meu pai. Aprecia as suas fotos aos porta-retratos e se recusa a ver fotos em telas de computador.

Fico pensando numa ansiedade precoce que, caso um dia eu tenha um neto, e creio que há de demorar muito, queria que ele pudesse ver minha história, que essa história não fosse coberta de um monte de plásticas das nossas facilidades modernas. Os problemas do meu falecido avô eram problemas da vida que todo homem tinha a obrigação de superá-lo. Quando ele sentia angústia ele refletia, ele lutava sem freios para findá-la, hoje eu tenho um monte de passatempos pra fazer o tempo de angústia passar. Sinto um mundo como um grande remédio, um povo viciado em anestesia, sem ser nada demais. Só tenho a certeza que meu falecido avô, o homem que meu criou, gostaria de ter experimentado uma calça-bermuda. Ia cair muito bem naquele velho.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Apresse


Lá em casa tinha uma senhora que era tida por mim como a moça que trabalhava lá em casa. Não é que eu não soubesse seu nome, ou que tenha algum desrespeito real por essa senhora, mas é que é assim que eu falava dela das poucas vezes que falava dela. Era numa vez ou noutra, quando um amigo me surpreendia com uma visita nas férias escolares e perguntava quem que estava na minha casa, e eu dizia que era só a moça que ali trabalhava.

Na minha meninice eu sabia poucas coisas sobre trabalho e carregava uma convicção discrepada de que se aquela moça trabalhava lá em casa é porque ela gostava, ou era o que ela havia de fazer o que faz e ponto. Ela era sempre quietinha, e quando indagada sobre qualquer coisa que seja, era prontificada num sorriso eficiente, inato, assustado. Como se dissesse sim antes que uma pergunta pedisse por algo.

“Ela era boa”. Eu ouvia nas conversas entre minha mãe e minhas tias que ela era boa. Diziam que a Nalva, a propósito, o nome dela é Nalva, diziam que ela chegava, fazia o que tinha de fazer, não se metia nos assuntos de família, botava as coisas no lugar e não comia nada da casa, nem um biscoitinho, mesmo que fosse oferecido. Isso era de dar dó. Nem oferecido ela comia, não adiantava, a fome era como uma penitência supersticiosa.

Pequenino eu não falava com ela, dizia olá só se fosse obrigado pela ocasião, como quando ela vinha e eu estava sozinho em casa sem ninguém que pudesse fazer o papel de anfitrião da moça que trabalhava lá. Mas ela não ligava, entrava arqueada e cabisbaixa, com o lenço na cabeça mais evidente que seus olhos, a bolsa espremida sob seus seios rugosos sem índole de mulher, que devem de ter doado seu leite todo. Era de uma magreza imprecisa, num punho fino, com pouco músculo e um ombro largo, sempre coberto.

E foi assistindo essa moça, no meu tempo de criança que o meu tempo foi passando um pouquinho. E por ventura ela começou a me incomodar. Longe de ser um fato pessoal, não havia naquela moça qualquer rudeza, e se assim houvesse por arbitrariedade do acaso, a culpa que ela sentia era tão avassaladora que só um sádico não daria aquela senhora por perdoada. Teve até uma vez em que ela queimou uma camisa do meu pai na passadeira. Minha mãe insistiu que não era problema, que isso acontece com qualquer um, que não ia de modo algum descontar do pagamento pelos serviços prestados. Mas a moça, na sua maior rebeldia, recebeu o dinheiro e deixou quase que metade dele com um bilhetinho de letras tortas sobre o criado-mudo, falando que havia de pagar pelo que fez, por favor.

