quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Avôu

Meu avô faleceu muito antes que eu pudesse tê-lo como avô. Antes mesmo que meu pai pudesse ter lhe pedido com toda cautela possível a cuidadosa mão da minha mãe. É por isso que para mim o meu avô é só uma história contada. E não é por isso que ele seja menos meu avô do que aqueles velhos que os netos, amigos meus, sempre tiveram o gosto de ter por perto. De um modo ou de outro, esse velho avô que veio a falecer com antecedência, cumpriu o papel de avô em minha vida, que só poderia ser dele, afinal, de mais ninguém.

Conto isso porque fiquei surpreso de sentir saudade de um velho avô que jamais existira em minha frente feito de carne e osso, mas feito de uma mirabolante associação daquilo tudo que eu desejaria ter tido como um avô. Nunca me ocorreu sobre o falecido nada muito fantasioso como contam os contos de avôs e netos, sobre o contra senso da sabedoria experiente frente a uma vida nova e sedenta de experiências. Lembro de tantas histórias carregadas disso, aonde a moral delas será sempre como a impaciência da criança será frustrada por aquilo que o avô já havia lhe dito, mas que ela, na ignorância de suas impulsões, não ouviu, passou soprando pelo ouvido.

É que, ainda que tais histórias carreguem uma ternura elegante elas sempre me enfastiaram, e na verdade, sempre as achei carregadas de implícito desrespeito frente à velhice humana. Principalmente eu que não tive mesmo, em vida, em carne e osso, um avô, e pude fazer um avô meu como eu bem quisesse, lhes digo que não, meu avô não seria um velho desses. Um velho desses em que sua virtude mais desenvolvida foi deixar que a vida passasse porque as coisas acontecem ao seu próprio tempo. Acho que os jovens que se acometeram a tratar de falar de velhos desse modo foram realmente pecaminosos.

O avô que eu não tive fumava tabaco do jeito tradicional no degrau da escada de frente da casa, e por pedido da minha avó cederia ao vício quando eu fosse visitá-lo, já que a fumaça seria agressiva às minhas jovens narinas e aos meus quase prontos pulmões. Meio que contrariando a minha avó ele seria omisso a promessa, crendo que ela não poderia tirar-lhe o gosto do fumo ainda que tivesse toda razão. No fundo do quintal daria uma pitada desconfortável que respeitasse tanto ele mesmo quando os desejos da minha avó. A minha avó, está que me é viva e esperta, sempre saberia disso, e o amaria mais por sua teimosia em sentir-se feliz, embora penasse chorosa sobre suas tosses.

Ainda que tal disfarce fosse efetivado eu sempre poderia sentir o cheiro do tabaco quando a mão calosa do velho se enfiasse nos meus cabelos, com um sorriso torto e amarelado. E eu encontraria nos olhos daquele velho um misto de inveja da minha força da infância com uma esperança de que eu não cometesse os mesmos erros que ele já tinha feito outrora. Meu avô não seria mesmo perfeito, e seria um homem cheio de dores, um homem real, que destoava em desejos imortais num corpo cansado. Desejaria matar a curiosidade do fim da vida toda vez que suas pernas falhassem, ainda que no café da manhã imaginasse que ainda daria tempo de fazer mais algumas boas e grandes coisas, perto de seus oitenta anos.

Supirosos


Suspirar um pouco é por um pouco de peso pra fora, num sopro conformado. Foi uma última coisa que Jacinto pôde fazer antes mesmo de adormecer, sentado na beirada da cama. O pequeno sopro foi profícuo em esvaziá-lo suficiente tornando-o mais hábil para dormir. Não é que para dormir se precise saber muito, só precisa mesmo se saber deixar levar, sem desconfiar, ir à inércia de um cansaço tímido juntado do anoitecer, no qual as culturas se ensinam a serem mais reclusas, a protegerem-se da falta de luz, por motivos óbvios. Puxou o ar que podia enquanto ainda sentado, enchendo o pulmão e exigindo do seu diafragma que empurrasse as vísceras que o contornam, tencionava o corpo para que coubesse todo o ar possível. Daí em seguida que veio um sopro longo, que trazia consigo tudo o mais que não fosse bom para o corpo de Jacinto, e desentupia, tornava Jacinto um homem mais leve. Dormiu feito uma esponja seca. E não era só ele quem dormia. Do lado dele já estava num sono leve sua esposa, que o esperava que viesse logo para cama, mas que já tinha dormido de preocupação. Isso a deixava num estado de contraste, um sono atônito, preocupada, esperando mesmo que fosse acordada. E o sono de Zulmira esperava mesmo ser interrompido, mas que Deus quisesse fosse o reboliço que Jacinto costumava fazer quando se aconchegava na cama. E assim Deus quis. Zulmira num estado meio de alfa, sentiu inconsciente o colchão tamborilar-lhe o tronco quando Jacinto soprava, e despreocupou-se fácil. Abriu tênues suas pálpebras e viu o homem de costas largas que ainda sentado começava a deitar ao lado, puxando as cobertas mais para ele. Zulmira passou as mãos no ombro de Jacinto, fez um agrado. Queria perguntar como foi o dia, mas Jacinto já estava vazio, já tinha soprado tudo, e dormiria em poucos segundos. Ele ignorava os dedos carinhosos da esposa.

