Tem alguns lugares da natureza, ou mesmo até na urbanidade, que as pessoas sacralizam como um lugar inspirador. Essas escolhas desses lugares carregam um cunho muito pessoal e quase proprietário, por assim dizer. Não é que as pessoas sejam donas desses lugares no sentido de ter a escritura formalizada, na verdade essas pessoas têm só escritura histórica. Dum dia, algum fato, que colou ali, pra tirar um pouco de dentro de si mesmo e jogar naquele espaço de linhas invisíveis aos olhos alheios. Aí se cria toda uma coisa de cunho pessoal e proprietário como eu vinha dizendo: o lugar se torna rotulado da pessoa. Ela até conta pros outros de tudo que esse lugar guarda de sublime, tudo que ela sente quando vai lá, mas é daquele jeito de oferecer pedaço só por educação, com o tempo todo negando nas entrelinhas veladas que nenhum outro qualquer é capaz de vê-lo por inteiro tal como o dono do lugar pode. Esse ciúme pode até se tornar mais permissivo, numa tarde qualquer, mais ou menos solitária, convida-se alguém especial, sortudo, para dividir aquele espaço, como se quisesse dizer a essa pessoa que quer dividir-se a si mesmo.Claro que há lugares que são disputadíssimos. Tais como mirantes de pontos turísticos, meios de trilhas super conhecidas em temporadas, uma cachoeira com nome e até site na internet. Mas também tem aqueles menos extravagantes, mais criativos, mais tímidos ou mais aconchegantes. Há lugares desses tanto quanto há pessoas desses lugares. Lembro-me agora até de uma amiga mais velha da minha infância, ela não era mais da mesma inocência que eu, por ter três anos mais dos meus e mulher. Ela foi rapidinha ter seu lugar e eu o achei lindo. Era numa mangueira velha e escondida. Esse lugar já tinha nele mesmo um esforço para encontrá-lo, um engajamento sabe? Quando minha amiga me levou lá me foi sofrido subir naquele galho, foi vencido, foi um lugar ganhado. Percebi que pra ela, pra ser dela, tinha que ser assim, a duras penas, diferentes de todos. Eu estava com medo sob aquele galho, mas ela não. Era dela, era ela. Fiquei ali um tempo, eu a olhando e ela como se dormisse sobre si mesma, como se tivesse marcado um encontro com ela mesma. O sol foi caindo, as risadas foram amortecendo os lábios e fomos embora.
Naquele dia, descido da árvore eu estava orgulhoso de ser convidado, e mais, sabia aonde encontrá-la se eu a perdesse de vista, ela estaria ali, e se ela fosse para longe ali estaria nela. E eu tinha agora um dilema pra vida, eu tinha uma tarefa incomensuravelmente significativa de achar meu canto. Fiquei numa ansiedade danada, sem canto.
E foi naquele imediatismo da infância que eu me desesperei e fiquei olhando pra tudo quanto é lugar que eu ia, e eu estudava cada canto e nada. Eu olhava se tinha tudo que eu gostava, comparava até como ficava em diferentes estações, quantas pessoas cabiam lá, se muitas pessoas freqüentavam, eu fiz uma pesquisa refinada de dados e nada do meu canto. Fiquei na angústia de não caber nesse mundo, ainda que soubesse que o mundo era bem maior do que aquele meu bairro pobretão, aquele meu pequeno perímetro, meu mundão.
Almejar não deu em nada além de frustração. Cansei, cresci, sem canto. Tanto sem canto que saí cedo de casa, como se me rebelasse de não ter um canto queria de tudo quanto é lugar. Minha mãe passou um monte de anos, quando eu ligava nas minhas discagens diretas à distância, dizendo que morria de saudade, eu dizia “nada disso mãezinha, de saudade é que você vive”. Ela me criou solto e eu nunca quis que fosse diferente. Suas implicações foram poucas e boas, sensatas e amorosas. E meu pai era do mesmo feitio, singelo, e suas implicações nem foram nada além de explicações que guardo pra todo dia. Foi assim que o mundo ficou liso pra mim.
E nessa coisa de ser crescido sempre levei uma pulga atrás da orelha pro meu canto, como uma maldição, eu era o joão-sem-canto. O que me acalmava é que eu sabia, eu tinha certeza absoluta que não tem jeito, é destinado, todo mundo tem seu canto. O que me fez demorar em achá-lo não foi imprudência e negligência de procura, foi não saber, como um tolo, desde sempre que comecei minha busca: o canto não se escolhe, se é escolhido por um canto. Essa foi uma primeira coisa que tive de pensar quando achei meu lugar fotográfico. É meio simples e impossível de se explicar sobre palavras, e nem mesmo uma boa metáfora ajuda muito. É como se eu tivesse me dissolvido na natureza e fosse eu, o canto, o mundo todo, numa só consciência.
Meio banal e comum, aconteceu no meio de uma manhã de céu azul, tempo seco. Eu morava numa cidade perto de mar, e o que não faltava era natureza, tocada pelo homem só de leve, com cicatrizes finas de terra que levavam a lugares maravilhosos, as trilhas. Eu fazia uma trilha que já tinha feito numa vez ou outra, mas era a primeira vez que eu fazia sozinho. Como julgava conhecer bem o caminho, um dia levantei entediado e resolvi fazer sem um bom por quê.
A caminhada era rápida até, mas tinham umas partes íngremes. A secura do tempo me deixava cada vez mais sedento. Ainda o sol se punha cada vez mais no meio do céu azulão, e fritava meus pêlos todos. A minha pele ficou sensível, ardia. A roupa roçava, os pequenos galhos roçavam, a mochila roçava nos ombros quentes. Passei por uma parte em que a terra do chão ia ficando mais empedrada, o passo ficava mais fácil. Nessa parte sabia que dali pra pouco que vinha o céu aberto, o mar, a recompensa daquele caminhozinho quente, o fim da subida pra parada, pra morte do desejo de trilhar.
Cheguei ali, naquela pedrona redonda. Alarguei um sorriso sincero, e ficava mais sincero ainda por não ter quem olhá-lo. Eu preocupava-me pouco em rir sozinho e adorei, quanto mais eu pensava nisso mais eu sorria. Larguei sem cuidado a mochila no chão, tirei o sapato e sentei no ponto mais alto daquela pedra quente. Via as ondas parecerem estar em câmera lenta tentando derrubar a montanha, que sólida só acalmava o mar turbulento em borbulhas brancas espumosas, como se sentisse cócegas. Ainda não era meu canto.
Num susto surpreendente veio não sei de onde, um vento fino, reto, frontal. O vento foi permeando meus pêlos, me esfriando, esfriando a pedra. Meu sorriso alargou como nunca pudera ter sido. Fiquei sabendo o quanto eu sempre postergava coisas. Como me era uma tarefa difícil escolher todo dia, o que ser, o que ser quando crescer. Minha escolha era sempre a postergação. Dei-me conta que postergando as escolhas eu escolhia ser inerte, irresponsável pela vida. Eu escolhi não escolher e postergar tudo, todos, seguir só os impulsos que vinham sem uma boa racionalização. Escolhi ser movido pelo tédio, pela boa manipulação. Escolhi ser levado pelo vento pra qualquer lugar que ele me levasse. Por esse vento. Escolhi meu canto.





