terça-feira, 22 de novembro de 2011

Samambaia


A samambaia está seca nas pontas feito palha, e verde bem perto da raiz. É por isso que não a corto nunca, sempre não sei saber ao certo se ela morre ou vive, ou se faz os dois, confusa. E esse drama é tão menor quando passa da porta de casa que esqueço rápido o suficiente pra não lembrar. Quem me deu a samambaia foi minha mãe, que numa vez chegou em casa quando raramente me visita e disse que aquilo não era casa que se prezasse, e que não era possível que eu não tinha aprendido como se viver bem por todos os anos que eu fiquei debaixo da sua saia. Eu nem me defendi, talvez ela tivesse razão, eu era tão mimado que só poderia depreender de todos os anos infantes e juvenis que se eu esperasse o tempo suficiente algo intercederia por mim, e faria que meu desejo acontecesse. Algo como uma onipotência passiva eu incorporei. Minha mãe disse que eu também estava descuidado comigo mesmo, a barba por fazer e a roupa sem passar, disse que eu precisava de alguém que cuidasse de mim, e que enquanto não fizesse isso que conversasse com a samambaia, as plantas ouvem, ela dizia, são boas ouvintes porque o fazem em silêncio.

No começo eu era irônico, e quando passava pela porta e via aquela planta içada numa viga do metro cúbico de entrada do meu apartamento eu achava um contraste descarado com o resto da casa, mas era bonita, era familiar. Eu entrava e dizia oi, e ria de mim. Enjoei dessa piada quando eu comecei a vê-la, via a samambaia começando a secar, quando até começou a haver pequenas folhas amareladas estarem caídas por sobre o piso. E, de algum modo, aquela planta idiota me recheava de culpa, de culpa de não tê-la regado, não tê-la cortado as folhas desnecessárias para que melhores e mais boas nascessem no lugar. Eu sempre esquecia dela. Era só uma coisa que eu me lembrava quando via. É dificílimo explicar do que se tratava, mas não incomum. Eu já havia sentido isso antes na vida, de ter algo que é meu e que está sempre lá, mas não toco, não lembro, mas, de repente aparece, e se faz tão presente como se nunca tivesse mesmo sumido. A samambaia é algo que eu ignoro e que pareço fazer questão de ignorá-la.

Fazia questão. Não faço mais. Uma vez eu paguei uma moça, que cuidasse do meu apartamento, pois tava de um jeito que não dava mais pra sobreviver. Pedi a moça, com toda a sinceridade, que eu sairia agora pela manhã, e voltaria só no outro dia, e ficaria felicíssimo se a mulher deixasse a casa pelo menos habitável. Não tinha nenhuma recomendação para ela sobre minhas coisas, pois minhas coisas não tinham lugar definido, salvo os móveis mais pesados e olhe lá. A única coisa que recomendei é que eu era dê um extremo desapego, e tudo que a moça visse que achasse que não era mais de uso, levasse pro lixo sem dó. Exceto, com certeza, exceto a minha samambaia, que pra mostrar pra moça que tinha agrado pela planta falei que a chamava de Janaína, e que nutria amor e desenrolava conversas com aquele vegetal caladão. A moça só acenava que sim com a cabeça e disse ao fim que, podia deixar com ela Doutô Romualdo.

Esqueci da moça, esqueci de casa e da samambaia. Voltei no dia seguinte pela manhã e havia um bilhete na porta. Dizia que a Janaína havia caído e se desmantelada toda, mas que tinha recuperado como podia, que pedia todas as desculpas do mundo e, por isso, não aceitou metade do pagamento, deixando o dinheiro em cima do criado. Senti um vazio estranho sobre a Janaína, que na hora nem liguei que a moça tenha rejeitado o dinheiro que era seu por tão pouco erro. Procurei a minha chave afoito, assustado e meu coração disparou um pouco. Sentia que eu não estava lúcido. Eu pensava na Janaína como se tivesse conversado com ela muito nos últimos tempos. Quando abri a porta eu vi a Janaína toda despedaçada, ainda içada na viga, com o vaso partido e as suas raízes desviadas da terra. Ela estava morta e eu me senti sozinho, me senti vazio, com um rombo em que havia um grito dizendo Janaína e fazendo um eco infinito.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Zum-zum