Eu comecei a olhar a moça que trabalhava lá em casa e me sentir sufocado, algumas vezes era até difícil para respirar. Ela carregava consigo um terço dourado, que vira e mexe passava os dedos sobre ele, numa prece rápida, junto com uma expressão sofrida. Uma vez teimei em perguntar que era que ela dizia, por curiosidade de um menino atrevido que não tinha muito que fazer. Ela me disse naquele sorriso de muitas rugas que agradecia. Falou que quando começava a pensar coisa ruim, a reclamar da vida, que ela agradecia. Acho que dentre os nossos diálogos monossilábicos essa foi uma das nossas maiores conversas, uma curiosidade minha de uma mania da moça que trabalhava ali em casa.

Era estranho, eu passava muito tempo sozinho lá em casa. Na verdade eu passava muito tempo com a moça que trabalhava lá em casa, mas é como se nós fossemos de outro tempo, cada um ao seu. Quanto mais vezes a via, começava a sentir uma agonia, uma vontade de dar um grito. Eu nunca pude mesmo olhar nos olhos dela e dizer o que sentia sobre ela e perguntar se eu estava certo. Queria que ela, num ímpeto sobressalente àquilo que ela vinha sendo fazia anos, saísse correndo com um saco das comidas com os sabores mais diversos lá de casa e fosse pra um lugar que lhe pertencesse mesmo, um lugar que não arqueasse seus ombros, que engordasse seus punhos. Um lugar onde ela passasse a camisa de seus amores, que ela fizesse o arroz de seus amores, que ela amasse. Um lugar aonde ela sorrisse de rosto inteiro e dissesse não, eu não quero.

E foi numa manhã quase de tarde em que meu sono se deleitara preguiçoso. Eu levantei e fui à cozinha, preparei algumas coisas para comer e sentei a mesa, diante de frutas, um copo de leite, pães frescos e manteiga bem dura. Era uma manhã de verão e o sol beirando o meio daquele dia sem vento deixava a casa um pouco inundada num bafo, que circulava pouco, de tempo em tempo. Sentado a mesa podia ver a moça que trabalhava lá em casa, posta de pé frente à passadeira fazendo seus movimentos repetitivos. O sol incidia sobre a janela do seu local de trabalho, esquentando o seu rosto. Eu fiquei a olhando, paralisado. Fui tomado por uma angústia remanescente de anos, senti indubitavelmente uma culpa que arqueou meus ombros, tirou-me o apetite. Cai num pranto sem som, com uma lágrima pesada que me lavou uma bochecha inteira. Ao mesmo tempo, por debaixo daquele lenço, um dos que ela variava sobre aquele cabelo que eu nunca vi solto, escorria uma gota de suor beirando a margem da orelha. Descia a gota, como um refresco daquele sol. Ela soltou o ferro de passar, puxou o terço e fez sua prece.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Nela


O pai puxa com um engenhoso fio dental o dente de leite enquanto nos conta uma história fantástica, e, antes do fim dela, o dente saiu, e na verdade a história nem tinha fim, e na verdade, não sentimos a dor do arrancar o dente, salvo o desespero de olharmo-nos no espelho e vermos aquele sangue jorrando dentro da boca, mas logo seca, só fica um gosto amargo inesquecível que a gente não escolheu conhecer.

Dessas não escolhas se seguirão as próximas escolhas. Como se fossem novas e precavidas. Se soubéssemos que já foi escolhido tudo outrora e outroras, sempre antes de agora. Mesmo assim carregamos nossas predileções de caminhos, nossos esquemas de conhecer as coisas antes das coisas mesmas nos serem conhecidas.

Começou no bolo de cenoura com cobertura de chocolate. Mais precisamente, começou a expressar-se no bolo de cenoura com cobertura de chocolate, porque na boa verdade já havia começado e estava ali, dentro de Nélinha, escondido em algum alicerce profundo, o mesmo que a fazia chamá-la a si mesma de “eu”, de Nélia. Esse eu dela no jeito dela de ser que havia então finalmente brotado no bolo de cenoura com cobertura de chocolate.

