
Na rua tinha uma moça, ou melhor, já tinha deixado de ser moça, não em corpo e idade, mas em roupas, era a Dona. Precipitada que só ela, que de moça era Dona por sua premência na vida, como era com tudo o mais que tinha de cuidar, a vida lhe era urgente, alarmante. Eu nunca fui chegado assim de conversar de tudo, nem de fazer visita para tomar um café, mas sempre a cumprimentava quando nos cruzávamos na rua. Como aqueles vícios sociais que carregamos e não nos desprendemos, distribuía sorrisos e acenos a ela sem ter uma história tão longa que realmente justificasse a nossa cordialidade. Nossa história era curta, e urgente. Numa ocasião passada eu fui ter um assunto com o Marco enquanto eu comprava cigarros na sua banca de jornal, e a Dona-moça apareceu e acabamos nós três, eu a Dona-moça e o Márcio, jogando um papo fora de nem mais que dez minutos. Nós três entre aspas! Eu e o Marco papeamos sobre o feriado que estava por vir dali a um mês, naquele ano fomos quase que inteiramente privados de feriados por acaso de muitos deles caírem aos sábados e domingos, e foi mesmo por tal razão que a expectativa sobre o feriado que viria dali trinta dias era tão forte e assunto nosso. Contei que não tinha planos, que meus planos para o feriado eram mesmo não ter planos. O Marco riu-se um pouco disso e até suspirou ao tentar imaginar o que era mesmo acordar e não ter planos já desenhados na rotina que nos escreve em caneta escura nos dias brancos. A Dona-moça, que seguia quieta, quando silenciamos cortou a quietude contando uma lista de coisas que já tinha pensado para o feriado. Que se fosse sol já tinha um chalezinho com a porta na areia. Que se fosse chuva já tinha comprado alguns jogos e sugerido aos amigos. Que se fosse só frio e seco que ia fazer uma caminhada no parque e já tinha comprado uns livros e filmes. E não lembro mais o que, até porque não sei que mais tipo de clima se há de possível. Depois desse monólogo obsessivo a Dona-moça, olhou rispidamente pro seu relógio de pulso e disse que tinha de ir correndo fazer suas coisas. Nem pude comentar uma fagulha da metralhadora de urgência de lazer para o feriado e a Dona-moça já dobrava a próxima esquina. Fiquei meio estupefato, olhando pro Marco como se concordássemos que a mulher era meio pinel.
Depois desse encontro eu passei a ver mais a Dona-moça passar pela rua, num passo apertado, sempre numa roupa nova. Corria pra lá e pra cá, e sempre se resfolegando de pressa. Era tanta urgência que fazia sentir-me até um vagabundo, como se me sobrasse tempo demais para nada. Não sei se por curiosidade, ou só pra saber se eu era mesmo vagabundo, mas fiquei acumulando uma vontade de parar a Dona-moça um pouco, queria saber mais dela, e qual eram essas tarefas urgentemente inacabáveis. Daí que quando a vi num dia desses, depois do episódio da banca de jornal, que lhe acenei “oi Dona-moça, para onde vai?”, ela não parou o passo e acenou dizendo “oi, vou lá!”. Numa outra vez eu tentei “oi Dona-moça, está bem?”, e ela disse “oi, estou!”. Bom, a maioria das pessoas já teria entendido que o recado é que ela não tinha tempo pra parar e esclarecer melhor pra onde ia e quais as razões que tinha para estar bem, e obviamente parariam de acenar. Só que eu, besta ou esperançoso, tentei uma terceira “oi Dona-moça, será que não podemos conversar um dia desses?”, ela parou os passos dessa vez. Olhou ríspida para o relógio e para mim meio sem-graça, meio que tentando triar o que ela pensava e o que ia de fato dizer-me e disse “oi... Um dia!”. Besta ou esperançoso acenava e sorria pra ela ao longo de um ou dois anos, como se esse “um dia” fosse mesmo chegar. Besta.
Um dia nunca mais a vi. Talvez ela tenha mudado de rota, ou eu tenha só desistido de reparar nela. Esses vícios sociais são mesmo esquisitos. Carrego uma relação de dois anos de acenos e cumprimentos, um poço raso de impressões sobre a Dona-moça, alguém que nunca soube quem é. Lembro-me dela passando. Lembro das minhas conjecturas a respeito do que fazia a Dona-moça, ela me abalava só por ser humana e tão diferente.
Convenho que minha intriga com a Dona-moça não seja tão justificável. Se aquela mulher quer ir e vir na velocidade rápida dela, eu que não tenho nada a ver com aqueles anseios particulares. Só que a Dona-moça me intrigava de um jeito que eu me coçava de curiosidade. Em verdade mesmo, ela me assustava, eu tinha empatia com a velocidade dela e me sentia atropelado por um relógio gigante. Sempre achei, pelo menos depois de passar de uns vinte e poucos anos que o tempo não para mesmo, meus pais não mentiam quando eu achava os dias infinitos. É verdade, não para, mas, acho também, que mesmo carregando essa consignação sobre o tempo, aprendi que eu mesmo devo parar no tempo. Só um pouco, algumas vezes, para que eu possa ser uma coisa inteira que não flui sempre estranha de si mesma, sem parar, sem ser agora, sem presente. Eu acenava tentando parar no tempo, e a Dona-moça ia constante me deixando pra trás, deixando a moça pra trás.

