
A samambaia está seca nas pontas feito palha, e verde bem perto da raiz. É por isso que não a corto nunca, sempre não sei saber ao certo se ela morre ou vive, ou se faz os dois, confusa. E esse drama é tão menor quando passa da porta de casa que esqueço rápido o suficiente pra não lembrar. Quem me deu a samambaia foi minha mãe, que numa vez chegou em casa quando raramente me visita e disse que aquilo não era casa que se prezasse, e que não era possível que eu não tinha aprendido como se viver bem por todos os anos que eu fiquei debaixo da sua saia. Eu nem me defendi, talvez ela tivesse razão, eu era tão mimado que só poderia depreender de todos os anos infantes e juvenis que se eu esperasse o tempo suficiente algo intercederia por mim, e faria que meu desejo acontecesse. Algo como uma onipotência passiva eu incorporei. Minha mãe disse que eu também estava descuidado comigo mesmo, a barba por fazer e a roupa sem passar, disse que eu precisava de alguém que cuidasse de mim, e que enquanto não fizesse isso que conversasse com a samambaia, as plantas ouvem, ela dizia, são boas ouvintes porque o fazem em silêncio.
No começo eu era irônico, e quando passava pela porta e via aquela planta içada numa viga do metro cúbico de entrada do meu apartamento eu achava um contraste descarado com o resto da casa, mas era bonita, era familiar. Eu entrava e dizia oi, e ria de mim. Enjoei dessa piada quando eu comecei a vê-la, via a samambaia começando a secar, quando até começou a haver pequenas folhas amareladas estarem caídas por sobre o piso. E, de algum modo, aquela planta idiota me recheava de culpa, de culpa de não tê-la regado, não tê-la cortado as folhas desnecessárias para que melhores e mais boas nascessem no lugar. Eu sempre esquecia dela. Era só uma coisa que eu me lembrava quando via. É dificílimo explicar do que se tratava, mas não incomum. Eu já havia sentido isso antes na vida, de ter algo que é meu e que está sempre lá, mas não toco, não lembro, mas, de repente aparece, e se faz tão presente como se nunca tivesse mesmo sumido. A samambaia é algo que eu ignoro e que pareço fazer questão de ignorá-la.
Fazia questão. Não faço mais. Uma vez eu paguei uma moça, que cuidasse do meu apartamento, pois tava de um jeito que não dava mais pra sobreviver. Pedi a moça, com toda a sinceridade, que eu sairia agora pela manhã, e voltaria só no outro dia, e ficaria felicíssimo se a mulher deixasse a casa pelo menos habitável. Não tinha nenhuma recomendação para ela sobre minhas coisas, pois minhas coisas não tinham lugar definido, salvo os móveis mais pesados e olhe lá. A única coisa que recomendei é que eu era dê um extremo desapego, e tudo que a moça visse que achasse que não era mais de uso, levasse pro lixo sem dó. Exceto, com certeza, exceto a minha samambaia, que pra mostrar pra moça que tinha agrado pela planta falei que a chamava de Janaína, e que nutria amor e desenrolava conversas com aquele vegetal caladão. A moça só acenava que sim com a cabeça e disse ao fim que, podia deixar com ela Doutô Romualdo.
Esqueci da moça, esqueci de casa e da samambaia. Voltei no dia seguinte pela manhã e havia um bilhete na porta. Dizia que a Janaína havia caído e se desmantelada toda, mas que tinha recuperado como podia, que pedia todas as desculpas do mundo e, por isso, não aceitou metade do pagamento, deixando o dinheiro em cima do criado. Senti um vazio estranho sobre a Janaína, que na hora nem liguei que a moça tenha rejeitado o dinheiro que era seu por tão pouco erro. Procurei a minha chave afoito, assustado e meu coração disparou um pouco. Sentia que eu não estava lúcido. Eu pensava na Janaína como se tivesse conversado com ela muito nos últimos tempos. Quando abri a porta eu vi a Janaína toda despedaçada, ainda içada na viga, com o vaso partido e as suas raízes desviadas da terra. Ela estava morta e eu me senti sozinho, me senti vazio, com um rombo em que havia um grito dizendo Janaína e fazendo um eco infinito.

