terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Pérolambulando


Era moça tímida e não tem jeito, por natureza de sua vergonha antecipada, sem jeito. Sem jeito de ser, porque não há jeito que queira experimentar, já que ser de qualquer jeito que for pode ser arriscado demais. O azar do tímido é um fato que o conhecimento popular, aquele que vasa nas conversas cotidianas, sabe melhor que ninguém, que o tímido no seu esforço explícito em não ser visto é mais visto que o filme em cartaz.

Eu não conheci bem essa moça, mas me lembro dela do casamento de uma amiga rica minha. Ocasião ideal para um lugar cheio de gente que não se conhece, unidos por um objetivo comum: aproveitar a fartura dos comes e bebes e, quem sabe, pegar o buquê e conhecer um amor prometido ali mesmo. Essa moça estava com um vestido azul marinho, e sobre o decote tomara-que-caia uma jóia de pérolas pendurada no pescoço fino. Isso me marcou, porque a moça não soltava o colar. Ficava manipulando as pérolas com as pontas dos seus longos dedos, como se rezasse um terço em romaria. De tanto fazer isso, a pele de seu colo ficou com um vergão vermelho.

Fui a esse casamento não porque eu era chegado dos noivos, e para falar a verdade eu nem sabia quem era o cara que disse “sim”. Só que por obra do destino reencontrei essa amiga, a noiva, duas semanas antes do casório. Eu não a via já fazia uns dezessete anos. Nós éramos bons amigos no ginásio, mas nada que ultrapassasse os muros da escola, embora, uma vez ou outra, tivéssemos dados uns amassos nesse mesmo muro. O fato foi que ela me reencontrou e me convidou.

Na cerimônia do casamento tinha tanta gente que fiquei imaginando que ela me convidou só porque estava com mania de ser rica. Queria um casamento daqueles que ficam na lembrança de muita gente, queria mostrar que alguém como ela era digna de uma audiência gigantesca que testemunhasse o amor ali concretizado. Mas eu estava parcialmente errado, de fato ela era uma rica exibida e não casaria em igreja sem afrescos, mas ela me convidou também por outros motivos. Quando a vi caminhando sobre o corredor central daquela igreja eu percebi. Ela própria, que naquele evento era o símbolo da pureza e da verdade do amor monogâmico ocidental, carregava naquele decote voluptuoso o antagonismo do amor idealizado. Se a direção dos seus passos não a levasse para o altar eu diria que ela andava na direção de uma boate, pronta para o crime. Andava como se desfilasse numa passarela, e seus passos eram tão incertos que queriam voltar pra trás. Num dado momento ela me olhou de longe. Sorria para sair bem nas fotos, mas eu vi, naquela fração de segundo, um olhar de desespero, de que agora ela seria de um só homem. Havia ali um conflito ambulante de um desejo histérico de ser desejada por todos e o medo de não ser desejada por ninguém. O conflito se concretizava ali, sob aqueles afrescos ao som dos violinos, num homem escolhido dentre vários, que eu não sei quem é e disse “sim”.

Eu estava ali, só somando mais um no grande aglutinado de gente desconhecida que refletia o conflito daquela mulher de branco e seios fartos querendo sair do decote, e de fato teriam de sair, porque o casamento não bastaria e um ou mais filhos rapidamente se seguiriam para que, quem sabe agora, o desejo de ser desejada fosse bastado.

O meu valor numérico ficou claro na hora da festa posterior a cerimônia, meu nome estava sob uma mesa, com umas oito pessoas, todas desconhecidas entre si. Éramos o grupo dos sem grupo. Lembro que regados a uísque cheguei a comentar com o rapaz que estava ao meu lado que nós éramos os sem-família, a piada não foi boa, mas naquela circunstância nos rendeu assunto e risadas por uns trinta minutos, além da minha descoberta curiosa de que alguns de nós éramos “sócios” porque já tínhamos dado uns amassos na noiva, claro, antes da noiva ser mesmo noiva.

Naquela mesa hipócrita eu me esbaldei dos comes e bebes. Não queria ser interesseiro, mas acho que era o mínimo que eu podia receber por contracenar como um convidado feliz, testemunhando o amor eterno. Não havia melhor lugar aonde eu poderia estar. Foi lá que eu reparei na moça envergonhada que orava incessante no seu colar de pérolas. Ela ficou quieta e sorria sem mostrar os dentes o tempo todo. No começo todo mundo queria entrosá-la de algum modo, mas ela era infalível na sua arte de reprimir-se.

