quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Servejando


Cerveja regada a amigos, ou vice-versa. É assim que nos é apresentado esses momentos de triunfos triviais, de comemorações impopulares, de recompensar o que não é novidade, não é digno de fama ou distinção. Somos quatro ou mais, sedentos trabalhadores, de afazeres comuns que nunca mudaram o mundo, e nunca mudarão. Longe disso, são tarefas reprodutivas, muito mais pra refazer os dias, a mantê-los em certa ordem, do que visá-los diferentes. É só isso, um bar, várias garrafas, uma porção de quitutes, quatro companheiros... E suas histórias sendo compartilhadas, não interessam a muita mais gente por serem demasiadamente comuns. 

Um brinde para cada garrafa aberta: a quê? Os copos se estalam uns contra os outros, numa força de punho sob medida para que não trinquem, para que só se encostem e façam um barulho que nos provoca a ensaiar uma palavra. Qual? Vaza dos nossos beiços todo o tipo de ternuras. Mulheres, dinheiro, felicidade... Já estou com certo enfado desses desejos, já cresci o suficiente pra sabê-los metas provisórias, as quais nunca se conquistam de fato e totalmente. Idealistas! Como num susto a que mais me comove é um apelo do meu grande companheiro Eduardo, disse assim:

- Que nunca percamos isto aqui!

Ah, isso sim é um brinde. Não poderia ser dito de outra forma, e eu repito fidedignamente o que o Eduardo disse, sempre com esse jeito poético que ele carrega de ler a vida. Reafirmo a tese dele, é a minha máxima e mais real possibilidade de brinde. Tomo uma golada longa de uma boa e gelada cerveja nacional. No fim nos entreolhamos e eu não sei se todos que bateram os copos contra o meu e alargaram aqueles sorrisos foram tomados do mesmo jeito diante do fato. Não sei nem mesmo se o Eduardo sabia sobre o que acabava de dizer. Que nunca percamos isto aqui era tudo o que eu precisava brindar. Esse momento de tomar algumas com meus amigos tem algo de precioso e vital. Por causa do ar necessariamente patético a que nos submetemos nesses rituais, de nos acreditarmos merecedores conjuntamente, pra sair da rotina, pra ir contra a lei hegemônica da realidade e enfatizar prazeres infantis aos falar palavrões, desejar tantas coisas, rir de tudo. Realçarmos, nesses encontros, um narcisismo embotado pela necessidade de nos submetermos a nossos patrões, a esconder nossos culhões em troca de salários razoáveis. Ali éramos quatro homens, donos do próprio destino, tagarelando verdades incontornáveis. Éramos livres, se é que se pode dizer dessa forma.

Quando quis levantar pra fumar um cigarro convidei Eduardo, já estávamos bastante altos com a quantidade de cerveja, e logo que levantamos demo-nos conta de nossas tonturas. Fomos quase aos tropeços em direção a uma grande janela que dava vista pra uma avenida cheia de mesas nas calçadas, de pessoas num falatório geral, rindo, batendo nas mesas, flertando e exibindo carrões. Eu e o Eduardo fomos içando-nos mutuamente pelos ombros, dando tapas e apertões um nas costas do outro. 

- Ah, Eduardo... Você é um grande companheiro – e eu dei logo um grande abraço, dizendo que nunca deixaria de sê-lo, pedindo que olhasse e me ouvisse, que eu estaria pra sempre a seu dispor, que nada mais era tão importante quanto isto, a nossa parceria. Que eu trairia a tudo e a todos, quando necessário, menos ele. Ele só concordava de um modo paternal, e sempre poético. Dizia coisas como: “não poderia ser de outra maneira meu velho” ou ainda “você não me dá escolha para não sermos pra sempre companheiros”. Não fazíamos tais declarações sempre, que não fosse nessas ocasiões.