A preocupação de Zulmira esvaiu como mágica. Estava mais apta a dormir pesado, agora que o marido tinha chegado são e salvo. Tolerava que o homem chegasse tarde, compartilharam quase meia vida, e depois de tanto era difícil algo que não tolerasse alguma coisa. Depois de tantos anos a relação deles mudou um bocado, assumiu formas tão diversas. E hoje, era quase que integralmente tolerância, era uma escolha feita, indeferível. Foram atravessados por dois filhos que lhes deram tantas alegrias e tristezas, e hoje deixaram só uma saudade imensa. Em Zulmira essa saudade tinha feito daquela casa um salão imenso, onde se ela pronunciasse algo ecoava e sua voz só falava consigo mesma. O lugar tinha ficado flácido. Feito um ventre logo depois de dar a luz. E era entre os dois um silêncio que se repetia ao longo dos dias, falavam só de trivialidades e nunca mais de amor. Era como se Zulmira regredisse aos seus quinze anos, amava aquele homem em segredo, o achava de tamanha beleza, mas não proferia, e ficava pensando qual era o modo de reconquistá-lo. Os beijos eram tão raros, e burocráticos. Quando ia lhe soltar as mãos do ombro sentiu um cheiro forte de bebida alcoólica. Ficou se perguntando o que é que ele ia procurar fora de casa, sentiu um ciúme infantil, que lhe fez dar um puxão nas cobertas, descobrindo o homem. Virou-se de costas para ele, tentando conter-se de lágrimas sobrepujantes. Não deu, o choro excedia seu esforço. E perpetuou lacrimosa assim por uma meia dúzia de minutos até que virasse cansaço. E quando findaram as lágrimas arregalou os olhos após enxugar o rosto na fronha, e suspirou como Jacinto tinha feito ainda há pouco. Sentiu úmido o travesseiro. Puxou um montão de ar e fez sair a tristeza num sopro, vazia daquilo caiu num sono pesado.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

beiradabeira


Estou na beirada, à beira, beirando, na guia, quase no olho da rua, com olheiras. Há um sono sombrio inebriando as fronteiras, e não sei pra qual lado eu mais tendo derrubar. Engraçado que vejo as margaridas passando, sem pés, correm pelas raízes. Se eu pudesse alcançar uma delas seria tão bom, sentir um pouco o cheiro raso que perde pro vento e a textura daquele pequeno miolo encrespado num invólucro de pétalas brancas e lisas. Elas correm mais que devaneios de dias de feriado chuvosos ao ler literatura gratuita e de qualidade discutível. Eu penso ingênuo que não sei aonde vou parar, e estou parado. Os desejos andam genuínos, mas as pernas ficam falseadas, contidas. Qual é o mais longe que um homem da minha pele e da minha história pode chegar numa só vida? Estou na beirada, à beira, beirando, na boca do mar, quase no fundo do oceano, com insolação. É triste, nadando no nada, sem nenhuma direção. Há uma onda que não quebra nunca, não espuma, parece sólida. Um pescador acena com seu palheiro e capim nos dentes, um balde cheio de peixes resfolegando e um anzol com migalha de pão é sua companhia, e quem sabe mais um peixe vivo faminto, sem cardume. Estou na beirada, à beira, beirando, nos confins do horizonte, quase nas costas do mundo, no avesso da imensidão, e implodo. É feliz quando descubro a resposta, eu percebo, estou com uma dádiva e uma punição, estou livre.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Samambaia