Ela me fez pensar tanto. Fiquei observando seus trejeitos e vendo como mesmo quando seus olhos queriam dizer algo o seu corpo se contraia assustado. Era um medo irracional como um monstro que tentava dominá-la e mesmo que ela quisesse nunca poderia vencê-lo. A sua única arma era seu copo de uísque que ela não conseguiu findar, a cada gole a bebida descia seca, e ela torcia o nariz e apertava o colar de pérola, com a mão inteira. Raramente ela ficava calma e começava a se soltar, e se conseguia durava só até que alguém lhe solicitasse algo.

Foi curioso imaginar o que a levara ali, se ela era como um de nós, uma desconhecida naquela multidão e ao mesmo tempo tão tímida, porque haveria de se arriscar num evento social desse calão? Suponho que de alguma forma ela precisava manter-se viva em sua vida enclausurada. Imaginei que a história da vida dela era feita de fatos dissociados da experiência que teve. Depois dessa festa as amigas lhe perguntariam o que andava fazendo e ela diria que foi a um casamento super chique, mesmo que em verdade ela não estivesse lá. Assim ela garantiria que fosse uma pessoa normal, como um ateu, filho de uma beata, freqüentador assíduo da missa de domingo.

Eu a chamei para dançar comigo, para ver se ela soltava um pouco daquele colar. A moça ficou besta de surpresa, mas cedeu, como se negar fosse pior ainda frente ao meu convite ousado. No começo, como era de se esperar, ela estava dura e destoava de um jeito brega daquela música agitada demais. Só que como num bailinho de filme americano a música mudou para uma valsinha lenta, nós nos encostamos e ela foi aos poucos relaxando, ela dançava brilhantemente, eu nunca me senti tão bem acompanhado. Notei que ela seguia os passos dançantes de olhos fechados.

Quando a música acabou, nós nos afastamos um pouco, eu fiquei tão surpreso e extasiado pelo privilégio de poder vê-la viva que num ato impulsivo e repentino eu a aplaudi afoitamente. Os estranhos da mesa dos sem-família também não puderam evitar. Um fotógrafo atento passou e não perdeu a chance, embora não soubesse o motivo do alarde. Nós, integrantes da mesa dos estranhos, nos abraçamos e fomos tirar uma foto juntos. Foi a única foto que fiz questão de dar um jeito de guardar desse dia.

Hoje eu peguei essa foto e me lembrei de tudo isso. Quando eu olho para moça de vestido azul, de colar de pérolas, eu sinto algo inexplicável. Na foto ela aparece mostrando quase todos os dentes, os braços abertos engolindo os amigos que só se viram uma vez na vida, unidos por obra dos desejos histéricos de uma noiva fadada a ser meio feliz. Os olhos da moça de vestido azul lacrimejando em alegria. Consigo acreditar que as coisas podem sempre mudar, completamente.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Mal enquadrado


- Amor! Quero uma foto nossa aqui!

A lua era de mel. Para Lina era tão bom fotografar o amor. O Tadeu não se importava muito, era pouco fotogênico e escondia essa vergonha sob o pretexto de que ele não precisava de fotografias para se lembrar de momentos bons. Mas como eu disse, a lua era de mel, é praxe cultural e indispensável chegar e mostrar para todo mundo os resquícios fotográficos.

Alguns meses antes do casamento a Lina tinha virado uma atleta, não só para dar conta de arquitetar ponto-a-ponto o casamento dos seus sonhos, mas porque a escolha por uma lua de mel praiana implicava em biquíni. Mais que isso, implicava em biquininho. Havia nela uma força feminina que não se subjugava aos homens em geral. Era diferente só para o seu homem. Por Tadeu essa força se esvaía longe. Lina queria garantir que o seu homem ficasse realmente satisfeito por ter dito o tão esperado sim. Ele nunca insistiu para que ela tivesse esse tipo de cuidado, até porque se assim ele fizesse, teria que dar um jeito naquela pança peluda que era nele quase que inata. Ele mesmo quando chacoteado de gordinho dizia que a coisa era genética.