Quando nos soltamos, na beira da guia, acendemos os nossos cigarros numa tragada longa e ficamos quietos a soprar fumaça, olhando a rua, o céu, uma moça que passava de vestido curto. Até fiquei sem assunto. Tudo estava bem, não havia pessimismo, minhas queixas dissolviam-se. Não sei bem que era esse conforto que me tomava. Era felicidade talvez, mas sem motivo. Era um lugar que permitia minha ignorância em relação à vida, concedida simplesmente por estar ali entre nós quatro. Eu me munia de forças para tocar adiante.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Abelarda


As janelas fascinam Abelarda, quaisquer delas. Quero dizer: quadradas, retangulares, redondas, dos altos dos edifícios ou no nível quase do chão. Sejam grandes, enormes ou mesmo as pequenas. Aquelas que de pé em frente começam desde as canelas e vão acima da cabeça, e até mesmo as pequenas fraturas de ambientes privativos. 

São, ela pensa, fotografias vivas, na medida em que são estáticas pelo enquadramento a que estão fadadas, não se pode ver lá fora de outro ângulo quando fica debruçada no parapeito. E ao mesmo tempo essas aberturas diversificam na sua própria medida, porque sempre renovam a imagem, as pessoas indo e vindo com suas pernas, um carro passando, um céu nublado ou azul, um vento frio ou quente e, não raro em terras da garoa, um ligeiro cheiro de chuva.

Já faz muito tempo que Abelarda para diante delas, das janelas. Seja só pra uma visita rápida, uma constatação cotidiana, noutras vezes um mergulho profundo e persistente na vista, desdobrando pensamentos voláteis, quase oníricos. Alguém já disse a ela, que fica muito a ver a vida passar. E fica, de fato. Nem que seja por esses momentos, vivendo uma fantasia de observadora, vendo o mundo tocar, o circo pegar fogo, sem compromisso nenhum com tudo isso que está lá fora. Fica de olho no que sobrou entre as paredes que a circundam, esse vazio que é recheado pelo que se apresenta a cada instante e fortuitamente, sempre lá pra onde as janelas ora se arreganham, ora se fecham.

Mas há um algo mais, para além dessa passividade particular abelardiana. É um fascínio, as olha como se fossem quadros de uma mostra contemporânea, de arte pura, sem a mediação do artista. As janelas se pintam sozinhas e refletem não mais do que presenciam, não algo a mais a não ser aquilo que se mostra atravessado nelas. Estão destinadas a esse ofício, aparentemente tedioso, de estarem mirando um mesmo lugar, aparentemente repetitivo, mas a todo instante deslumbram novidade, nem que seja ínfima, que seja uma nuvem sorrateira a sair do lugar deslizando.

- Ê Abelarda – grita o moço conhecido da rua, chamado Aurélio – esta aí a ver o dia passar?

- ...quê nada – num sorriso insosso desperta do transe de seu prazer bobo de olhar pela janela. Olha o moço rindo, provocativo. Não se importa tanto com o que ele disse, mas com o fato de ter dito. Aquele lugar de repouso dela, contemplativo, dentro de casa com o olho na rua, não é tão ausente do mundo, é também o olho da rua pra dentro de casa. A janela troca, e se é um quadro é de dois lados, e num deles a vida que se pinta é a dela própria, Abelarda. Teria o nome de quadro: moça morena parada na janela do sobrado. Não seria óleo sobre tela, seria carne sobre terra, e o artista que a pintou ninguém sabe bem o nome e nem muito precisamente o que quis dizer. É melhor sair dali, pensa.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Laura


