sábado, 27 de agosto de 2011

Raro


Domingo de manhã, o teto do mundo está forrado de azul celeste. Magda quando respira inspira ação. Ter um dia quente e fresco pela frente sem preocupações tem sido raro. Nos últimos meses ela tem acordado com um pensamento, com um dever atestado, comprometida. Hoje ela primeiro abriu os olhos. São nesses momentos assim que ela pode finalmente edificar coisas novas, reformar velhas, e não entoar o canto de todo dia que já está tão prescrito e, se não der certo fica perturbador. Nesse domingo não há antecipações, e, portanto, não há coisas para dar certo, há coisas para se dar.

O momento é raro, mas não de uma raridade que se teme acabar, que se anseia ter luto. É uma decorrência de estar num estado sustentável, de ter feito tudo o que tinha precisado fazer só pra que sobrasse esse tempo particular. A natureza colaborou. Magda deu aquela espreguiçada que fazem com que as costelas não mais se escondam, e respirou bem fundo. Saiu do quarto e foi perambulando pela sua casa, sem nenhuma vontade precisa. Foi para a cozinha, posicionou uma xícara larga de baixo da máquina de café expresso. Achatou o café no recipiente e a ligou. O zumbido da máquina foi a primeira coisa que cortou o silêncio, e a segunda foi logo em seguida ligar o rádio na sala.

Estava tão desligada do mundo que ao ligar o rádio esqueceu-se ela mesma de que tinha um filho dormindo, que o pai não foi pegar Juan no fim de semana, em que seria dele. Baixou logo o som, um pouco tarde demais, mas baixou. Noutro canto da casa o sono do filho foi interrompido ao som da MPB, não de um modo brusco, mas interrompido. Era uma criança, com quase quatro, e desatou a chorar. Esse foi o terceiro som do dia de Magda. Culpou-se, não dele chorar, mas de tê-lo esquecido, de ter sido tão egoísta que pudesse achar que aquele domingo seria só dela. Sentiu-se idiota. Mas estava errada em inquerir-se desse modo, o domingo tinha lhe deixado tão grande, como se suas vontades vazassem das compressões e arrochos comuns. Mesmo assim ela se reteve, culpou-se de ser assim tão grande e feliz. Reflexamente desligou o rádio, e esqueceu o som da máquina de café, que dali a pouco inundaria a xícara larga vazando sobre a pia de mármore.

Foi até o quarto de Juan e sentou-se ao seu lado. Abriu a cortina e desligou o abajur todo trabalhado que vazava feixes de luz em formato de estrelas no teto.

- Oi filho. Desculpe. – passou a mão sobre a testa de Juan, lhe esticando as pálpebras úmidas, e secando as lágrimas.

O menino acalmou-se logo, ainda tinha sono. A mão incessante de Magda sobre os cabelos finos do garoto o pôs a dormir de novo, como mágica. E permaneceu assim por um tempo até que a máquina de café voltasse a ser ouvida novamente. Saiu com cuidado do quarto e foi consciente de que teria de limpar a cafeteira e o mármore, e que se quisesse café teria de refazê-lo. Limpando a sujeira lembrou que Juan estava esmorecido do pai ter desfeito a promessa. Os encontros esporádicos com o pai eram saborosos, pois o pai era mais compromissado com a dimensão do lazer de Juan, quase não se lembrava de todo cuidado necessário para que o menino brincasse saudável.

Quando acabou a limpeza Juan veio de pijama, com os olhos remelentos, quase grudados. Puxou a barra da blusa da Magda, ela não precisou de muito para saber que ele queria comer. Desistiu de seu café, pegou uma faca e algumas laranjas maduras, levantou Juan ao colo e foram juntos para a sacada, Magda, Juan, a faca e as laranjas. Magda sentou e encostou-se sobre o vitral que separava a sacada da sala de estar daquele apartamento alto. De pernas abertas colocou Juan contido em sua frente, como se o aninhasse. Foi descascando as laranjas. Dividiu uma em duas. Deu uma metade a Juan, que fez bico como se negasse. Ela fez cócegas em sua barriga e ele começou a rir agudamente. Juan abriu bem os olhos ao rir alto. Pegou metade da laranja da mão de Magda, e foi tentar chupar. A laranja lhe cobria quase que metade do rosto. Magda chupava sua parte e ria enquanto o filho se sujava, via que ele se sujava, mas que estava obstinado na sua tarefa de comer sozinho a própria laranja. Ele era grande, maior do que ela supunha. O tempo passava, o domingo era raro. Ficaram conversando a até que o sol chegasse ao meio do céu, e não mais esquentasse a sacada. Quando fez frio entraram.