Zulmira levantou meio atrasada, e foi até a cozinha arrastando o pé no piso. Estava lá já Irineu, folheando o jornal do dia e sem olhar para ela disse que o café estava pronto. A mulher arredou um pouco a cadeira de fio de palha e se sentou folgada no lado oposto da mesa, ainda desgrudando as pálpebras, fazendo emergir seus olhos. Serviu uma xícara de café e meiou o pão pra depois pôr a geléia de amora, olhava longe no azulejo amarelo da cozinha, fazia até parecer que o azulejo era mais interessante que Irineu, olhava e não via. Em realidade o que via era o sonho que teve na noite se remontar, mas estava ainda uma lembrança insegura, fragmentada e sem nome. Veio uma mosca zumbindo no ouvido da Zulmira que comia quietinha o pão com manteiga. O inseto fez escorregar o sonho como água e sabão em uma aquarela. O sonho foi esmorecendo até que sumiu de vez. Largou o pão de súpeto, e sacudiu a mão perto da orelha, perderá o sonho e queria afastar a mosca. Irineu a olhou e franziu a sobrancelha, como que se indagasse a mulher sobre por que se mexia tão bruscamente tão cedo e tão inesperadamente. Zulmira respondeu ao silêncio franzido de Irineu, disse que havia espantado uma mosca. O homem retratou a sobrancelha como se agora fingisse que não acabasse de ter indagado algo, e como não se importava da mosca, do zumbido, ou com qualquer incômodo que Zulmira pudesse ter sentido ou, de repente, vir a sentir.

Zulmira dedicou-se de volta ao seu desjejum, e começou a organizar as coisas do dia, empilhar na cabeça as mesmas caixas de sempre, ficou aturdida disso, querendo jogar tudo pro alto. A mosca zumbiu mais uma vez e ia voando como se fizesse o símbolo do infinito pela aquela cozinha curta. Até que como se tivesse tido um ataque do coração, caiu no meio do trajeto, dentro da xícara de Irineu. O zumbido sumiu e Zulmira ria contida. Ria contida e engasgou com o pão, e começou a tossir sufocada. Irineu tirou o jornal de sua frente e a fitou, mais uma vez daquele jeito, franzido e como se indagasse o que é que acontecia agora. Zulmira tossia, ficava com o rosto vermelho, e mesmo assim ria ainda, do pouco ar que lhe restava fazia graça, fazia comédia da vida.

Irineu levantou e deu nela um tapa rude nas costas, fez arder e fez parar a tosse, e fez também parar o riso, por aquele instante. Depois se sentou e no caminho curto de volta a cadeira em que estava disse que Zulmira devia aprender a comer devagar, e a se concentrar no que come ao invés de ficar parecendo um zumbi. Zulmira engoliu o pedaço de casca seca do pão de trigo que havia ficado entalado na garganta e não queria mais estar na mesa, mas tinha de esperar. Tinha de esperar ver Irineu beber a mosca. Ficou absorta na xícara de Irineu, que quando a pegou pela mão olhou para Zulmira e perguntou por que é que ela não cuidava do próprio café. Zulmira riu contida de novo, mas dessa vez não segurou e nem engasgou. Foi rindo, cada vez mais, tinha aquilo que se chama uma crise de riso desenfreada, ria da própria risada e fazia Irineu pensar que ela enlouquecia. Irineu balançou a cabeça como se desprezasse o riso e foi tomar sua xícara de café. Zulmira ria tanto, mas ao invés de um riso sádico era um riso indecente, inocente. E Irineu viu tamborilar o indicador de Zulmira na direção de sua xícara, como se apontasse algo ali, e também viu os olhos da mulher fitar-lhe a boca. Desconfiado olhou em seu café uma mosca boiando.

Você sabia, disse o Irineu. E achou engraçado, continuou dizendo. Você é mesmo uma mulher asquerosa, foram suas últimas palavras. E essas últimas secaram o riso de Zulmira. O coração dela foi ficando pesaroso e ardente, fez arrepiarem os pêlos de seus braços, uma tristeza sem fim, uma tristeza sem cura. Irineu dobrou o jornal, tomou o café num gole só, mas tomou do café da xícara de Zulmira. Irineu saiu da cozinha, e saiu de casa sem dar até logo. Zulmira ficou meio opaca, com cara de tacho. O coração fazia um nó, torcia, e de uma vez fez sobrar lágrimas nos olhos. Chorava como uma criança, aos berros e aos soluços. Sem solução. Fitou a mosca boiando na xícara de café e a tomou.