Domingo de manhã, o teto do mundo está forrado de azul celeste. Magda quando respira inspira ação. Ter um dia quente e fresco pela frente sem preocupações tem sido raro. Nos últimos meses ela tem acordado com um pensamento, com um dever atestado, comprometida. Hoje ela primeiro abriu os olhos. São nesses momentos assim que ela pode finalmente edificar coisas novas, reformar velhas, e não entoar o canto de todo dia que já está tão prescrito e, se não der certo fica perturbador. Nesse domingo não há antecipações, e, portanto, não há coisas para dar certo, há coisas para se dar.
O momento é raro, mas não de uma raridade que se teme acabar, que se anseia ter luto. É uma decorrência de estar num estado sustentável, de ter feito tudo o que tinha precisado fazer só pra que sobrasse esse tempo particular. A natureza colaborou. Magda deu aquela espreguiçada que fazem com que as costelas não mais se escondam, e respirou bem fundo. Saiu do quarto e foi perambulando pela sua casa, sem nenhuma vontade precisa. Foi para a cozinha, posicionou uma xícara larga de baixo da máquina de café expresso. Achatou o café no recipiente e a ligou. O zumbido da máquina foi a primeira coisa que cortou o silêncio, e a segunda foi logo em seguida ligar o rádio na sala.
Estava tão desligada do mundo que ao ligar o rádio esqueceu-se ela mesma de que tinha um filho dormindo, que o pai não foi pegar Juan no fim de semana, em que seria dele. Baixou logo o som, um pouco tarde demais, mas baixou. Noutro canto da casa o sono do filho foi interrompido ao som da MPB, não de um modo brusco, mas interrompido. Era uma criança, com quase quatro, e desatou a chorar. Esse foi o terceiro som do dia de Magda. Culpou-se, não dele chorar, mas de tê-lo esquecido, de ter sido tão egoísta que pudesse achar que aquele domingo seria só dela. Sentiu-se idiota. Mas estava errada em inquerir-se desse modo, o domingo tinha lhe deixado tão grande, como se suas vontades vazassem das compressões e arrochos comuns. Mesmo assim ela se reteve, culpou-se de ser assim tão grande e feliz. Reflexamente desligou o rádio, e esqueceu o som da máquina de café, que dali a pouco inundaria a xícara larga vazando sobre a pia de mármore.
Foi até o quarto de Juan e sentou-se ao seu lado. Abriu a cortina e desligou o abajur todo trabalhado que vazava feixes de luz em formato de estrelas no teto.
- Oi filho. Desculpe. – passou a mão sobre a testa de Juan, lhe esticando as pálpebras úmidas, e secando as lágrimas.
O menino acalmou-se logo, ainda tinha sono. A mão incessante de Magda sobre os cabelos finos do garoto o pôs a dormir de novo, como mágica. E permaneceu assim por um tempo até que a máquina de café voltasse a ser ouvida novamente. Saiu com cuidado do quarto e foi consciente de que teria de limpar a cafeteira e o mármore, e que se quisesse café teria de refazê-lo. Limpando a sujeira lembrou que Juan estava esmorecido do pai ter desfeito a promessa. Os encontros esporádicos com o pai eram saborosos, pois o pai era mais compromissado com a dimensão do lazer de Juan, quase não se lembrava de todo cuidado necessário para que o menino brincasse saudável.
Quando acabou a limpeza Juan veio de pijama, com os olhos remelentos, quase grudados. Puxou a barra da blusa da Magda, ela não precisou de muito para saber que ele queria comer. Desistiu de seu café, pegou uma faca e algumas laranjas maduras, levantou Juan ao colo e foram juntos para a sacada, Magda, Juan, a faca e as laranjas. Magda sentou e encostou-se sobre o vitral que separava a sacada da sala de estar daquele apartamento alto. De pernas abertas colocou Juan contido em sua frente, como se o aninhasse. Foi descascando as laranjas. Dividiu uma em duas. Deu uma metade a Juan, que fez bico como se negasse. Ela fez cócegas em sua barriga e ele começou a rir agudamente. Juan abriu bem os olhos ao rir alto. Pegou metade da laranja da mão de Magda, e foi tentar chupar. A laranja lhe cobria quase que metade do rosto. Magda chupava sua parte e ria enquanto o filho se sujava, via que ele se sujava, mas que estava obstinado na sua tarefa de comer sozinho a própria laranja. Ele era grande, maior do que ela supunha. O tempo passava, o domingo era raro. Ficaram conversando a até que o sol chegasse ao meio do céu, e não mais esquentasse a sacada. Quando fez frio entraram.




