sexta-feira, 11 de outubro de 2013

não nos ouvimos
nem nos falamos
tanto quanto eu queria
não falta tímpano
e sobra esse ruído
inescrutável, intraduzível
ficamos
a poupar as orelhas
apalpando mal-entendidos
sem falar de polpa
que é isso
tão ensurdecedor

sexta-feira, 26 de julho de 2013

ela é discreta e não se pode sentir-se por ela amado se for sujeito do tipo que espera as mais grandes declarações, daquelas feitas de filme, de provas indubitáveis. assim ela namora, deixa seus amantes ingênuos sempre em dúvida. portanto: a maioria deles foi-se embora, sempre tão cedo. é que por ironia seus amantes precisavam de comprovações, enquanto ela só pode revelar seu amor nos minimalismos; nem por isso é questionável em se tratando da intensidade do afeto que sente. na verdade o motivo de suas discrição é uma exacerbada prudência, quando ama sente tanto amor que não poderia despejar duma só vez, seria assustador, o caos. por isso ela ama sem a verborragia, sem ficar declarando dramaticamente a gigante solidão que sente, sem ficar contando pra todo mundo, sem usar aliança, sem todo o figurino. não que os amantes assíduos para com o romantismo não sejam honestos, aqueles que dizem eu te amo por todos os poros, a todo o tempo e sem censuras. são igualmente verdadeiros e não podem, também, serem recriminados. o absurdo é que tenhamos recorrentemente a estranha atitude de naturalizar esses amorosos extrovertidos como o modo normativo, ai ficamos achando que o amor só emerge nas formas de declarações convictas, plenas e, principalmente, publicáveis. não é bem assim, ao menos não pra ela. 

o segredo de sabê-lo – do amor que ela sentia – é até que simples, mas só pode ser conhecido se for um amante paciente, perseverante, que a tenha como namorada quase como se fosse um ato de fé. mas aquele que puder de início se contentar com pequenas demonstrações, como a vez em que ela usou um brinco pela primeira vez só pra impressionar, ou aquele abraço maníaco que ela tem de dar sempre que se despede, haverá de se refestelar de um namoro duradouro. não é fácil apostar nela, não mesmo. mas a sorte é sempre uma coisa discreta, a sorte é o risco do não previsível, mas que de lambuja nos dá uma satisfação com um ar de que fizemos uma escolha para a qual fomos destinados. é por isso que afirmo, ainda que sem muita certeza, que aquele que apostar no amor dela, esse tão inédito, indeclarado, distinto de todas as mesmices já tão romanceadas nos livros mais vendidos, haverá de ser sorteado.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

que as coisas quebram é fato, também que as vezes quebramos as coisas, acidentalmente ou num ataque raivoso. é da natureza das coisas uma certa obsolescência, e sempre haverão de quebrar-se por maior o esforço que tenhamos em fazê-las longevas. por outro lado é sempre possível repor, desfazer-se, reconstruí-las, comprar novas e até mais atualizadas, ainda que não sejam sempre a mesma coisa. mas são coisas, e então preocupação excessiva sobre as coisas não pode ser mais genuína, ou mais dedicada, do que nos preocupar com outro fato, de que, igualmente, quebram as pessoas. e precisa-se com bastante urgência ponderar mais nossos atos com as pessoas do que com as coisas. o trato para com os humanos deve operar sempre num dado princípio de irreversibilidade. pessoas são marcadas a todo o tempo, as coisas lhes ficam impressas. sejam marcas sutis ou fendas abruptas, todas pessoas tem essa particularidade de que não se pode simplesmente descarta-las, ignora-las e, principalmente, não se pode comprar algo que possa substituí-las. nós, pessoas, estamos sempre na obrigação de, quando marcados, assumirmos uma posição para com essa marca: uma posição que eu chamaria de corajosa. saímos por aí cheios das nossas marcas, na maior parte do tempo sem saber por quê ou por quem foram feitas. daí precisamos conjurar esforços para que cada risco, cada impressão dessa, por mais contraditória que nos seja, tenha um sentido que nos possa ser valioso. valioso é diferente de ser valoroso. valioso porque as marcas tem um gosto muito particular, difícil de ser dividido, e o valor dessas marcas só pode ser estabelecido na individualidade, só pode ser reconhecido num esforço realmente honesto de escutar o que as pessoas tem a dizer sobre as suas marcas. se as pessoas não puderem fazer dessas marcas sentidos fecundos, quebram.
era mais fácil escutar, espichar as orelhas, fazer dois ouvidos buraco fecundo de fantasias. não era de falar, todo mundo sabia, mas quando diziam sobre ele falavam que era um cara bom pra conversar. é isso, o rapaz é bom pra conversar, porque ele deixa que cada um dos seus pares fiquem perlaborando monólogos, pois sabe muito bem que mesmo sozinho é possível travar debates infindos, pra uma vida inteira. e talvez, esse jeito de ficar só de ouvidos, era pra ver se essa essa multidão dividida e diversa que mora por dentro fazia um pouco de silêncio. talvez não. talvez, ficasse a escutar, porque assim não precisava fazer posição sobre as coisas. não falava nada, mas eis que as palavras começaram a sair, desmedidas, desenfreadas e desautorizadas. as palavras saiam feito animais selvagens que há muito vem sendo adestrados e desmerecidos de seus instintos. e feriu tanta gente, tanta coisa, e feriu a si mesmo como se sua garganta tivesse sido rasgada desde seu fundo até os cantos dos lábios. chamou uma gorda de gorda, disse que não acreditava em Deus porra nenhuma, falou pra mãe que ela tinha culpa de tudo, desceu a lenha na conduta de tanta gente, terminou um namoro ensosso chamando-a de puta. perguntou pra si, que fez de si mesmo tantos anos? fiz nada, ficava dizendo,nada. era mais fácil escutar.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