- Aonde Lina? Aqui não tem nada de especial!

Não tinha nada de especial mesmo. Era uma praia, na qual já tinha tirado várias fotos, e aquele dia nem estava com o céu tão azul assim. Tadeu queria mais era ficar de carinhozinho na areia, estava cansado de ser aquele turista super animado. Só que ele deu o famoso tiro no pé, o sorriso da Lina se desfez.

- Como você é grosso!

Lina achou uma insensibilidade gigantesca. Ela tinha escolhido o melhor e menor biquininho naquele dia. Ficou estupefata pelo insensível Tadeu dizer que não havia nada de especial. Não era possível que ele estivesse olhando só para a paisagem, nas fotos deles dois sempre deveria haver algo de especial, afinal, eles estariam na foto e isso era o elemento mais importante, não a praia, o mar, o pôr-do-sol, um monumento, uma cachoeira, esses lugares típicos para fotos imperdíveis.

- Ah Lina. O que é isso? Eu não disse nada! Só queria saber... – foi cortado bruscamente por Lina.

- Você disse que não tem nada de especial! É a nossa LUA DE MEL Tadeu! – ela disse “lua de mel” bem alto e vagarosamente.

- Não vá ficar chateada por isso vai? Não vai começar a estragar tudo...

- EU? – nessa hora o Tadeu deu uma arregalada no olho e levantou as mãos meio que com medo de ser atacado – Você está dizendo que EU estou estragando? – os “eu” foram bem enfatizados assim como na fala anterior.

Bom, da para imaginar que o resto da conversa não foi das melhores. Tadeu até tentou voltar atrás e pegou a máquina fotográfica, só era tarde demais. Eu não sei quem estava com a razão, acho que os dois. Se Tadeu tinha sido insensível demais, Lina tinha sido incompreensiva demais. Ela saiu afundando a areia como se tivesse o dobro de seu peso normal e pediu em baixo tom, só queria ficar um pouco sozinha.

Uma briguinha dessas é comum nos relacionamentos, mas na lua de mel tem um peso de um elefante com um hipopótamo sentado em cima. As pessoas costumam ter aquela crença impregnada de começar com o pé direito. Parece um dogma dos relacionamentos que se eles não se originarem de uma paixão épica a coisa não tende a fluir para a redenção do feliz para sempre. Pior que nem Lina nem Tadeu tinham ocorrências anteriores de relacionamentos amorosos para dizer se essa crença era falaciosa ou não, mas eles acreditavam nisso.

Ficaram na mesma praia, como crianças birrentas. Por meia hora sentados na areia, estavam uns cinqüenta metros longe um do outro. A Lina ficou pensando que só queria uma foto. Ela se lembrava como era legal quando sua mãe lhe mostrava as fotos da lua de mel. A mãe tinha sido tão bonita em sua juventude, nas fotos havia tantos sorrisos que estavam anunciando uma história enorme, que estavam anunciando a vinda de Lina pra terra. Queria mostrar pros seus futuros filhos como tinha sido bonita, como foi feliz o namoro jovem com o pai. Ela de algum modo esperava que quando os casais estão mais velhos o amor se expressa por vias mais sérias. O Tadeu ficou pensando que ela estava sendo tola demais. Se por uma coisinha assim ela podia fazer caso imagina na batalha que eles teriam de enfrentar juntos nos próximos anos. Só que algo apertava o coração de Tadeu, ele também não era machista com todas as mulheres, mas com a sua ele queria fazer que fosse a mulher mais feliz do mundo, que precisasse de sua compreensão e proteção.