Passar ela

Eu vinha andando na avenida de baixo, que se encerrava no pé de uma ladeira não tão íngreme, mas longa. Constatava a ladeira e que bom que o dia era nublado, assim não chegaria ao fim da ladeira ofegante e suado. Quando media a ladeira, olhando seu fim, vi lá no fim dela surgir por entre os postes e os driblando uma moça que já cruzei noutras vezes. Estava diferente. Descia a ladeira descabelada, em passos largos. É bonita, mas não é assim que se vê hoje desde que acordou atrasada. E poderá ter um tom profético a minha observação, mas é certo de que no meio do caminho ou no fim dele se dará conta que esqueceu alguma coisa, e que não será mais tempo de voltar. Descia com o pescoço um pouco corcunda, a calcular os passos dianteiros, e de modo incomum espreitava com o olhar os homens que passavam. Logo ela que olhava sempre fixa ao horizonte, intocável. Não teve tempo de posar diante do espelho e lapidar-se em maquiagem, consertando os erros da beleza natural de uma mulher que acorda depois de um sono que se estendeu mais que o esperado.

Ocioso que estava e ainda tenho uma facilidade besta de ficar olhando a vida acontecer, detalhando-a e significando tudo o mais que me intriga. É até um modo mais fácil de que disponho para chegar a coisas sobre meu eu, ser assim, reativo àquilo que me intriga e antes de explicar porque é que intriga, ficar intrigado e ver no que será. Parei meu passo e estacionei perto duma mureta no pé da ladeira, recostei-me nela e fiquei olhando a moça que descia, com uma bolsa cheia, bege e zíper dourado. Naquela hora que a fitei ela fazia das mãos duas escovas, a tentar ajustar a franja e resto do cabelo. Quando não era escova oscilava o uso das mãos conferindo a roupa, se estava justa aonde deveria estar, e se o corpo já havia se encaixado no corte que elas esperavam. Era melhor tatear a roupa do que vê-las, pois quando a moça o fazia lembrava-se de que odiava a combinação que tinha feito as pressas, foi por isso que fechou o casaco, mesmo que o frio não estivesse intenso pra tal ação.

Quando ela chegava ao meio da descida da ladeira mudei de opinião, não era bonita. O curioso é que se ela não tivesse demonstrado nessa minúcia o quão desleixada estava eu não teria notado, e ficaria, pelo menos, na dúvida. Deveria ser uma daquelas moças de beleza controlada, de beleza feita, comprada. Uma moça assim vai-se descobrindo dessa camada mais superficial e aparente, e no fim é outra coisa. Não que fosse feia, mas é, sobretudo, alguém que insiste em mostrar-se para além do que é. É, ainda mais, alguém que não gosta de si no estado natural das coisas. Alguém que cede às exigências do mundo, senti pena dela.

Quando quase se aproximava do fim de sua descida e de mim, começou a fuçar na bolsa, como um cachorro procurando um osso enterrado. Não mais olhava os passos dianteiros, nem os homens que se atravessavam pelo caminho, andava mecânica e olhava para dentro da bolsa, de um modo que parecia ser aquela fenda a abertura para um abismo sem fim. Foi aí que mudei de opinião novamente, era bonita, muito mais do que antes eu supunha. Interrompeu o passo há uns seis metros de mim, parou, fechou a bolsa vagarosamente, respirou fundo e colocou a mãe no rosto para que os olhos fechassem. Não sei o que ela esqueceu, mas sabia que não daria pra voltar pra pegar. O irreversível é doloroso, mas por outro lado leva a uma conformação plena quando constatado. Depois de um intervalo com os olhos bem cerrados e tapados pelas palmas das mãos foi os abrindo. Assim fazia quase com que começasse de novo o dia, como se estivesse a abrir os olhos pela primeira vez, só que mais corajosa. Quando tirou as mãos do rosto sua feição estava menos sombria. Aceitou o atraso, despiu-se de tantas exigências de ser exata, pontual e bonita. Tudo o mais que não fosse um amor a si mesma e um respeito pelo seu estado emocional passou a ser trivial. O cabelo mais bagunçado caiu-lhe charmoso. Ela sorriu quando passou por mim sem me olhar nem por um segundo, não precisava mais da minha aprovação. Senti pena de mim.