Aconteceu assim como acontece nos saltos da natureza: num estranhamento enorme. É como a ave que sob a casca a rompe tirando dela mesma a simplicidade de ser do ovo. E assim, rápido, de um jeito que a gente não vê bem as conseqüências, porque talvez fossem insuportáveis. Não dá nem tempo de perguntar se a gente quer. E também não adianta reclamar, só há de ser assim, ou senão tiraremos sempre os band-aids bem devagarinho, puxando cada pêlo que a gente queria deixar lá, com certeza.

A mesa do almoço já havia sido posta um tempo, o tempo que durou do “Nélinhaa, vêem comer” até estarem pai, mãe, tio, tia, primo e Nélinha chateados de strogonoff de carne, e numa gula incrédula punha-se ali, um bolo de cenoura, um bolo gordo e muito bem coberto por uma camada espessa de chocolate que só a mãe de Nélinha sabe fazer.

Todo mundo olhou praquele bolo salivando, e podem apostar que é aí que os homens se distinguem dos animais. Não havia naquele bolo qualquer valor de sobrevivência para que se preparassem para devorá-lo. Também não havia naquele bolo nenhum inimigo com dentes afiados que ameaçava atacá-los por sobre a mesa que por sobrevivência deveriam devorá-lo antes. Havia neles um orgulho humano estranho, de não rejeitar em qualquer custo um sabor que talvez não sentiriam nos próximos dias, afinal não chovem bolos.

E nessa lógica humanamente animalesca partiram seis pedaços para seis pessoas. Cada um tinha abaixo de seus olhos uma propriedade privada, algo que lhes era seu e poderiam gozar a sua própria vontade, em seu próprio ritmo, nesse mundo todo mundo tinha a sua fatia no bolo e ninguém passava fome, definitivamente.

Nélinha explorava a sua propriedade, ela adorava esse bolo. Ela bem sabia que não seria chegada se houvesse só o bolo de cenoura. Ela nem gostava de legumes! Só que isso acontece mesmo, por vezes palavras iguais pode significar coisas diferentes. E se não fosse assim nunca que alguém ia querer comer um delicioso filé de boi morto que vêm na forminha.

Seja como for, a Nélinha pegou seu garfinho e cuidadosamente foi virando o bolo, ela separou toda aquela camada de chocolate, como se fosse puro chocolate, daquele bloco de bolo de cenoura agora sem cobertura. A mãe, já preocupada com a imprudência e desperdício inocente da Nélinha, falou:

- Ah menina! Mas vai comer tudo hein? Não me venha querer jogar bolo fora ou deixar sem recheio pra que alguém coma.

- Claro que não mãe! Eu só estou guardando o melhor pro fim! – e estava mesmo, quando separou o chocolate do bolo de cenoura, Nélinha sabia que teria de enfrentar uma longa mastigação, para então enfim, encontrar a sua redenção no chocolate maravilhoso.

Nélinha chegava às duas garfadas do fim do tijolo de cenoura. Ver que o melhor estava ali, no final de toda essa penitência, era uma motivação, ela era capaz até de sentir fome de novo. Mas foi num susto, num arrancar de dente com o fio dental durante uma história fantasiosa, num band-aid que nos arranca parte nossa sem licença numa vez só sem dar tempo de gritar, numa ave que confortável no líquido que está, rompe a casca fina e vê que fora da casca há um universo dito infinito, num primo que ingenuamente cruel, rouba-lhe o chocolate e joga dentro da sua boca, e o que era de Nélinha não é mais, e não poderia mais ser, nem que o primo cuspisse.

Nélinha chora silenciosa, dolorosa, enraivecida. O consolo é geral, a tia e o tio brigam com o primo na frente dela para que ela saiba que ele foi devidamente punido. O pai consola Nélinha, falando que era só um bolo. A mãe perde a vaidade do bolo e começa a cortar o chocolate do resto da forma, e vai colocando no prato de Nélinha. Não adianta, nada adianta. Ela gostaria que eles pudessem consolá-la, tenta acreditar naquelas palavras do pai, naquele chocolate estranho que a mãe coloca sobre o prato dela e ela o olha agora sem fome, sente até prazer sádico na palmada que o primo leva embora não consiga sentir-se totalmente vingada. Eles não podem consolá-la, nem alguém poderia.