Debruçada na sacada, Laura entediada no segundo andar do sobrado. Não tem o que fazer no dia, não tem desejo, e daí só o que resta é contemplar. E com o tempo de tanto olhar pra tudo sem querer ver nada passa uma moça de fita amarela no cabelo. Faz uma cara de nojo, como quem diz que brega é aquilo, não se usam fitas desse jeito desde mil novecentos e sei-lá-o-quê. É fácil, embora não tenha percebido, ficar a criticar o mundo pela janela, a ver a vida passar. É uma rainha no castelo, a designar os modos de ser dos dias de hoje. Começou isso nesse caso da fita amarela, e foi daí pra diante olhando a bunda da moça cheia de furos marcados na calça colada, a freira suando com a bíblia na mão e vestida com aquela roupa, devia estar um forno. Passa noutro instante um rapaz jovem, sarado, e trocam uma olhadela. Para esse moço não há reprovação, até que se encontra num beijo estalado com a namorada no ponto, uma menina horrível, ela pensa, teve certeza que ele a olhou com segunda intenção.

- Aahh – Laura suspira – que sábado morno...

Que vai fazer agora? Não sabe, é dia todo pela frente e nenhum compromisso. Solidão caseira, entediada dos livros de sempre. Ligar pros amigos, nem pensar. Será mais uma sessão daqueles mesmos programas, aquelas mesmas conversas. O mundo está tão sempre a mesma coisa, como se Laura estivesse a frente de tudo, de todos, do tempo. Quem sabe se ganhasse mais, com mais recursos, poderia buscar algo interessante. Mas tudo custa caro demais pro seu bolso, e os prazeres que pode comprar parecem agora paliativos. Entra em casa, toma um copo de água em goles curtos, sentada no sofá, com os ombros projetados pra frente, fica lerda, lesa. Acaba a água, se lembra da mãe que não a deixava apoiar os copos na mesa de centro. Agora que pode apoiar, que a mesa é sua, não o faz. Vai até a cozinha passar uma água e deixar escorrendo no escorredor. 

No caminho, arrastando o pé, um estrondo. Laura grita um palavrão. Topou o dedinho no batente da porta. Ah, dor maior que essa é difícil dizer, só do parto ou uma boa bolada no meio do nariz, na fuça. Puta que o pariu, e senta no chão segurando os dedos. A dor fica latejando: dói-não-dói, dói. Fica massageando, dá uma lacrimejada e pensa se quebrou. Queria que não, mas a dor permanece, um leve inchaço vai tomando corpo e quando tenta empurrar o dedinho um pouco pra fora a articulação denuncia que a topada provavelmente teve consequências adversas.

Que dia, que sábado morno e mais essa. Esperou o fim de semana chegar e não sabe o que fazer com ele, e o fim de semana que fez algo com ela. Algo ruim, diga-se de passagem. 

- Foi aquela idiota de fita amarela – afirma sem nenhum compromisso lógico da inferência, só é preciso culpar alguém.

Levanta e vai quase numa perna só voltar para o sofá, receosa de encostar o dedo em qualquer lugar. Levanta o pé e o apoia na mesa de centro, a dor ainda lateja. Empenhada vai caçar alguns livros e empilha-os na mesma mesa e coloca a única almofada que tem no topo. Com o pé pra cima é melhor, não dói. Vai ligar a TV e lembra que esqueceu o controle na cozinha.

- Aaah – Laura solta algo parecido com um ganido de raiva.

Mais uma vez se levanta, bem cautelosa, e saltita quase num pé só, apoiando o pé do dedo machucado só pela ponta dos calcanhares. Olha bem pros batentes da porta para não se acidentar de novo. Que belo sábado, pensa. Pega o controle, vai pro sofá, liga a TV, é horário político. É foda não ter TV a cabo. Os livros já lidos seguram seu pé, a geladeira não tem nada de muito interessante. E o telefone não toca. Mas tudo bem, Laura tem alguns filmes que nunca viu. Só precisa se levantar de novo, ir com cuidado até a pequena estante do quarto, escolher alguns. O difícil é escolher: comédia, drama, terror, aventura? Terror não, sozinha é complicado. Será que tem alguma comédia que a possa fazer rir? Pouco provável, ela desiste logo que vê os títulos e imagina as piadas de sempre. Aventuras massantes, rápidas demais, cheias de cenas e jogos de câmera. Não. Já sabe. É melhor um drama, são meio depressivos, mas tendem a ser mais inteligentes, tal como Laura.