Muitos anos depois, a filha da Lina, já jovem, folheando um álbum amarelado, mas de fotos bem conservadas viu numas páginas seguidas umas fotos curiosas. Eram várias fotos seguidas de Lina jovem. Na primeira Lina estava com a cabeça enfiada nos joelhos. Na segunda estava com um olhar cheio de lágrimas para câmera. Na terceira, de olhos fechados espremendo as lágrimas últimas. Na quarta, uma ruborização nas bochechas e o esboço de um sorriso. Na quinta um sorriso começando a mostrar os dentes. Na sexta uma gargalhada de Lina que de tão forte lhe fechava os olhos. Na sétima o Tadeu colando o nariz no nariz de Lina, eles gargalhavam juntos. Na oitava beijavam-se amassando as bocas, num beijo tosco, mas de tão sincero bonito. Na nona os dois olhando para câmera, rindo e chorando, ao mesmo tempo.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Normalzinha


Marcela tinha um jeito meio na dela. Não que não tivesse amigos e não compartilhasse momentos especiais, só era daquelas pessoas que todo mundo sabe que ninguém vai lembrar depois de cinco anos da formatura. Não era falta de beleza e nem sobra da mesma, era assim, sem gosto, desafortunada de afetar. E também não era só culpa de suas características estéticas, a personalidade dela casava com seu corpo de um modo inseparável. Os seus diálogos nunca passavam das cordialidades culturais. Até quando buscou psicoterapia a sua psicóloga lhe deu alta porque sentiu que não havia nada que pudesse ser tratado. Era isso mesmo, Marcela estava sentada bem em cima dos padrões de normalidade de nossa sociedade normativa, e a contradição de tudo isso é que ninguém se importava com isso como se fosse algo bom, a normalidade dela soava estranha. As pessoas só diziam “sei lá, ela é tão normal” ou “não é possível, alguma coisa estranha ela esconde”.

Tudo o que ela fazia era normal. Lia livros que estavam em voga e assim era também com relação às novelas. Não gostava dos telejornais mais se dedicava a assisti-los com alguma freqüência porque fez jornalismo e sentia-se na obrigação. Trabalhava no editorial de uma revista de culinária sem saber cozinhar muito bem, na maior parte do tempo se virava com comida congelada ou comprada nos deliverys. A edição da revista de culinária não lhe agradava muito, mas pagavam bem se considerarmos que ela vivia sozinha e não gostava de fazer compras supérfluas.

Marcela perdeu seus pais cedo e teve de cuidar bastante de seu irmão que cresceu meio bicho solto, foi virar um mochileiro viajante. Ela adorava receber seus cartões postais, sentia uma pontinha de arrepio da coragem dele, ficava pensando que nunca faria isso, imagina só. A cada mais ou menos um ano e meio o irmão aparecia, trocavam alguns afetos rápidos, de no máximo três dias. Em verdade, o que acontecia eram algumas noites de contação de histórias regada a vinho, Marcela ria, e era um pouco melhor ouvi-lo do que os cartões postais, as histórias lhe faziam imaginar centenas de imagens enquanto os cartões congelavam apenas uma, fixada. O bom também é que o irmão sempre trazia lembranças interessantes que Marcela colecionava em uma prateleira do seu quarto. A despedida dos dois era um ritual que já se repetia nas repetidas ocasiões de visitas esporádicas, o irmão dizia:

- Você devia sair desse buraco e ir comigo mana! – dizia já descrente de que seria uma possibilidade real.

Marcela sorria besta e dizia:

- Não chame de buraco, eu gosto daqui. Mas um dia eu vou mano, sério mesmo!! É que não sei, agora não é a hora.

Os dois diziam se amar, abraçavam-se bem forte e ele ia. E quando ele ia a família de Marcela ia. A solidão não lhe abatia e lhe caia bem natural, para Marcela ser sozinha do jeito que era é coisa própria de ser humano, não no sentido pessimista ou depreciativo disso, a solidão era só solidão e pronto.

Não era a hora de Marcela mesmo ter tanta coragem pra ir perder seu destino com o mano, muito embora ela estivesse meio de saco-cheio do dia-a-dia, só que não conseguia se rebelar. Sem riso, sem choro, prosseguia rotineiramente como uma múmia sem balsamo. Não agradava e nem desagradava.

Na última despedida do irmão algo aconteceu. Depois que o olhou partir risonho, de repente as coisas ficaram melhores. Num impulso inato um sorriso estourou na boca que quase jazia em silêncio por sentir cada dia mais que tinha menos a dizer. Essas alegrias repentinas devem ter seus porquês exatamente explicáveis, só não somos tolos de nos arriscarmos a tentar entendê-los e nos surpreender como pode ser fria a natureza humana em carne e osso, explicada passo a passo e sem ternura.