Foi assim que começou mesmo, nesse bolo de cenoura com cobertura de chocolate. Nélinha foi tentando trocá-lo por outras coisas. Entrou na escola e fazia sempre os deveres de casa e deixava o filme, as amigas e as brincadeiras pro final do dia. Cresceu mais um pouco, comprava uma roupa nova e ia despistando a vontade de estreá-la, até que o menino que, era apaixonada, já não a olhasse tanto, aí ela a punha. Cresceu mais um pouco e trabalhava bastante pra que algo acontecesse no final. E os finais aconteciam, um atrás do outro, mas a Nélinha não sabia o gosto do chocolate, não tinha como saber, pois o final lhe foi roubado sem que pudesse escolher. Como se amasse a morte, não no sentido depressivo disso, mas sem saber afinal que gosto de final ela tinha.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Gatochorro


Eu passava diariamente na frente de uma casa amarelo opaco, não como visita, mas passava mesmo. Nesse caminho eu já andava tão acostumado de andar, que poucas coisas chamavam a minha atenção. Lembro até como eu usava meus passeios nos arredores desse caminho diário para pensar em outras coisas minhas sem olhar por onde andava. Acho que eu poderia fechar os olhos e ir indo sem tropeçar em nenhuma guia, e se andava de olhos abertos só o fazia porque, diferente de edificações, havia pessoas que se mexiam por ali. É como estar acostumado, encostado sobre uma verdade da nossa vida de um modo inquestionável. No fundo sou essas minhas verdades que não sei ao certo quando as acreditei.

Como eu ia dizendo, poucas coisas me chamavam a atenção. Mas dessas poucas tinha essa casa amarelo opaco. Não tinha certeza de quem morava lá, mas já inferia algumas coisas corriqueiras de quem passa por lá sem ter de pensar no próprio caminho. A casa era bem miúda solta num quintal declinado de bom espaço. Cortinas sempre quase fechadas, com grades espessas. Nunca vi as pessoas que ali moravam. Sei que tinham um carro velho daqueles que só o dono conhece os problemas. Provavelmente ele queria trocá-lo ou simplesmente desfazer-se dele, mas sinto que ficava se perguntando angustiado quem é que poderia cuidá-lo tão bem. Era uma daquelas coisas que a gente conhece com tanta preciosidade que só quem é o dono sabe manipular, sabe fazer bem à coisa, sabe fazer da coisa uma coisa útil. Aquele porta-malas devia estar cheio de quinquilharias.

Eu sabia que morava mais de uma pessoa ali pelo varal. E sabia também que era um casal de velhos, dado o tamanho daquelas calcinhas, e uma calça masculina social marrom, de tecido grosso, com fiapos, que dê social não tinha nada a não ser alguma rara vez em que o velho ia comprar algumas coisinhas para a dispensa. Em dias sem vento muito forte eu sentia cheiro de bolo de milho ali perto, não tinha certeza que era da casa, mas imaginava uma velhinha, como as avós de contos infantis, que faziam bolos que desmanchavam na língua.

Era engraçado. A casa em si não significa nada não fossem minhas alusões a respeito do que ela abrigava. Mas também não foi assim do nada que aquela casa, amarelo opaco, me convidou a adentrar dessa maneira intrometida e inventiva. Foi culpa primeira do gatochorro. Na verdade eram dois animais. Uma gata que não sei distinguir raça, e um cachorro daqueles compridos que eu supunha ser bassê. Eram bichos tão curiosos para mim que acabei por uni-los, porque só me eram curiosos pela estranheza com que se relacionavam.