A samambaia está seca nas pontas feito palha, e verde bem perto da raiz. É por isso que não a corto nunca, sempre não sei saber ao certo se ela morre ou vive, ou se faz os dois, confusa. E esse drama é tão menor quando passa da porta de casa que esqueço rápido o suficiente pra não lembrar. Quem me deu a samambaia foi minha mãe, que numa vez chegou em casa quando raramente me visita e disse que aquilo não era casa que se prezasse, e que não era possível que eu não tinha aprendido como se viver bem por todos os anos que eu fiquei debaixo da sua saia. Eu nem me defendi, talvez ela tivesse razão, eu era tão mimado que só poderia depreender de todos os anos infantes e juvenis que se eu esperasse o tempo suficiente algo intercederia por mim, e faria que meu desejo acontecesse. Algo como uma onipotência passiva eu incorporei. Minha mãe disse que eu também estava descuidado comigo mesmo, a barba por fazer e a roupa sem passar, disse que eu precisava de alguém que cuidasse de mim, e que enquanto não fizesse isso que conversasse com a samambaia, as plantas ouvem, ela dizia, são boas ouvintes porque o fazem em silêncio.

No começo eu era irônico, e quando passava pela porta e via aquela planta içada numa viga do metro cúbico de entrada do meu apartamento eu achava um contraste descarado com o resto da casa, mas era bonita, era familiar. Eu entrava e dizia oi, e ria de mim. Enjoei dessa piada quando eu comecei a vê-la, via a samambaia começando a secar, quando até começou a haver pequenas folhas amareladas estarem caídas por sobre o piso. E, de algum modo, aquela planta idiota me recheava de culpa, de culpa de não tê-la regado, não tê-la cortado as folhas desnecessárias para que melhores e mais boas nascessem no lugar. Eu sempre esquecia dela. Era só uma coisa que eu me lembrava quando via. É dificílimo explicar do que se tratava, mas não incomum. Eu já havia sentido isso antes na vida, de ter algo que é meu e que está sempre lá, mas não toco, não lembro, mas, de repente aparece, e se faz tão presente como se nunca tivesse mesmo sumido. A samambaia é algo que eu ignoro e que pareço fazer questão de ignorá-la.

Fazia questão. Não faço mais. Uma vez eu paguei uma moça, que cuidasse do meu apartamento, pois tava de um jeito que não dava mais pra sobreviver. Pedi a moça, com toda a sinceridade, que eu sairia agora pela manhã, e voltaria só no outro dia, e ficaria felicíssimo se a mulher deixasse a casa pelo menos habitável. Não tinha nenhuma recomendação para ela sobre minhas coisas, pois minhas coisas não tinham lugar definido, salvo os móveis mais pesados e olhe lá. A única coisa que recomendei é que eu era dê um extremo desapego, e tudo que a moça visse que achasse que não era mais de uso, levasse pro lixo sem dó. Exceto, com certeza, exceto a minha samambaia, que pra mostrar pra moça que tinha agrado pela planta falei que a chamava de Janaína, e que nutria amor e desenrolava conversas com aquele vegetal caladão. A moça só acenava que sim com a cabeça e disse ao fim que, podia deixar com ela Doutô Romualdo.

Esqueci da moça, esqueci de casa e da samambaia. Voltei no dia seguinte pela manhã e havia um bilhete na porta. Dizia que a Janaína havia caído e se desmantelada toda, mas que tinha recuperado como podia, que pedia todas as desculpas do mundo e, por isso, não aceitou metade do pagamento, deixando o dinheiro em cima do criado. Senti um vazio estranho sobre a Janaína, que na hora nem liguei que a moça tenha rejeitado o dinheiro que era seu por tão pouco erro. Procurei a minha chave afoito, assustado e meu coração disparou um pouco. Sentia que eu não estava lúcido. Eu pensava na Janaína como se tivesse conversado com ela muito nos últimos tempos. Quando abri a porta eu vi a Janaína toda despedaçada, ainda içada na viga, com o vaso partido e as suas raízes desviadas da terra. Ela estava morta e eu me senti sozinho, me senti vazio, com um rombo em que havia um grito dizendo Janaína e fazendo um eco infinito.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Zum-zum

