Resolvi pegar um texto que comecei e não pude terminar. Não pude por falta de tato, não de tempo. Quando se para pra escrever sobre algo nem é sempre sobre algo que se possa dar um fim. A ideia pode se interromper no fluxo, coagular as extremidades, e não consegue mais crescer. Só que tudo que não termina anseia de algum modo por terminar, e vai empurrando mesmo que não se saiba pra onde ir. É disso que se tratar crescer, numa pluralidade de sentidos, é preciso fermento. Eu vim aqui resgatar o fluxo, e deixar que ele corra, vim ficar imerso naquele texto passado pra fazer fermentar.
Esse texto eu havia começado desse modo:
Sobre uma garota de vinte e dois anos, que aparentava ter pelo menos uns sete anos a menos. Quinze anos e frequentemente vai tocar sozinha em bares, é o que se pensava quando ela chegava. Era mirrada, franzina, chamava Nara. Na primeira impressão era uma moleca com um violão nas costas que era quase de seu tamanho, e um amplificador ao seu lado sempre trazido por alguém que prestasse ajuda. É isso que Nara pedia, nunca em vão, que só era necessário que alguém lhe carregasse o amplificador, e de todo o resto ela cuidaria no tom da sua voz, nos dedos resvalados nas cordas de um violão folk bem largo que lhe cobria quase todo o tronco.
Não poderia abnegar-se dos olhares e do que eles carregavam. Todo o lugar que fosse era quase unânime, que os convivas do bar, do café, de onde quer que fosse, eram tomados de curiosidade de como seria ouvir uma moça tão nova, que sai de casa pra virar a meia-noite sozinha. E nesse embaraço habitual ela organizava um espaço no canto no qual pudesse logo se apresentar, não tinha consigo nem um holder que pudesse lhe dar o amparo. Ia empurrando cadeiras, uma a uma, quando numa vez ou outra algum garçom ou conviva do bar ficava a disposição para alguns favores mais pesados. Nara era honesta consigo mesma sobre aquela atmosfera, e não era incomum que pessoas pouco indiscretas que travassem uma primeira conversa lhe pedissem logo, que só por curiosidade, ela contasse quantos anos tem. Logo que um sujeito indiscreto lhe perguntava isso, o tal ficava tomado por um constrangimento de não saber bem o que dizer quando Nara dizia: vinte e dois anos. Porque na verdade essa pergunta era pra ser retórica. A pergunta já ensaiava uma posterior constatação afirmativa, que impressionante que tão nova já estivesse tornando-se música. Só que quando se descobria que vinte e dois anos não eram surpreendente, o que mais se poderia dizer?
Nesse ponto Nara tinha uma parcela de constrangimento também, chegava a pensar que cruel eram as pessoas sobre a sua forma, e que já lhe atribuíam tantas coisas antes mesmo de conhecê-la mais profundamente. Tanto preconceito que fazemos, tanto, ela pensava. De outro jeito curtia um pouco deixar esses indiscretos perplexos, talvez ela tivesse, na sua magrelice, feito que eles fossem mais cuidadosos sobre o que pensam antes de conhecer.
Antes de tudo ia ao banheiro e levava consigo com um estojo discreto de maquiagem. Parada na frente do espelho se olhava, se conhecia de novo. Pegava quase sempre um batom vermelho com pouco brilho e passava sobre os lábios pequenos. Levantava os cílios, e retocava a pele que era tão pouco imperfeita. Olhava pra si um tempo, só até poder dizer pra si mesma que era bonita, e que estava na hora do show começar.
E até aqui eu pude falar sobre Nara no texto que eu havia começado algum tempo atrás. De repente eu me perdi dela, e fiquei nessa extremidade, no meio do caminho, meio em débito de dar-lhe um fim. Daí que resolvo pegar esse texto sem fermento, e quando leio a Nara renasce. Toma corpo, mesmo que seja um corpo fino. Uma moça morena, magrela e franzina, que teve desde sempre de superar aquilo o que era dito sobre ela quase inevitavelmente em toda primeira impressão. Passado um tempo crescendo sem crescer ela pode entender que ela era aquilo mesmo na carne, na fisionomia. Não poderia esticar seus ossos. E mesmo que engrandecesse os músculos não poderia de modo algum esconder a inocência de um olhar que não envelhecia no tempo, era perpétuo infantil e pidão. Senti a Nara pulsar na minha imaginação feito um contrassenso, e quase como ela mesma faria por si mesma eu descobri a sua superação. Eu descobri o fermento de Nara que já estava tão claro.
Num dia desses, como era a maioria deles, ela estava lá, içando no punho fino uma banqueta que deixava seus pés pairando no ar há uns quarenta centímetros do piso. Ajeitava também o microfone, e logo depois foi tilintar as seis cordas do violão, verificar até que ponto estavam afinadas. Havia esquecido seu repertório, e isso a fez ficar levemente ansiosa. Mesmo tendo já costume de certa lista de músicas, e soubesse até variar de acordo com a resposta da plateia, era bom tê-lo ali anotado, só como um recurso se tudo o mais não estivesse dando certo, se esquecesse de tudo por acaso. Enfim, não podia fazer mais nada, enquanto tilintava as cordas já havia atraído atenção de alguns, e eles a olhavam fixamente, aguardando o que poderia sair daquela criança, daquela mulher. O bar estava particularmente cheio.
Um pouco escondida atrás daquele violão de caixa tão grande os olhares já não a faziam mais estremecer. Sentia só uma ponta de ansiedade antes de soltar a voz e os braços, ficava levemente inquieta. A dúvida que carregava nessa inquietude é se quando tivesse o aval de começar a tocar os preconceitos diluiriam.
O garçom, quando ouviu tilintar as cordas afinando foi até perto de Nara. Piscou para ela e fez um sinal com as mãos, como questionando se já era hora dela começar. Ela acenou com a cabeça e os braços, dizendo que sim, que por ela já poderia ser o tempo. O garçom foi até as caixas de som daquele bar, desligar o som ambiente, e ficou silêncio. Nem todos os convivas do bar perceberam, pois riam, trocavam ideias e se refestelavam em comida e bebida boa. Pra Nara o silêncio era barulho nessa hora e clamava que fosse logo preenchido.
Sem nenhuma inocência ela ajeitou o violão no corpo, e molhou o microfone de vermelho com aquele batom ainda um pouco úmido. Encarou alguns olhares de frente devolvendo um olhar travesso enquanto puxou o canto da boca, num sorriso bem sutilmente sensual. E falou numa voz grave que transformava seu corpo, boa noite a todos. Antes mesmo que pudessem responder cerrou os olhos de leve, quase sem encostar os cílios e dedilhou a introdução da primeira música. Começou a cantar. Cantava afinado, grave e comovente. Espirrava no ar do ambiente um grito redentor que dizia firme que Nara cresceu, era mulher. Ela conseguiu, mais uma vez, como tem conseguido desde que entrou nessa vida, afinar num só tom o que ela é com o que o mundo diz sobre ela. Depois que o som começa a idade não era mais e nem menos importante, a Nara era uma coisa só, só toda música.