Foi só isso mesmo, uma alegria mágica e boba de que as coisas não iam tão mal assim. De tão boa beirava uma ansiedade de quanto tempo duraria. Marcela nem se importou com a bagunça do quarto e os seus montes de tarefas sem sentido atrasadas. Agora quem estava atrasada mesmo era a alegria de Marcela e ela pode finalmente reconhecer. Essa sim agora era a sua prioridade. Não foi a primeira vez que essa alegria espontânea e descontextualizada acontecera na moça, era um caso raro. A garota estava fadada a se torturar em seu desejo pelos momentos raros e curti-los esporadicamente, o que lhe conferia uma vida com intervalos longamente morninhos.

Pode ser um conformismo, mas como é bonito ver os momentos raros de Marcela. Ela brilha os olhos, e fica tão segura que poderia de fato dominar o mundo se desse tempo, se não fosse tão raro. Nessa raridade ela tem de escolher uma coisa ou outra que pode ser feita, que não exija muito empenho e que não corra o risco de ser tolhida por um pessimista qualquer que a interrompa.

A escolha de Marcela em seu estado de alegria rara foi ouvir música bem alta no quarto. Dedicou uns bons dez minutos para decidir qual faixa poderia ser escolhida. Hoje em dia, com os computadores, as listas de músicas podem ser gigantescas, com muitos tipos de ritmo e autores variados. Não é como quando era necessário comprar álbuns específicos, eles eram tão caros que as pessoas selecionavam as músicas na hora da aquisição. Marcela era bem desse tempo, acumulava as músicas e só depois as experimentava.

Esse momento de alegria apareceu como tão raro que ela não podia experimentar uma música acumulada que não lhe conferiria sentido, ela precisava ser preciosa na escolha para que pudesse se embriagar de uma música sem margem de erro de ser ruim. As coisas não podiam ficar ruins de novo. Decidiu, ficou um pouco indecisa, mas decidiu. Ficou confirmado quando ligou as caixinhas de som e girou o botão do volume para o máximo. Empurrou sua cadeira para trás e botou a música para tocar.

A introdução da música começava e começavam a fechar os olhos da Marcela. Ela não pode ser ver, mas refletia-se no espelho enorme de seu quarto. Lá estava ela refletida e já marcava o tempo do compasso da música nos balanços da cabeça, que faziam as pontas de seus cabelos deslizarem por sobre o vestido de veraneio em casa. As primeiras palavras da letra da música começaram, e, Marcela, começou as balbuciando para que pudesse entoar junto o canto. Ela estava linda no espelho embora não pudesse ver-se. Azar. Suas pernas começavam a sair ritmadas do chão enquanto balançava os braços bruscamente tocando o seu violão invisível. Só se passaram pensamentos bons na cabeça de Marcela, só pensamentos bons. Não havia do que reclamar. Ela foi se enchendo de alegria, cantando, dançando, esquecendo um pouco de si mesma e se dissolvendo na atmosfera restrita de seu quarto. Ela e seu reflexo no espelho. Se alguém nesse mundo pudesse ser feliz para sempre a música não acabaria nunca.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Impressões


“Você se parece tanto com um amigo meu”. A frase bateu no meio do estomago do Jorge. “Puta que o pariu”, ele pensava falseado em um risinho. Ficou olhando a Manoela se deliciando com a coincidência, mas sabia que aquilo não era nada bom. Logo o Jorge, que estava se empenhando para mostrar para aquela garota o quanto ele era original, de repente ele sabe que parece alguém para ela, só que ele não faz idéia de quem é essa pessoa!

A Manoela não perdeu o fio e continuou, ainda que ele não tivesse dito nada. Ficou falando o quanto ela adorava esse amigo, e quando ela olhava para o Jorge sentia tantas saudades. Nesse bate-papo monológico o Jorge ficou se sentindo só uma carcaça, como se ele só servisse para evocar a nostalgia na Manoela, e por baixo daquele pano de lembranças não tinha mais nada. Nada mesmo, era uma angústia, que ele mesmo nem podia reconhecer-se e sentia-se vazio.