Com um filme de drama na mão, sobre a história de uma adolescente de vida difícil e que encontrou uma saída a Laura caminha manca, a ler o resto da sinopse. Distraída agora, esqueceu que é sábado, esqueceu que fitas amarelas são bregas, esta compadecida sobre a história da protagonista, parece que é baseado em fatos reais, fica absorta lendo a sinopse. Péssimo momento. Ela podia ter esperado um pouco mais. Quase chegando ao sofá, prestes a se sentar topa o dedo de novo, na quina da mesa.

- Aaaah, que merda – Laura berra, encolhe-se no sofá a segurar os joelhos quase contra a barriga e chora, chora e chora, feito um bebê.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Amador


Fui dormir com uma angústia de fim do fim de semana, as coisas não vão tão bem, mas antes que eu pudesse vangloriar-me de pensamentos tão depressivos tudo foi assumindo um gosto hilário de chocolate amargo, e eu fui soltando um risinho desconcertado da vida, miúdo, entre eu e meu travesseiro. Pouco sonoro, mas era um risinho: içava as ancas dos meus lábios, davam rubor e calor nas articulações da face, e crescia exponencialmente. Fiquei vomitando ironia em forma de riso, e me surpreendi tal como a fantasia ilustre do palhaço alegre, que naquela boca vermelha estirada e largamente sorridente nunca se esquece de fazer uma gota fosca pequenina a representar uma lágrima titubeante, contraditória. Eu gargalhava, de repente, alto e bom som, e intercalava soluços com olhos marejados. Corri até o espelho. No que levantei de uma vez o corpo bastante cadenciado deu uma disritmia no coração, uma falta de fôlego e uma leve esbranquiçada na vista com a queda da pressão. Corri até o espelho, porque estava confuso, e talvez se eu me visse de fora eu poderia desmistificar a incongruência dos meus sentimentos. Refletido eu me indaguei e constatei que era de bom grado sofrer, reclamar da vida. Não era histérico o que eu sentia, nem sem fundamentos, a tristeza naquela época tinha uma razão óbvia de existir, e eu poderia justificar meus sentimentos para qualquer um, e até para mim. Mesmo assim, era saboroso sofrer. É tão preciso tropeçar nos percalços, bater o queixo no chão e ralar os cotovelos se reerguendo. A dor tem um tom edificante, ou pelo menos deve ser esse o sentido que a embutimos. De outro modo, se não tomamos a dor como nossa, pela qual nos afirmamos responsáveis, ficamos alienados na fatalidade realista de que a dor tem que ser dor e só, puramente destrutiva.  Enquanto pra nós a dor deve compelir a ser curada, reconstrutiva. É mais que preciso se dar mal, pode ser precioso, reconheçamos. 

Comecei a dedicar essa atenção mais exclusiva a dor, tristeza, fracasso, palavras tão rudes de se dizer pra si. Não mais as tratei como algo que se impunha a mim, o qual eu queria me livrar o mais rápido que pudesse, por qualquer remédio. Eram minhas e tão ou mais valiosas que bem feitorias antes vivenciadas. Passei a usufruir esses abscessos torturantes como alicerces, e como coordenadas pra delimitar melhor por onde é que devo andar; como devo me mover, e que riscos estou disposto a suportar. Eu aprendi um pouco de cautela, um pouco de coragem, um misto dessas parafernálias emocionais tão importantes na superação de adversidades. Eu aprendi o quanto eu posso ir, quando eu posso ir. 