Boi dia


Domingo. O jovem Walter pôde acordar um pouco menos cedo para o trabalho. Justo o dia em que não teria que cortar ao meio um sonho, como era sempre, não sonhou com nada. A noite foi-lhe um longo piscar de olhos. Além de dormir um pouco mais do que o que dormia no dia-a-dia dava-se ao direito de, no domingo, tomar café com leite cremoso dose grande, feito na máquina de café expresso, e um queijo quente com pão fresco e quentinho e mussarela derretida de qualidade na padaria bread’s valley, feito pelas mãos da padeira quase aposentada Maria.

- Ô Walter, o de sempre?

Walter acenou que sim com prontidão, um movimento conciso e vertical da cabeça que ia de cima a baixo uma só vez, e o levante objetivo do polegar direito na direção de Maria. Assim atestava o seu domingo, e assim estava brando. Só não estava para conversa. Havia algo que com alguma frequência ele sentia aos domingos, e que o deixava assim um pouco mais arredio, indisposto da prosa. Maria já sabia que ele era de lua e não se punha a questionar, embora gostasse de um bom papo. Havia algo que Walter não dividia, era uma ânsia que vinha aos domingos, a sua garganta parecia fechar-se, e o primeiro gole do precioso café com leite sempre voltava com um leve espasmo, e quando descia novamente para enfim esquentar o estômago, ia acompanhado de um gosto sutil de sangue, como se tivesse rompido a víscera.

Mas não ia a bread’s valley só por um café da manhã mais fresco e encorpado, ia também para ser servido, uma vez que fosse, sem se preocupar com a louça e nem com os farelos acidentais. A outra razão era Nora. Uma adolescente que se fingia de adulta, inundada de sonhos e extremamente sedutora. Despojada, usava um jaleco de uniforme da padaria, e era a única funcionaria a deixa-lo desabotoado, transgressora, e empregada no caixa da padaria.

- Deu três e vinte e cinco.

- Oi Nora.

Ela o olhou com um leve riso, e estendeu a mão na espera do pagamento. Walter nunca vinha com o dinheiro trocado, só para que Nora resvalasse seus dedos nas mãos dele quando lhe devolvia o punhado de moedas. As unhas dela eram sempre provocantes, tinha a pele lisa e delicada. Walter sentia vontade de lhe agarrar a mão inteira e lhe puxar de um modo que ela aceitasse solícita, e fugissem dali, pruma vida melhor. Assim atenuava a sua ânsia, o resquício de saber de sangue que nunca deixava o café perfeito dissipava. Nora não tinha muita ideia do poder que tinha sobre Walter, mas também não lhe era interessante saber. Ainda que desconfiasse que ele era atraído por ela – como muitos clientes eram – sabia que não importa quando amor ele pudesse ter, era açougueiro, e ela queria passar a lua de mel num mar internacional, aonde se falasse outra língua.

Olhou no relógio de parede da padaria e já era mesmo hora de ir. A caminhada até o supermercado tomava uns 20 minutos a passos curtos, não era tanto. Só que não gostava de apertar o passo. O estoque do açougue era frio para que não apodrecessem as carnes, e se chegasse suado, além do choque térmico, a camiseta umedecida era um tiro no pé. Sentiria frio por toda a jornada, e correria o risco de adoecer, um direito que não lhe era conferido, pois doente não tinha quem desse conta de Walter. Outra coisa boa do domingo é que no fim do expediente alguns colegas do mercado se reuniam. O Plínio, que era do estoque, tinha arrumado um jeito de elaborar uma pequena corrupção que passava por debaixo das vistas grossas do gerente do mercado, já que de domingo ele não trabalhava. Angariava ilicitamente dois fardos de cerveja importada long neck. E sempre que abria uma garrafinha daquelas dizia que cerveja gelada no vidro é outra história. Assim Walter voltava pra casa com uma embriaguez leve, e dormia pra começar a outra semana.

Walter vestiu o avental branco na ante-sala que dava no geladeira do açougue, adentrou e começou a se mexer logo para que não sentisse o frio por tempo demais. Recolheu as peças que já tinha deixado ordenada, penduradas em ganchos nos canos metálicos que circundavam o frigorífico. Levou as carnes até a sala de vendas do açougue, que era menos fria. Prostrou-se sobre o balcão, que separava o seu local de trabalho do pátio do mercado, por um espesso vidro acrílico que impedia que qualquer outro sentisse o frio e o cheiro de sangue que predominava. Aproximou-se um casal aos risos.

- Bons dias – Walter sorriu atendendo.