Não dava jeito mesmo, o Jorge esmoreceu. Já fazia meses que ele ia se aproximando bem devagarzinho da Manoela. De um jeito tão devagar que ela nem percebeu as reais intenções. Muita gente que sabia da paixão dele pela Manoela insistia que ele fosse rápido e deixasse de ser lerdo! Só que Jorge não estava sendo lerdo. Na verdade ele sempre foi um franco atirador com mulheres, e quando queria dar uns beijos em alguma não tardava nem um pouco em falar, isso quando não era rápido demais, deixando as garotas falsas beatas super desconcertadas.

A mudança na abordagem amorosa não foi insanidade, é que com a Manoela ele tinha que ter aquela certeza absoluta. Ele estava tão caidinho por ela que mesmo com vinte e poucos anos nas costas se viu fazendo um coraçãozinho na orelha do livro. Quando fez isso pensou “puta que o pariu”, aliviado de ninguém ter visto. Cortou a orelha do livro, e foi jogar o papelzinho fora. Quando foi colocar no lixo ficou com remorso, e só conseguiu jogar fora quando deu um beijo no papel e pediu desculpas. A situação estava realmente no nível do descontrole, e se esse amor de Jorge por Manoela não fosse verdade ele estava então numa das maiores fantasias da sua vida.

Continuavam o passeio, e o papo ainda era “Jorge: a grande analogia do super amigão de Manoela”. Se ela tivesse um pouco de sensibilidade teria sido esperta o suficiente pra sacar o que ele estava sentindo. Jorge chegou até a sentir uma raivinha dela. Como se ela já soubesse tudo o que ele sentia, mas ficasse pisoteando o coração dele, aquele coração que ele vacilou ao jogar fora. Devia ter enfiado no lixo com as duas mãos. Só que pisoteada de amor não dói. E mesmo que sentindo vazio e raivinha, a Manoela foi tirar uma marca de suco que ficou no nariz do Jorge. Ele foi dar uma virada enorme naquele copo bocudo de suco de açaí, queria se afogar ali mesmo, aí ficou a marca no seu nariz. A Manoela, linda do jeito que era, quando sorriu dele e foi limpar o nariz do pobre coitado o fez virar uma criança. Aquela carcaça de lembrança de um amigo da Manoela se encheu de alegria, como se uma migalha de pão alimentasse a fome do mundo inteiro. E não parou por aí, a menina tinha um cheiro doce na mão, e quando aproximou delicadamente a mão do nariz do Jorge ele quase abriu a boca e comeu a mão dela de tão hipnotizado que ficou.

Foi só esse pequeno episódio do suco e o Jorge já esqueceu tudo que achou de ruim nela. Ele realmente estava apaixonado, cego do mundo e vislumbrado só dela, da Manoela. Tinha outras coisas também que o faziam ser vagaroso com a Manoela. Era a primeira vez que ele sentia que sentia algo assim, e já conseguia imaginar ele e ela fazendo de tudo juntos. De tudo mesmo! Além de que nos vinte e poucos anos começa aquele papinho de jovem que tem pressa em ser meia-idade e sai dizendo por aí sem vergonha que já curtiu o tempo de curtir, que agora vai começar a etapa do grande sonho capitalista da vida, namoro sério, casamento, carreira, família, filho, e o depois disso ninguém sabe direito.

Era um fato que ninguém desmentia. O Jorge estava caidão e só a Manoela, ou não sabia ou fingia que não sabia. As más línguas diziam que ela sabia. Que mulher é bicho controlador mesmo, e não perde a oportunidade de domar um homem e ficar tirando proveito. Falavam que tinha certeza que o Jorge pagava um monte de coisa e ela ficava só aproveitando, afinal ela não tinha porque não aceitar. Era um exagero soberano isso, era quase dizer que a Manoela era uma prostituta. Isso dizia as boas línguas. E essas diziam também que a Manoela sabia sim, mas que gostava de homem que se colocava, fosse firme. Provavelmente virou só amiga do Jorge porque ele demorou tanto que ela achou que era isso que era pra eles serem mesmo.

Acho que a Manoela sempre soube e não era santa. Mas não há culpa em seu regozijo. Mas por outro lado também não era a diaba. Não tinha certeza mesmo sobre o que Jorge queria afinal. Já tinha ouvido falar que ele beijou sei lá quem em uma sei lá qual festa depois de ter virado amiga dele. Ela não arriscaria nunca interceder, fora uma das últimas mulheres ainda educada pela sociedade sexista de que os homens é quem dão o conchavo final.