Zulmira levantou meio atrasada, e foi até a cozinha arrastando o pé no piso. Estava lá já Irineu, folheando o jornal do dia e sem olhar para ela disse que o café estava pronto. A mulher arredou um pouco a cadeira de fio de palha e se sentou folgada no lado oposto da mesa, ainda desgrudando as pálpebras, fazendo emergir seus olhos. Serviu uma xícara de café e meiou o pão pra depois pôr a geléia de amora, olhava longe no azulejo amarelo da cozinha, fazia até parecer que o azulejo era mais interessante que Irineu, olhava e não via. Em realidade o que via era o sonho que teve na noite se remontar, mas estava ainda uma lembrança insegura, fragmentada e sem nome. Veio uma mosca zumbindo no ouvido da Zulmira que comia quietinha o pão com manteiga. O inseto fez escorregar o sonho como água e sabão em uma aquarela. O sonho foi esmorecendo até que sumiu de vez. Largou o pão de súpeto, e sacudiu a mão perto da orelha, perderá o sonho e queria afastar a mosca. Irineu a olhou e franziu a sobrancelha, como que se indagasse a mulher sobre por que se mexia tão bruscamente tão cedo e tão inesperadamente. Zulmira respondeu ao silêncio franzido de Irineu, disse que havia espantado uma mosca. O homem retratou a sobrancelha como se agora fingisse que não acabasse de ter indagado algo, e como não se importava da mosca, do zumbido, ou com qualquer incômodo que Zulmira pudesse ter sentido ou, de repente, vir a sentir.

Zulmira dedicou-se de volta ao seu desjejum, e começou a organizar as coisas do dia, empilhar na cabeça as mesmas caixas de sempre, ficou aturdida disso, querendo jogar tudo pro alto. A mosca zumbiu mais uma vez e ia voando como se fizesse o símbolo do infinito pela aquela cozinha curta. Até que como se tivesse tido um ataque do coração, caiu no meio do trajeto, dentro da xícara de Irineu. O zumbido sumiu e Zulmira ria contida. Ria contida e engasgou com o pão, e começou a tossir sufocada. Irineu tirou o jornal de sua frente e a fitou, mais uma vez daquele jeito, franzido e como se indagasse o que é que acontecia agora. Zulmira tossia, ficava com o rosto vermelho, e mesmo assim ria ainda, do pouco ar que lhe restava fazia graça, fazia comédia da vida.

Irineu levantou e deu nela um tapa rude nas costas, fez arder e fez parar a tosse, e fez também parar o riso, por aquele instante. Depois se sentou e no caminho curto de volta a cadeira em que estava disse que Zulmira devia aprender a comer devagar, e a se concentrar no que come ao invés de ficar parecendo um zumbi. Zulmira engoliu o pedaço de casca seca do pão de trigo que havia ficado entalado na garganta e não queria mais estar na mesa, mas tinha de esperar. Tinha de esperar ver Irineu beber a mosca. Ficou absorta na xícara de Irineu, que quando a pegou pela mão olhou para Zulmira e perguntou por que é que ela não cuidava do próprio café. Zulmira riu contida de novo, mas dessa vez não segurou e nem engasgou. Foi rindo, cada vez mais, tinha aquilo que se chama uma crise de riso desenfreada, ria da própria risada e fazia Irineu pensar que ela enlouquecia. Irineu balançou a cabeça como se desprezasse o riso e foi tomar sua xícara de café. Zulmira ria tanto, mas ao invés de um riso sádico era um riso indecente, inocente. E Irineu viu tamborilar o indicador de Zulmira na direção de sua xícara, como se apontasse algo ali, e também viu os olhos da mulher fitar-lhe a boca. Desconfiado olhou em seu café uma mosca boiando.

Você sabia, disse o Irineu. E achou engraçado, continuou dizendo. Você é mesmo uma mulher asquerosa, foram suas últimas palavras. E essas últimas secaram o riso de Zulmira. O coração dela foi ficando pesaroso e ardente, fez arrepiarem os pêlos de seus braços, uma tristeza sem fim, uma tristeza sem cura. Irineu dobrou o jornal, tomou o café num gole só, mas tomou do café da xícara de Zulmira. Irineu saiu da cozinha, e saiu de casa sem dar até logo. Zulmira ficou meio opaca, com cara de tacho. O coração fazia um nó, torcia, e de uma vez fez sobrar lágrimas nos olhos. Chorava como uma criança, aos berros e aos soluços. Sem solução. Fitou a mosca boiando na xícara de café e a tomou.

sábado, 27 de agosto de 2011

Raro


Domingo de manhã, o teto do mundo está forrado de azul celeste. Magda quando respira inspira ação. Ter um dia quente e fresco pela frente sem preocupações tem sido raro. Nos últimos meses ela tem acordado com um pensamento, com um dever atestado, comprometida. Hoje ela primeiro abriu os olhos. São nesses momentos assim que ela pode finalmente edificar coisas novas, reformar velhas, e não entoar o canto de todo dia que já está tão prescrito e, se não der certo fica perturbador. Nesse domingo não há antecipações, e, portanto, não há coisas para dar certo, há coisas para se dar.

