Cerveja regada a amigos, ou
vice-versa. É assim que nos é apresentado esses momentos de triunfos triviais,
de comemorações impopulares, de recompensar o que não é novidade, não é digno
de fama ou distinção. Somos quatro ou mais, sedentos trabalhadores, de afazeres
comuns que nunca mudaram o mundo, e nunca mudarão. Longe disso, são tarefas
reprodutivas, muito mais pra refazer os dias, a mantê-los em certa ordem, do
que visá-los diferentes. É só isso, um bar, várias garrafas, uma porção de
quitutes, quatro companheiros... E suas histórias sendo compartilhadas, não
interessam a muita mais gente por serem demasiadamente comuns.
Um brinde para cada garrafa
aberta: a quê? Os copos se estalam uns contra os outros, numa força de punho
sob medida para que não trinquem, para que só se encostem e façam um barulho que
nos provoca a ensaiar uma palavra. Qual? Vaza dos nossos beiços todo o tipo de
ternuras. Mulheres, dinheiro, felicidade... Já estou com certo enfado desses
desejos, já cresci o suficiente pra sabê-los metas provisórias, as quais nunca
se conquistam de fato e totalmente. Idealistas! Como num susto a que mais me
comove é um apelo do meu grande companheiro Eduardo, disse assim:
- Que nunca percamos isto aqui!
Ah, isso sim é um brinde. Não
poderia ser dito de outra forma, e eu repito fidedignamente o que o Eduardo
disse, sempre com esse jeito poético que ele carrega de ler a vida. Reafirmo a
tese dele, é a minha máxima e mais real possibilidade de brinde. Tomo uma
golada longa de uma boa e gelada cerveja nacional. No fim nos entreolhamos e eu
não sei se todos que bateram os copos contra o meu e alargaram aqueles sorrisos
foram tomados do mesmo jeito diante do fato. Não sei nem mesmo se o Eduardo
sabia sobre o que acabava de dizer. Que
nunca percamos isto aqui era tudo o que eu precisava brindar. Esse momento
de tomar algumas com meus amigos tem algo de precioso e vital. Por causa do ar
necessariamente patético a que nos submetemos nesses rituais, de nos
acreditarmos merecedores conjuntamente, pra sair da rotina, pra ir contra a lei
hegemônica da realidade e enfatizar prazeres infantis aos falar palavrões, desejar
tantas coisas, rir de tudo. Realçarmos, nesses encontros, um narcisismo
embotado pela necessidade de nos submetermos a nossos patrões, a esconder
nossos culhões em troca de salários razoáveis. Ali éramos quatro homens, donos
do próprio destino, tagarelando verdades incontornáveis. Éramos livres, se é
que se pode dizer dessa forma.
Quando quis levantar pra fumar um
cigarro convidei Eduardo, já estávamos bastante altos com a quantidade de
cerveja, e logo que levantamos demo-nos conta de nossas tonturas. Fomos quase
aos tropeços em direção a uma grande janela que dava vista pra uma avenida
cheia de mesas nas calçadas, de pessoas num falatório geral, rindo, batendo nas
mesas, flertando e exibindo carrões. Eu e o Eduardo fomos içando-nos mutuamente
pelos ombros, dando tapas e apertões um nas costas do outro.
- Ah, Eduardo... Você é um grande
companheiro – e eu dei logo um grande abraço, dizendo que nunca deixaria de
sê-lo, pedindo que olhasse e me ouvisse, que eu estaria pra sempre a seu
dispor, que nada mais era tão importante quanto isto, a nossa parceria. Que eu
trairia a tudo e a todos, quando necessário, menos ele. Ele só concordava de um
modo paternal, e sempre poético. Dizia coisas como: “não poderia ser de outra
maneira meu velho” ou ainda “você não me dá escolha para não sermos pra sempre
companheiros”. Não fazíamos tais declarações sempre, que não fosse nessas ocasiões.
Quando nos soltamos, na beira da
guia, acendemos os nossos cigarros numa tragada longa e ficamos quietos a
soprar fumaça, olhando a rua, o céu, uma moça que passava de vestido curto. Até
fiquei sem assunto. Tudo estava bem, não havia pessimismo, minhas queixas
dissolviam-se. Não sei bem que era esse conforto que me tomava. Era felicidade
talvez, mas sem motivo. Era um lugar que permitia minha ignorância em relação à
vida, concedida simplesmente por estar ali entre nós quatro. Eu me munia
de forças para tocar adiante.