- Bom dia. É, será que dá pra moer meio quilo de alcatra? – disse a moça, e dirigiu-se ao rapaz que o acompanhava – Amor, você espera aqui? Eu vou pegar a massa tá?

- Dá sim, mas olha, se for moer pode ser o patinho. Sai mais em conta e também é carne de primeira moça.

- Ahn, é? Bem, faz da alcatra mesmo, por favor.

Acenou a cabeça que sim, num movimento conciso e vertical da cabeça, que ia de cima abaixo numa só vez. Andou até o varal que suspendia uma vigorosa peça de alcatra. Carregou a peça até a mesa de cortes como se a ninasse. Jogou-a na mesa sobre uma tábua manchada, empunhou o facão encostado e fatiou um terço da peça. Pensou no cheio da Nora, como é que seria se lhe fungasse a nuca? Arremessou o pedaço de carne na bandeja que era suporte do moedor, ligou a engrenagem, aos pouco a carne moía, destroçava. Enquanto isso a moça debatia com o rapaz que a acompanhava, que não conseguia abrir mão de que fosse alcatra. Que tinha um pouco de nojo de carne. E depois afastou-se do rapaz que a acompanhava pra ir buscar a massa.

- Deu a conta hein? – disse o cliente quando Walter colocou o saco de carne moída na balança e o valor do peso foram quinhentas e um gramas.

- Quase senhor, por pouco, ganhou uma grama a mais – Walter sorriu, estava contente por ter sido tão preciso logo no primeiro cliente.

O rapaz pegava o saco de carne, e junto voltava a moça com uma massa de lasanha nas mãos. Walter entregou a carne.

- Um bom domingo pra vocês.

- Igualmente – disse a moça colocando a carne no carrinho e partindo de mãos dadas com o rapaz.

Walter pensou em Nora.

- Próximo.


Dom Alice

Naquela época eu era meio sozinho, porque morava sozinho, e do pouco tempo que tinha do meu dia atribulado eu gostava de ficar em casa fazendo nada, exercitando o descompromisso com o tempo. Só não era completamente sozinho porque me foi dada uma dádiva: minha vizinha. Uma mulher quase cinquentona com expressão frágil e poucas sobrancelhas, conservada. Eu cruzava com ela raras vezes, e mais na rua do que no hall de entrada de nossos apartamentos. Geralmente a via dando uma caminhada, que cria ser o segredo da manutenção de alguns traços joviais, embora os sinais da idade não mais se escondessem sem quererem ser encontrados. De outro modo estava sempre resolvendo uma coisinha, carregando uma sacola de supermercado, da farmácia, da padaria, de roupas, da antena que deixou pra consertar. Não conversávamos demais, mas eu a tinha quase como um estepe da minha falecida mãe. Éramos nós dois sozinhos, cada um dum lado da mesma parede que nos separava.

Não nos fomos apresentados a primeira vista, eu a conheci de um modo diverso. Um dia eu cheguei em casa e tinha lá no pé da porta uma caixa de papelão cheia de abacates. Não abacates quaisquer, mas abacates com cara de sítio. Na minha infância minha família e eu íamos na chácara da minha tia e era fantástico colher uma fruta ali na hora e come-la. Era, quase sempre, muito menor do que uma fruta de supermercado ou de feira, mas tinha um gosto estético acrescido que não se pode pagar. Eu me deliciava. Lembro minha mãe partindo as laranjas, que eram de cor laranja, e nós, eu e minhas irmãs, as chupando sentado na soleira do portão. Foi o que memorei quando vi a caixa de papelão cheia de abacates perto do meu capacho que eu não lavava à tanto tempo. Minha mãe nunca o deixaria ficar tão sujo.

Antes que eu pudesse duvidar da procedência do fruto ali encaixotado se revelava umas letras de caixa alta dizendo “pode pegar, é do 22”. Peguei alguns deles, aqueles que eu supunha que comeria, seria desperdício mofá-los, eram tão imperfeitos e, por isso, tão naturais. Eles renderam uma guaca mole e uma sobremesa batida no liquidificador com leite condensado. Eu estava acostumado com comidas mais práticas que vendiam, até cheesburguer de pôr 3 minutos no micro-ondas. Não pude agradecê-la, pois toquei a campainha e ninguém abriu. Fui descobrir um tempo depois que ela variava a morada, morava ali e cuidava de seu pequeno sítio.

