quinta-feira, 7 de abril de 2011

Pressa em Pitadas


Na rua tinha uma moça, ou melhor, já tinha deixado de ser moça, não em corpo e idade, mas em roupas, era a Dona. Precipitada que só ela, que de moça era Dona por sua premência na vida, como era com tudo o mais que tinha de cuidar, a vida lhe era urgente, alarmante. Eu nunca fui chegado assim de conversar de tudo, nem de fazer visita para tomar um café, mas sempre a cumprimentava quando nos cruzávamos na rua. Como aqueles vícios sociais que carregamos e não nos desprendemos, distribuía sorrisos e acenos a ela sem ter uma história tão longa que realmente justificasse a nossa cordialidade. Nossa história era curta, e urgente. Numa ocasião passada eu fui ter um assunto com o Marco enquanto eu comprava cigarros na sua banca de jornal, e a Dona-moça apareceu e acabamos nós três, eu a Dona-moça e o Márcio, jogando um papo fora de nem mais que dez minutos. Nós três entre aspas! Eu e o Marco papeamos sobre o feriado que estava por vir dali a um mês, naquele ano fomos quase que inteiramente privados de feriados por acaso de muitos deles caírem aos sábados e domingos, e foi mesmo por tal razão que a expectativa sobre o feriado que viria dali trinta dias era tão forte e assunto nosso. Contei que não tinha planos, que meus planos para o feriado eram mesmo não ter planos. O Marco riu-se um pouco disso e até suspirou ao tentar imaginar o que era mesmo acordar e não ter planos já desenhados na rotina que nos escreve em caneta escura nos dias brancos. A Dona-moça, que seguia quieta, quando silenciamos cortou a quietude contando uma lista de coisas que já tinha pensado para o feriado. Que se fosse sol já tinha um chalezinho com a porta na areia. Que se fosse chuva já tinha comprado alguns jogos e sugerido aos amigos. Que se fosse só frio e seco que ia fazer uma caminhada no parque e já tinha comprado uns livros e filmes. E não lembro mais o que, até porque não sei que mais tipo de clima se há de possível. Depois desse monólogo obsessivo a Dona-moça, olhou rispidamente pro seu relógio de pulso e disse que tinha de ir correndo fazer suas coisas. Nem pude comentar uma fagulha da metralhadora de urgência de lazer para o feriado e a Dona-moça já dobrava a próxima esquina. Fiquei meio estupefato, olhando pro Marco como se concordássemos que a mulher era meio pinel.

Depois desse encontro eu passei a ver mais a Dona-moça passar pela rua, num passo apertado, sempre numa roupa nova. Corria pra lá e pra cá, e sempre se resfolegando de pressa. Era tanta urgência que fazia sentir-me até um vagabundo, como se me sobrasse tempo demais para nada. Não sei se por curiosidade, ou só pra saber se eu era mesmo vagabundo, mas fiquei acumulando uma vontade de parar a Dona-moça um pouco, queria saber mais dela, e qual eram essas tarefas urgentemente inacabáveis. Daí que quando a vi num dia desses, depois do episódio da banca de jornal, que lhe acenei “oi Dona-moça, para onde vai?”, ela não parou o passo e acenou dizendo “oi, vou lá!”. Numa outra vez eu tentei “oi Dona-moça, está bem?”, e ela disse “oi, estou!”. Bom, a maioria das pessoas já teria entendido que o recado é que ela não tinha tempo pra parar e esclarecer melhor pra onde ia e quais as razões que tinha para estar bem, e obviamente parariam de acenar. Só que eu, besta ou esperançoso, tentei uma terceira “oi Dona-moça, será que não podemos conversar um dia desses?”, ela parou os passos dessa vez. Olhou ríspida para o relógio e para mim meio sem-graça, meio que tentando triar o que ela pensava e o que ia de fato dizer-me e disse “oi... Um dia!”. Besta ou esperançoso acenava e sorria pra ela ao longo de um ou dois anos, como se esse “um dia” fosse mesmo chegar. Besta.

Um dia nunca mais a vi. Talvez ela tenha mudado de rota, ou eu tenha só desistido de reparar nela. Esses vícios sociais são mesmo esquisitos. Carrego uma relação de dois anos de acenos e cumprimentos, um poço raso de impressões sobre a Dona-moça, alguém que nunca soube quem é. Lembro-me dela passando. Lembro das minhas conjecturas a respeito do que fazia a Dona-moça, ela me abalava só por ser humana e tão diferente.