Por um momento foi ingênuo, teria eu encontrado a fórmula de não sentir mais desprazer? Foi um momento ingênuo. Nua e crua verdade que não há jeito complexo ou trivial de aniquilar a dor. Num movimento contrário fui de encontro a ela com maior frequência, e não nego que cheguei a sentir tristeza com maior frequência, e a vê-la onde antes passava despercebida. Valeu a pena. Foi nesse contato intimista com minhas lamúrias que eu pude construir coisas maravilhosas, e a porção de felicidade que pude encontrar variou diretamente proporcional ao tamanho da disposição que eu tinha de olhar praquilo que dói em mim.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Pelo Menos

Pelos, pra que tê-los? E, também, por que não tê-los? É desdobrando esse enigma que Heloísa se dirige à depilação. Uma casa rosada no centro, recheada de uma arquitetura feminina e sensível, com quadros que figuram curvas sinuosas em pernas. Seria tudo harmônico, e quase enganoso, se não fosse o quadro de preços, que logo na entrada, por detrás do balcão, alarma. Hostilizando aquele ambiente sereno: “virilha (inclui ânus) – R$ 25,00/anal lateral – R$ 15,00”. É de causar estranhamento a toda mulher, até aquelas cada vez mais acostumadas, além de fazê-las lembrar da intimidade a qual se submeterão, seminuas em posições libidinosas e vulneráveis, nas quais uma outra mulher, mascarada até os olhos, lhes dedicam certo sadismo. 

E, depois de confirmado com a balconista que a depiladora tem disponibilidade de horário, ainda resta uma latência tediosa na sala de espera. Uma saleta de uns 10 m², com sofás no entorno e uma mesa de centro com um vaso de flores feito de vidro artesanal, nessa semana contém uma dúzia de tulipas amarelas, aquelas flores que parecem nunca abrir-se o tanto que poderiam. E mais umas 3 dezenas de revistas espalhadas sobre a mesa, algumas esquecidas por cima do sofá. Figuram nas capas só revistas de beleza feminina ou fofoca televisiva. Sim, figuram nas capas mulheres aos montes, em poses sensuais, sempre, sem nenhuma exceção, sempre depiladas. Desde os pequenos cílios que crescem por sobre os dedos dos pés e retirados à pinça, até as coxas, os braços e o buço, para as mais peludas. E, seguindo esse ritmo, não resta dúvida de que as partes íntimas estão sujeitas ao mesmo trato.

E não bastasse esse tom subliminar de que para ser mulher das boas tem de sofrer um bocado, a coisa fica ainda mais explícita e atestada nas conversas que deambulam entre as clientes durante a espera, interrompidas por estalidos de puxões de fitas enceradas, quentes ou frias, que a sala cirúrgica da depilação só é separada por um biombo fino com flores que o ilustram, em que os sons atravessam e remetem a clientela a todo o tipo de imaginação sobre o que ocorre lá dentro. Sobretudo quando a cliente é novíssima na coisa e não consegue evitar soltar alguns ruídos de dor.

Nesse dia Heloísa estava ainda absorta no enigma sobre valer mesmo a pena fazer aquilo. Ela sabe que não agradaria nem a si mesma e nem ao namorado ter pelos extrapolando os limites da roupa intima, e ainda pegaria mal na aula de natação. Na sala de espera estavam três mulheres, com idades variadas, uma centrada na revista, enquanto as outras duas folheavam rapidamente, apegadas apenas nas imagens, e volta e meia soltavam um comentário sem direção, que esperava topar no ouvido de alguma das clientes para degringolar meia conversa.

