
- Cê me faz lembrar que eu estou vivo e existo.
Dito isso desenrolou o lençol atravessado no dorso, e se levantou rápido da cama. No balanço das molas Lizete acordou sem acordar, viu Inácio levantando e embora tivesse o ouvido dizer alguma coisa seria impossível precisar o que era, e seria ainda mais impossível saber se o que ouviu foi sonhado ou era real. E era sempre assim, Inácio tinha virado um despertador natural, e quando a cama balançava essa mulher só acordava subitamente sem deixar de adormecer, acordava só pra se lembrar de que lhe restavam ainda duas horas a mais de sono. Inácio quando saiu do banho fez questão, queria repetir o dito, e escreveu um bilhete num papel que colou no espelho, dizia que “Você me faz lembrar que eu estou vivo e existo”. Colou naquele espelho que sabia que sua mulher sempre se olhava antes de sair, mesmo na pressa ou no atraso, dava uma verificada. Tinha uma vaidade que não chegava a ser exacerbadamente fútil e nem era tão predominante, mas tinha a vaidade que qualquer pessoa, homem ou mulher, precisa ter pra saberem que tem autoestima, mesmo quando a pessoa não tem.
Como era de se esperar, foi na presa que no espelho Lizete viu além de si mesmo um papel recortado, e escrito num garrancho “Você me faz lembrar que eu estou vivo e existo”. Ressabiada sobre isso ficou meio cindida se era aquilo bom ou ruim. Já tinha se felicitado de alguns romantismos simplórios que o seu homem fazia, chamava-a a mais linda de todas e valorizava suas curvas todas, mas quê é que ele podia querer dizer com isso. Essa intriga ela não pode resolver, e não teve o bilhete nela o efeito de um elogio, e nem mesmo foi algo que a repugnou. Ficou algo no abstrato, meio quieto dentro dela. Solto só assim uma vogal aberta, quase sem som, de surpresa e pra ninguém ouvir.
Dobrou o papel, botou dentro da bolsa, junto de tudo o que carrega. A bolsa era uma lambança só. E o bilhete foi se ajeitando, enquanto ela caminhava na calçada, sacolejando maquiagem, brinco, carteira, agenda, escova de cabelo, espelho e um monte de parafernálias de sobra, o bilhete foi se afundando, sendo sobreposto de bugigangas e, por fim, estava lá derradeiro e intacto, mas bem no fundo da bolsa. Depois que Lizete chegou ao serviço, mais ainda, depois do dia ter passado, a frase que lhe tinha alarmado já havia sido esquecida. Havia sido sobreposta pelo pragmatismo dos trabalhos operacionais. O serviço que prestava era desses repetitivos, e que a colocava num fluxo de pensamento concatenado quase hipnótico, abordava os clientes, oferecia os produtos demarcando as qualidades, fazia a cobrança, se despedia, arrumava a bagunça. Imersa no trabalho esses pensamentos sobrepunham quaisquer que fossem a gravidade dos outros, ainda mais um bilhete que faltou em ser bem explicado.
Chegou já era noite, estava em casa, e quando entrou escutou o barulho do chuveiro. Sabia que o marido estava lá se banhando, de porta aberta. Era um apartamento pequeno no centro da cidade, e havia só um banheiro na sala, um quarto e uma cozinha pequena, na qual se projetava uma minúscula área de serviço que cabia nada mais que um tanquinho e uma máquina de lavar média. Era aconchegante, mesmo que faltasse espaço e houvesse sempre pelo menos alguma coisa sem lugar. Sentou no sofá, colocou os pés pra cima e ficou olhando a porta do banheiro, ouvindo o chuveiro. Enquanto o sangue lhe descia dos pés a cabeça, de volta, e no meio de toda essa sensação agradável, ouvia as gotas do chuveiro espatifar no chão e no corpo de Inácio. Ela poderia descrevê-lo nu mais do que poderia dizer uma fotografia. A imagem dele ocupava a sua cabeça, e algumas perguntas começavam a inundar seus pensamentos confusos de pré-sono. Parecia uma coisa mágica que fosse a tanto tempo casada. Não sabia mais por onde tinha começado tudo isso, nem sabia onde as coisas estavam agora. Inácio virou família assim por acaso, sem ter mesmo sangue, foi escolha pura de Lizete. Era bom ter escolhido alguém.