Caixas no pé da porta me surpreenderam com várias coisas. Bananas, abacaxis, mais abacates, tomates que eu nunca tinha visto daquele tipo. E numa vez ou outra tocava a campainha com pãezinhos caseiros ou bolos deliciosos. Era algo meio esporádico, não que se podia contar, mas que vinham nos momentos certos. Lembro de uma vez em que eu cheguei em casa e fiquei puto porque a geladeira não tinha nada. Estava preguiçoso e o mercado era longe demais. A campainha tocou. Tinha um gosto muito bom e um prazer que eu nunca mais sentia de receber algo tão fácil, um cuidado tão sem preço e quase incondicional. Tinha o gosto de quando eu era criança, da mágica que era eu abrir minhas gavetas e ter lá roupas limpas, como se viesse do nada.

O nome da vizinha era Alice. Morava ela num ninho vazio, antes povoado pelos seus quatro filhos que cresceram. Rápido e livres demais, pro mundo. Ficou viúva uns poucos anos depois das crias irem embora. Um dia tocou a campainha, me deu quase que um estoque de alimentos.

- Nossa Alice, nunca lhe retribui, dessa vez você caprichou.

- Olhe, está caprichada que é a última! Vou de vez pro sítio, não tem nada mais aqui pra mim – disse me olhando como se soubesse que eu sentiria sua falta.

- Está certo Dona Alice, acho que está certo assim.

- Deus te abençoe... Ah... Aqui em baixo – começou a fuçar na caixa que tinha acabado de me dar – tem esse livro de receitas que eu anotei por toda a vida. É seu, elas já estão na minha cabeça.

- Obrigado Alice, acho que vou precisar mesmo agora.

- Obrigada também.

Eu nunca pude dizê-la o quanto ela me deixava menos sozinho e o quanto ela acabou de cumprir a tarefa inacabada de minha mãe. Também pensei que nunca tinha lhe retribuído. Mas hoje me dei conta de que ao mesmo tempo em que ela tinha sido o restinho de mãe que eu precisava, eu lhe tinha sido um restinho de filho.



Ótimo mesmo

A palavra é otimismo. Ainda que ela não pudesse traduzir para si mesma aquele desejo que ela tentava estourar junto com os fogos de artifício na virada de um ano para o outro. Era bonito de vê-la, dava uma sensação de que não havia distinção entre o que estava sob sua pele e o mundo no entorno. Os anos passados não haviam sido nada catastróficos, mas eles vinham passando cada ano mais rápido, com aquela gradativa descrença aos quais os adultos, cada vez mais lúcidos dos porquês do mundo, estão submetidos. Era uma situação provocada do acaso mesmo, que naquelas festas de fim de ano a empurraram para passar os últimos dez segundos do ano com os pés enfiando na areia endurecida pela garoa.

Fiquei pasmado de vê-la daquele jeito. Num vestido branco colado no corpo, segurando uma garrafa inteira de champagne com a rolha pronta para ser espirrada pra longe. Eu nunca coloquei muita fé nessas coisas de virada de ano. Eu tenho certo ceticismo que sempre carreguei sobre as festas. Só que vê-la daquele jeito fez confessar minha arrogância de tirar a graça dos rituais humanos de nosso tempo. Essas datas parecem sempre carregar uma exigência descontextualizada de felicidade, eu não funciono sob pressão, assim me justifico.

O fato é que estávamos lá, com os pés na areia endurecida pela garoa. E quando todos começaram a contar regressivamente eu a olhei nos olhos, e ela olhava para cima com uma expectativa de ver as cores estourando no céu noturno sem estrelas e cheio de nuvens. Não sei se as gotas se acumulavam sob as maças de seu rosto e escorriam, ou se ela mesma é que choramingava de emoção. Independente das causas. Era bem bonito de ver.

Os fogos foram subindo um atrás do outro, fazendo barulho e fazendo com que a retina dos olhos castanhos claros dela variasse frequentemente em cores diversas. A pupila dilatava e continha todo o tempo. Por vezes ela fechava os olhos como se orasse para si mesma que dali para frente as coisas fossem diferentes, que os sonhos gigantes fossem finalmente realizados. Algo precisava mudar, algo precisava ser diferente, aquele ano deveria durar mais para ela e ficar marcado no resto de sua vida.

Ela percebeu estar sendo olhada por mim e me olhou. Sorriu e veio me dar um abraço molhada e forte. Os dedos longos dela foram entrando na raiz de meus cabelos da nuca. Ela colocou as suas duas mãos sobre as minhas orelhas e tentou me dizer alguma coisa que não pude ouvir. Colou os lábios nos meus e me deu um beijo estonteante. A palavra era mesmo otimismo, daqui pra frente, mesmo.