Heloísa ia selecionando alguma revista, e ao mesmo tempo sendo tomada de um sentimento imprevisto. Havia certa atmosfera de competição, como se nos rabos de olho as mulheres ali presentes se comparassem, medissem uma a outra, avaliavam as roupas que estavam usando e deixavam um lapso de pensamento as invadir: quem seria mais bonita do que eu? As capas de revista quase sempre eram as mais bonitas, mas com dinheiro e foto digitalizadas e tratadas de modo refinado... Bem... Aí qualquer uma delas poderia ser a mais bonita. Mesmo que usando um vestido do brechó ao invés daqueles estilizados, feitos como peça única e extravagante.
E soavam os gemidos por trás do biombo, os estalidos de puxões da fita encerada, os comentários triviais e as trocas de olhares disfarçados. Até que um dos comentários vingou, virou polêmica e debate. A moça mais de idade disse que o melhor é tirar tudo mesmo, que é bem mais higiênico, fica tudo limpinho. A outra mais jovem disse que embora ficasse mais limpo o marido não gostava, chegava a dizer que ela ficava parecendo criança, e aquilo era assustador. Riram disso. Heloísa falou que era complicado ser mulher, que gostava de estar depilada, mas odiava depilar-se. Foi um desabafo, que de algum modo tocou-as todas.

Como se não bastasse, de repente adentra um homem a sala, o silêncio se instaura, aquele corpo quadrado parece descabido naquele contexto sinuoso. Os tempos são outros mesmo. Uma das moças vai ao banheiro, e todas as outras permanecem curiosas sobre o que é afinal que este homem tinha vindo fazer. E, também, como seria para a Sandra, a depiladora que arrancava os pelos da clientela, se deparar com um homem. De que partes ele tiraria os pelos? Ficaria nu? Em que pose? Seria bom, Heloísa pensava, se todos os homens fossem compelidos a tal empreendimento mensal, doloroso, aparentemente humilhante, em prol da estética anti-natureza. Seria bom se eles soubessem.

A hora chegou. Heloísa atravessou o biombo. Toda a clientela que aguardava e se renovava a todo instante não deixou de medir os seus simétricos e firmes quadris, enquanto atravessa a saleta. Após o biombo estava Sandra, mascarada, que não era tão carinhosa embora tomasse todo o cuidado. Algumas vezes dizia para Heloísa que agora ia machucá-la um pouco, num tom de malícia e de aviso, ao mesmo tempo. 

O pior passou, os pelos foram todos arrancados. A partir daquele instante haveria mais uns 30 ou 40 dias sem preocupar-se disso. Heloísa pagou o preço, que a seu ver era bem justo, pois nunca assumiria tal posto de trabalho como Sandra, que mais parecia uma capataz dos pelos humanos. Quando foi pra rua estava feliz, sentia-se mais bonita em baixo das roupas, mais segura e mais mulher, e até um pouco punk subversiva com o moicano que ansiava mostrar para o namorado.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Com vivência


Toquem os violinos cortantes, que hoje é dia de sentir saudade. É hora de sentar à mesa com os amigos, relembrar a infância pra fazer o balanço: o que é que temos hoje e o que deixamos pra trás, o que nos foi tirado, roubado, o que insistimos e o que desistimos. E se... Alguns ameaçam dizer descontentes e arrependidos. Outros convictos repugnam tal atitude, não trocariam nem um minuto que fosse, estão no lugar em que queriam estar. Para os arrependidos as suas memórias são fatos irremediáveis, e a história mais parece um porão abandonado aonde coisas tão boas parecem sombrias, machucam. Já os convictos tem no passado uma causa explicada, e o destino parecer ter sido sempre grato e nos conformes. 

Ambos estão ligeiramente cegos ao se opor. É inevitável que para todos, para as coisas tal como aconteceram, existem suas razões. Estas razões, que por si só resignam o estado atual das coisas. Há sempre uma explicação pra hoje se escavarmos os sonhos e as lembranças que teimam submergir. Somos todos sujeitos do tempo implacável, mas enquanto alguns se satisfazem no remédio que o acaso os trouxe, outros anseiam atordoados os fatos irremediáveis. Estão todos no mesmo barco. No fundo convicções e arrependimentos são feitos do mesmo substrato, naturalmente idênticos. 