o segundo casamento de um velho amigo e as provas do passar do tempo uma vez mais se mostram irrevogáveis. todo dia que faz avante o cotidiano deixa algumas pistas não muito claras de que a vida segue adiante, inexorável. mas o segundo casamento de um velho amigo é menos sutil que uma pista. é uma prova concreta, é o cabelo no tapete do local do crime. quando meu primeiro grande amigo se casou eu ainda poderia dizer que era só um caso particular, afinal esse cara sempre conquistou as coisas tão rapidamente na vida, nem trinta anos e um doutor, tratou-se obviamente de um caso à parte. se dessa primeira vez eu consegui silenciar a fatídica temporalidade existencial pela excepcionalidade do caso, agora eu teria de fazer mais esforço. teria de fazer, mas não farei. seria idiota persistir em tornar silenciosa a minha história, quando é justo o tempo que torna a vida cada vez mais extensa, e me deixa com um espírito cada vez mais largo.

vou me contradizer agora, e não espero que seja compreensível. mas não tenho tanta certeza dentro de mim de que o tempo passe de fato, nem mesmo com essa prova aparentemente irrevogável. pois que ao ver meu amigo casar e por força da ocasião todos os meus grandes amigos reunidos, os vi de mesma maneira que os olhava a mais de dez anos atrás. tenho a sensação de que ficamos repetindo, feito um disco de vinil sendo explorado pela agulha, mudando a música sem sair do lugar. mas isso parece tão absurdo que talvez eu esteja só teimando que o tempo não passe.  perdão pela reflexão displicente e não muito bem argumentada.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

cansaço, desses que deixam engruvinhados os anéis da coluna, desses que quando se deita dói e é bom, que fazem da cama um limbo de conforto no relaxar de cada dezena de fibras, orquestrando um dormir sem nenhum sonho. antes fosse esse cansaço o meu, que não tivesse sido usurpado mais de sua metade, mais do que valia. que desse modo, por mais ansioso do descanso que eu esteja, não anseio revigorar. amenos que algo mude. só se me derem de volta mais da metade da minha energia investida. não quero juros nem lucros, só quero de volta mais da metade, deixo ainda um resto perdido por aí, pra quem quiser pegar pra si. toda essa reclamação é fruto desse trabalho desonesto que não é meu e finge ser. mais um dia eu dei uma porção de vida pra comprar mais um prato de comida, pra dar mais uma porção de vida, pra quê?
perdeu o juízo num só gole. não pôde nem dizer: ah, foi a cerveja a dona da culpa. que não foi. culpa já tinha de sobra, só não sabe se era por sentir desejos tão irrealizaveis, ou se era de tê-los encoberto tanto com tanta roupagem. pois que foram diluídas tantas amarras, até que se abrisse o fundo e deixasse supurar inflamadas as suas vontades genuínas. e gostaria de dizer hoje, na ressaca, de sua imensa satisfação de deixar-se vazar. só que não. acorda com um sentimento de incongruência, cada flash de memória vem como chicoteada. açoitada das próprias proibições fica pedindo desculpas não se sabe pra quem, e as bochechas, não que tenham notado, iam ficando rosáceas nos encontros com os olhares dos outros. fica se perguntando quem é que fora naquela noite de ontem, como se tudo tivesse acontecido milênios atrás, numa época em que os seus desejos eram pura barbárie. esta correta, de certa forma, de dizer que os seus desejos eram bárbaros, de senti-los como habitantes rudes e desconhecidos. mas seria bom começar a repensar o quanto é que precisavam mesmo ser civilizados.