sábado, 10 de abril de 2010

Apetitemos


Comer, todo mundo sabe, é uma coisa que todo mundo aprendeu antes de nascer. É diferente de preparar comida ou fazer compras no supermercado, é enfiar qualquer coisa na boca quando a gente sente fome. Qualquer coisa mesmo. “O quê comer” já é uma coisa que a gente aprende pela experiência, se o cheiro for bom, se a forma parecer agradável e não doer dentro do corpo dá pra comer, mesmo que só entre e saia do corpo sem deixar nada de importante.

O mundo é diferente de tudo que qualquer coisa viva que acabou de nascer saiba como deve agir pra permanecer vivo dentro dele. A única coisa que qualquer coisa viva sabe sobre o mundo é que ela precisa estar no mundo pra ser viva, ou, pelo menos, se sentir viva. Viver é a necessidade de estar no mundo.

O mundo humano é mais complicado do que o de qualquer coisa viva. Nos conformes do crescimento parece que tudo o que a gente faz é como tem que ser feito. Que tudo que a gente pensa é como tem que ser pensado. Que tudo que a gente aprende que é certo nunca mais será errado. O mundo já fez da gente vivo muito antes da gente viver. Dá saudade de comer só por comer.

O que irrita é que o mundo que faz as pessoas vivas antes delas nascerem é uma merda quase sempre. Alimenta sonhos mundanos, só do mundo, e de ninguém que dali pra frente nele vai viver. Ninguém. Refiro-me àqueles depois de mim, depois de você, depois de nós.

O mais difícil para uma criança que nem Mel, nessa coisa de comer, é que ela nasceu bastante comilona em um mundo onde tem muitas coisas coloridas, cheirosas, mas que doíam dentro do corpo. Ela sentia fome mais vezes do que o mundo humano estava pronto para saciá-la. No mundo ideal de Mel, haveria seis refeições por dia. Ou seja, entre cada refeição – café da manhã, almoço e janta – haveria outras sem nome. O que Mel, definitivamente, sabia sem precisar ter aprendido, é comer.

Já tinha comido flor, grama, cortiça, guache, pasta de dente... Coisas que entraram e saíram sem deixar nada e sem doer.

Helena cuidava de educar o apetite voraz da sua filha. Um dia lembrou-se, que quando bem pequenina, Helena, passeando na rua, viu um mendigo com fome pedindo dinheiro pra comer. Na sua inocência, de noite foi comer uma moeda, mas quando a mordeu seu dente de leite caiu. Aprendeu que dinheiro não se come, que o dente só cresce de novo mais uma vez, e mais tarde, que quem não tem dinheiro não come, e o mais importante: que isso é normal.