Aos poucos, sentados à mesa, rememorando tanto os fatos, causando suspiros longínquos uns nos outros, vamos todos nos dando conta, desta verdade irrevogável sobre as convicções e os arrependimentos. Se num primeiro momento houve oposição era, de um lado, a inveja dos arrependidos que não podem sequer ter algum regozijo em sua própria história, e, do outro, o orgulho dos convictos inabaláveis, que não poderiam lesar os alicerces confortáveis nos quais repousam. Esses ânimos aos poucos se atenuam, a inveja em sua miséria e o orgulho em sua ambição, se vão amainando, ficando com cara de exagerados, até que se tornem risíveis. Até que falar do passado, embrenhar-se na memória, se trata de contar-nos um pouco uns aos outros e de nos fazer conhecidos para nós mesmos.

É surpreendente que o nosso passado possa beirar o infinito, que seja possível recriá-lo em cada novo instante presente. E quando os violinos cortantes cessam, e retomamos a vida, estamos agora mais cheios de experiências do que antes, estamos até mais cheios de nós mesmos do que de tantas trivialidades diárias, as quais nunca se tornam dignas de lembrança. É precioso fazer esse exercício de nos sentarmos à mesa para relembrar, para cruzar nossas histórias, nos encontrarmos em lugares que não estivemos juntos e reconstruí-los.

Com tato


Preciso de contato. Um desespero me acomete que não consigo ludibriar nas friezas cotidianas: a televisão, os livros, o computador ou ficar vendo o dia passar na janela, não bastam, não estão lá. Preciso de contato vivo, mútuo e recíproco e talvez infindo, sem parar. Ou já não mais é possível quem chegue perto um do outro?

Sinto saudade disso. E me permito falar até da Soledade, com todo o constrangimento burguês que isso me dá, pois não nego sentir que talvez ela nunca tivesse me dado esse contato humano se não fosse socialmente marginalizada. Lavou tanto a louça lá em casa e noutras casas também, que a palma da mão quase se desfez, e ainda assim eu tinha um cafuné nessa lisura em que ela tecia narrativas longas e musicais de histórias sofridas, de luta. Eu a escutava como a voz da experiência e, embora sentisse orgulho da força e coragem de Soledade, que mesmo em meio a tanta dificuldade engajava sempre um sorriso, ao mesmo tempo aquelas histórias me causavam certo horror e eu temia ser pobre. 

Havia uma complacência entre nós naquela época. Tinha eu sido tão filho único, minha mãe sanava sim tudo o que era minha necessidade material e afetiva, só que pra isso também passava 5 longos dias úteis e integrais fora de casa. Meu pai 6. Soledade estava lá quase o tempo todo, e, talvez, dos meus 4 até os 7 anos, quando fui entrar na escola, ela tenha sido o meu maior contato, uma segunda mãe.

Contava que havia entre nós uma complacência. Não havia hierarquias entre eu e Soledade. Pois mesmo que funcionária da casa, legalmente contratada pela minha mãe, não me prestava serviços. Pelo menos não era assim que a minha necessidade a ela se impunha. Eu era pacato, pouco falante, e se não fosse ela em suas longas histórias, nas quais adormecia eu no meio do caminho, talvez não teria em mim se inscrito tantas palavras. E talvez, do ponto de vista dela, fosse paliativo me ter de platéia, que na minha impossibilidade de discordar de qualquer de suas afirmações a dor dela se tornava sempre verdade. Irremediável, mas verdade.

É isso que hoje dou falta, desse contato. De estar cúmplice com outro de que existimos juntos e separados. Desse lugar de troca honesta. Pude revivê-los também com namoradas que nem lembro mais porque é que rompemos. Também meus amigos que foram embrenhando-se em vidas cada vez mais privadas. Inúmeros foram esses encontros, que hoje são só lembranças.

Estou sozinho hoje. E fico olhando a porta. Torcendo quase alucinado que ela fosse arrombada por uma avalanche de todas essas pessoas. Ou que pelo menos me surpreendesse um toque de campainha, um toc-toc de leve na porta. A solidão é tão miserável que até uma ligação que fosse engano a curaria por um instante, me dando um espasmo de contato.