O Jorge, sufocado pelo cheiro ludibriante da mão da Manoela num ato reflexo segurou a mão dela e deu um beijo. Foi uma cena de filme mesmo. A Manoela continuou sorrindo do atrapalhado Jorge com seu suco, mas agora ela sorria do demorado Jorge que tomava então a grande providência. Ela havia esperado tanto que quase desistia mesmo de achar que fosse verdade. O Jorge largou o copo meio cheio ou meio vazio de suco no chão. Ficaram os dois bobos, rindo, sem nada a declarar. As declarações já vinham a meses sendo feitas e veladas naquilo que eles fingiam ser uma amizade qualquer. Ao mesmo tempo se deram um beijo, conchavaram juntos, fecharam afinal um negócio, depois de uma árdua negociação meticulosa no seu melhor tempo.

Foi um primeiro beijo de muitos que se seguiram. Sem saber mais se eram boas ou más, enquanto as línguas do Jorge e da Manoela se enroscavam apaixonadas, as outras línguas só diziam que já sabiam mesmo que uma hora isso ia acontecer, com aquele gostinho de quem sabe prever bem o futuro dos outros, só dos outros.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Magrela

Pedala menina magrela. Sobre sua bicicleta vermelho-amarela. Pedala forte e rápido, e na sua pressa e com sua finura, você passou bem rápido e quase ninguém a viu. Pedala menina magrela, leva sobre essas duas rodas a sua pessoa cheia de compromissos. Pedala e desvia no meio desse monte de gente que não tem nada a ver com isso. Muita gente te viu passar pra lá e pra cá e esqueceu logo depois. Menina magrela é só um sopro que nunca se sabe se está de encontro ou contra o vento.

Só que num dia eu estava sentado, na beira duma guia de um rio de concreto. Estava sem nada por fazer e cansado de tanto usar calçado tinha saído de chinelo, sentei na graminha pra deixar meu pé ver um pouco do sol. E ai eu vi você menina magrela, sem sorriso e sem ternura, e só te reconheci na sua bicicleta vermelho-amarela. Você foi pra lá sem peso, e eu quase não te vi. Você voltou pra cá um tempo depois, e eu quase não te vi de novo. Pedalava naquela bicicleta com para-lamas, com cesto na frente vazio, e uma mochila levando um bom peso nas costas.

Depois de tantas passagens não pude esquecer mais. Não sabia mais ao certo se sua finura e sua pressa desenfreada no seu jeito esguio de desviar do monte de gente era um esforço seu em cegar o mundo de sua magreza. E não devia parar só por aí, não devia ser só em cima da bicicleta. A sua comida no restaurante por quilo era de tão pouca comida quase de graça. Você me chamou a atenção para aquilo que passa, a gente vê, mas não deixa graça.

De que mundo você quer se esconder menina magrela? Qual é afinal o vislumbre que não pode te acolher? Fiquei perguntando mil coisas sem saber responder. E num certo momento, quando me espreguicei e você passava mais uma vez percebi que alguma vez seria a última passagem. A menina magrela precisa descansar suas pernas longas, num colchão bem macio que pra ela nem um pouco afunda. Seus passos são como sob as rodas, não fazem barulho, não trotam. E nessa última vez você levava junto do pequeno corpo uma sacola, cheia de livros que precisariam de muito mais tempo do que parece para serem lidos.

Pedala menina magrela, pela última vez de hoje. Mais um dia de missão cumprida e você conseguiu, escamoteada em seus compromissos mais um monte de gente quase não te viu. Você foi no meio do vento, quase sem cheiro, pra lá e pra cá. E voltou para algum mesmo lugar. No espaço pequeno dentro de você pouco deve caber, um pequeno desejo, um pequeno anseio, um tolo desprazer.

Eu te vi, e não me esforçarei pra não te esquecer. Quando você não passou mais eu me voltei pra mim mesmo, sentado na guia, na margem daquele rio de concreto eu vi uma outra moça na janela. Ela me olhava com a testa frisada e intrigada. Levantei, já estava na hora de ter algo por fazer, fui num passo atrás do outro, no rio de concreto, voltar pro mesmo lugar de todo dia.