A gata tinha pelos assanhados e lisos. Ficava séria me olhando quando a chamava. Gorda e sem medo vinha na minha direção, e deixava que meu três dedos que passavam por aquela grade enferrujada lhe afagasse. Quando fazia isso aquele cachorro cumprido, em um ato de carência ou de ciúme, vinha por sobre a gata a tentar seduzir meus dedos com lambidas. Ele me incomodava por pedir o carinho, achava-o chato porque achava que carinho pedido é favor. Mas ai me afastava e ficava olhando o gatochorro.

Ele queria brincar com a gata que lhe desferia golpes controlados com as patas. A única forma de ficar perto da amiga gata era quando lhe dava mordidinhas de massagem nas costas, naquela parte da pele do gato que é bem mole. E aí a gata ficava ronronando de prazer, e o cachorro massageando. Até que ele, o cachorro, parava e a olhava como se dissesse “pronto, agora é sua vez”, e a gata ia embora com a cara deslavada de quem não deve nada a ninguém. Aí eu ficava em dúvida, se ambos não pediam carinho, mas a gata o fazia de um jeito como se não pedisse, era desonesta, e estranhamente me seduzia mais por isso.

Gatochorro moravam juntos no quintal. Não no sentido humano da palavra, pois em outro sentido eles simplesmente estavam num quintal de uma casa. Estavam por uma opção compulsória da sobrevivência. Tinham providas as suas rações diárias, espaço para se moverem o suficiente para não ficarem patologicamente entediados, e de luxo ainda lhes restavam afagos de mãos confiáveis e idosas por sobre seus pêlos lavados. Eram livres no sentido de sentirem-se livres onde estão. No sentido de que a realidade que lhes foi dada não impunha limites que o levassem a fugir, ou pelo menos eles não demonstravam quando ficavam ali, absortos no solzinho, habituados ao seu relacionamento simples do dia-a-dia de sempre.

Foram muitas as minhas passagens na frente da casa amarelo opaco. Muitos os afagos com o gatochorro. Muito que soube sem saber ao certo sobre os moradores que ali viviam. Aquele casal de velhos. E um dia eu passei pela frente da casa amarelo opaco, e eu vi a porta daquele carro velho aberta, e enfiado dentro do carro alguém. Fiquei curioso, não vi o gatochorro. O homem que estava ali, agachado sobre o banco do motorista usava aquela calça marrom, e nele lhe caia de um modo até elegante se pensarmos que ele estava usando no quintal de casa. Não vi o gatochorro.

Fiquei parado olhando. E de repente o velho saiu de dentro do carro. “Sabia que era um velho”, eu pensava. Num sorriso leve numa feição meio sofrida me disse devagar, aproximando-se da grade:

- Boa tarde jovem. Será que você não viu uma gata por aí? Peluda, gorda...

Fiquei triste ao ouvi-lo. E reagi como se fosse um problema meu também.

-Não acredito Senhor. Eu sempre passo por aqui, adoro vê-los brincar juntos... A gata perdeu-se...

-Sim. E pior que o coitado do cachorro não vive sem ela. Eu vou é levar ele pra um sítio de um filho meu, porque aqui ele vai é morrer de tristeza, de solidão.

Eu olhei e o cachorro estava ali, dentro do carro, apoiando o focinho sobre as patas, culpado. Fiquei tão angustiado, querendo ajudar, mas sem nada a dizer. Eu não reparava em nada além da casa amarelo opaco em meu caminho do dia-a-dia de sempre, se a gata passou por mim seguramente eu não a vi.

-Pior que devem ter roubado. Gente desgraçada...

O velho resmungava e se voltava para o carro. Nessa hora saiu uma velhinha, que mesmo de idade ainda era vaidosa, com brincos dourados e uma roupa que combinava. Ela olhou-me sorrindo, como se estivesse animada por sair pouco, o motivo não era bom, mas eles saiam, como jovens passeando de carro. Pediram-me que fechasse o portão.

Foi a última vez que a casa amarelo opaco me chamou a atenção. Lembro-me de não ter mais olhado pra ela, como se a saudade que sentia disso ficasse em mim e mais em nenhum lugar.