O momento é raro, mas não de uma raridade que se teme acabar, que se anseia ter luto. É uma decorrência de estar num estado sustentável, de ter feito tudo o que tinha precisado fazer só pra que sobrasse esse tempo particular. A natureza colaborou. Magda deu aquela espreguiçada que fazem com que as costelas não mais se escondam, e respirou bem fundo. Saiu do quarto e foi perambulando pela sua casa, sem nenhuma vontade precisa. Foi para a cozinha, posicionou uma xícara larga de baixo da máquina de café expresso. Achatou o café no recipiente e a ligou. O zumbido da máquina foi a primeira coisa que cortou o silêncio, e a segunda foi logo em seguida ligar o rádio na sala.

Estava tão desligada do mundo que ao ligar o rádio esqueceu-se ela mesma de que tinha um filho dormindo, que o pai não foi pegar Juan no fim de semana, em que seria dele. Baixou logo o som, um pouco tarde demais, mas baixou. Noutro canto da casa o sono do filho foi interrompido ao som da MPB, não de um modo brusco, mas interrompido. Era uma criança, com quase quatro, e desatou a chorar. Esse foi o terceiro som do dia de Magda. Culpou-se, não dele chorar, mas de tê-lo esquecido, de ter sido tão egoísta que pudesse achar que aquele domingo seria só dela. Sentiu-se idiota. Mas estava errada em inquerir-se desse modo, o domingo tinha lhe deixado tão grande, como se suas vontades vazassem das compressões e arrochos comuns. Mesmo assim ela se reteve, culpou-se de ser assim tão grande e feliz. Reflexamente desligou o rádio, e esqueceu o som da máquina de café, que dali a pouco inundaria a xícara larga vazando sobre a pia de mármore.

Foi até o quarto de Juan e sentou-se ao seu lado. Abriu a cortina e desligou o abajur todo trabalhado que vazava feixes de luz em formato de estrelas no teto.

- Oi filho. Desculpe. – passou a mão sobre a testa de Juan, lhe esticando as pálpebras úmidas, e secando as lágrimas.

O menino acalmou-se logo, ainda tinha sono. A mão incessante de Magda sobre os cabelos finos do garoto o pôs a dormir de novo, como mágica. E permaneceu assim por um tempo até que a máquina de café voltasse a ser ouvida novamente. Saiu com cuidado do quarto e foi consciente de que teria de limpar a cafeteira e o mármore, e que se quisesse café teria de refazê-lo. Limpando a sujeira lembrou que Juan estava esmorecido do pai ter desfeito a promessa. Os encontros esporádicos com o pai eram saborosos, pois o pai era mais compromissado com a dimensão do lazer de Juan, quase não se lembrava de todo cuidado necessário para que o menino brincasse saudável.

Quando acabou a limpeza Juan veio de pijama, com os olhos remelentos, quase grudados. Puxou a barra da blusa da Magda, ela não precisou de muito para saber que ele queria comer. Desistiu de seu café, pegou uma faca e algumas laranjas maduras, levantou Juan ao colo e foram juntos para a sacada, Magda, Juan, a faca e as laranjas. Magda sentou e encostou-se sobre o vitral que separava a sacada da sala de estar daquele apartamento alto. De pernas abertas colocou Juan contido em sua frente, como se o aninhasse. Foi descascando as laranjas. Dividiu uma em duas. Deu uma metade a Juan, que fez bico como se negasse. Ela fez cócegas em sua barriga e ele começou a rir agudamente. Juan abriu bem os olhos ao rir alto. Pegou metade da laranja da mão de Magda, e foi tentar chupar. A laranja lhe cobria quase que metade do rosto. Magda chupava sua parte e ria enquanto o filho se sujava, via que ele se sujava, mas que estava obstinado na sua tarefa de comer sozinho a própria laranja. Ele era grande, maior do que ela supunha. O tempo passava, o domingo era raro. Ficaram conversando a até que o sol chegasse ao meio do céu, e não mais esquentasse a sacada. Quando fez frio entraram.