Convenho que minha intriga com a Dona-moça não seja tão justificável. Se aquela mulher quer ir e vir na velocidade rápida dela, eu que não tenho nada a ver com aqueles anseios particulares. Só que a Dona-moça me intrigava de um jeito que eu me coçava de curiosidade. Em verdade mesmo, ela me assustava, eu tinha empatia com a velocidade dela e me sentia atropelado por um relógio gigante. Sempre achei, pelo menos depois de passar de uns vinte e poucos anos que o tempo não para mesmo, meus pais não mentiam quando eu achava os dias infinitos. É verdade, não para, mas, acho também, que mesmo carregando essa consignação sobre o tempo, aprendi que eu mesmo devo parar no tempo. Só um pouco, algumas vezes, para que eu possa ser uma coisa inteira que não flui sempre estranha de si mesma, sem parar, sem ser agora, sem presente. Eu acenava tentando parar no tempo, e a Dona-moça ia constante me deixando pra trás, deixando a moça pra trás.

Maizumano


As noites de ano novo nunca me trouxeram um gosto diferente do que as noites de todo ano. Nem é pelo incomodo que as datas como estas me impõe - de ser mais ideal do que aquilo que eu sou costumeiramente - até porque me espremem insistentemente essas exigências do mundo, sempre que eu me ponho a julgamento rua afora. É que eu não encontrei mesmo razões na minha história para que eu pudesse festejar essa noite de um modo mesmo mágico, e olha que eu sei bem que em muitas dessas noites procurei a magia em goles extravagantes de espumantes baratos e outros destilados.

Talvez em toda a minha história os anos nunca tiveram um significado que me fosse útil para contá-los. Sabe? Como se ouve dizer por aí, que 1996 foi um ano de ouro, quando tudo deu certo e seria bom se as próximas décadas repetissem 1996 ao menos mais umas 3 vezes. Eu não tive nunca a vontade de contar com saudosismo sobre um ano todo, esse intervalo de tempo me parece um pouco grande demais. Eu consigo mais falar dos dias, meio sem situá-los num contexto temporal mais abrangente, meio sem eu mesmo saber do que era feita a minha rotina quando um dia bom aconteceu, meio sem organizar esses dias nos que foram antes ou depois, só sabendo que foram dias que eu dignei serem memoráveis.

Estranhamente foi memorável uma noite dessas, de ano novo. E se falo em ano aqui, é pura e simplesmente porque esse dia era um dia de ano novo. Não sei bem qual ano era atropelado pelo que se seguia, sei que naquela noite estava eu numa idade que ficava cada vez mais adulta e me sussurrava que os dias agora passavam mais rápido do que na infância. Tive mesmo uma infância longa, e não só pelos dias longos pelo aglomerado de surpresas e novidades da qual se rega a infância até que ela contenha experiências suficientes para deixar de sê-la, mas porque eu me recusei a crescer rápido demais. Lembro que nessa noite, uma porção razoável de horas antes da grande festa, eu foliava um poeta da pedagogia libertária, que eu não conhecia mais do que vi naquelas paginas que eu virava. Era Alguma-coisa Freire, e ele contava a sua história, de como tinha aprendido sobre as coisas através da forma como o mundo lhe massageava seus próprios sentidos, suas aprendizagens tinham uma conotação um tanto romântica. Parecia que por ter crescido no campo, com o pé na grama verde, rodeado de seres que agem o tempo todo pelo instinto, acabou sendo mais puro, sendo mais livre, sendo mais humano.

De camisa branca e champagne na mão eu observava aos fogos de artifício brancos da meia-noite, formavam clarões de luz deixando a noite contraditória, finalmente um ano novo arrepiou-me os pêlos do antebraço e me deu aquela sensação de que tantos falavam ser mágica. Eu nasci e cresci urbano. A grama verde que eu pisei chegava em lotes de um ou dois metros quadrados como tapetes, como se a natureza fosse um quebra-cabeça feito pelas mãos do homem. Meu pedaço de infância era circunscrito por um muro de tijolos vermelhos que delimitavam a propriedade do meu condomínio, e o lugar mais alto que subi não tinha nada a ver com uma árvore de um pomar colorido e frutífero, era uma escada cinzenta e repetitiva que escoava pessoas de vinte e dois andares. É curioso, mas mesmo nascido e crescido urbano, ao pensar nas folhas daquele poeta da pedagogia eu tinha me dado conta que os humanos são feitos da mesma coisa em cenários diferentes. São feitos de curiosidade, movidos desse ímpeto inato de conhecer e transformar ao redor em seu próprio favor, fadados a se deslumbrar com o mundo que nos é oferecido como um cotidiano não escolhido, mas que nos toca e o sentimos imediatamente. Paridos, feitos de luz, sujeitos desenfreados aprendendo em ritmos particulares e por vias diversas a se guiarem nesse tempo estreito. Alguns anos já passaram, e naquele dia, eu desejei no ano novo, ser mais humano.