
Meu avô faleceu muito antes que eu pudesse tê-lo como avô. Antes mesmo que meu pai pudesse ter lhe pedido com toda cautela possível a cuidadosa mão da minha mãe. É por isso que para mim o meu avô é só uma história contada. E não é por isso que ele seja menos meu avô do que aqueles velhos que os netos, amigos meus, sempre tiveram o gosto de ter por perto. De um modo ou de outro, esse velho avô que veio a falecer com antecedência, cumpriu o papel de avô em minha vida, que só poderia ser dele, afinal, de mais ninguém.
Conto isso porque fiquei surpreso de sentir saudade de um velho avô que jamais existira em minha frente feito de carne e osso, mas feito de uma mirabolante associação daquilo tudo que eu desejaria ter tido como um avô. Nunca me ocorreu sobre o falecido nada muito fantasioso como contam os contos de avôs e netos, sobre o contra senso da sabedoria experiente frente a uma vida nova e sedenta de experiências. Lembro de tantas histórias carregadas disso, aonde a moral delas será sempre como a impaciência da criança será frustrada por aquilo que o avô já havia lhe dito, mas que ela, na ignorância de suas impulsões, não ouviu, passou soprando pelo ouvido.
É que, ainda que tais histórias carreguem uma ternura elegante elas sempre me enfastiaram, e na verdade, sempre as achei carregadas de implícito desrespeito frente à velhice humana. Principalmente eu que não tive mesmo, em vida, em carne e osso, um avô, e pude fazer um avô meu como eu bem quisesse, lhes digo que não, meu avô não seria um velho desses. Um velho desses em que sua virtude mais desenvolvida foi deixar que a vida passasse porque as coisas acontecem ao seu próprio tempo. Acho que os jovens que se acometeram a tratar de falar de velhos desse modo foram realmente pecaminosos.
O avô que eu não tive fumava tabaco do jeito tradicional no degrau da escada de frente da casa, e por pedido da minha avó cederia ao vício quando eu fosse visitá-lo, já que a fumaça seria agressiva às minhas jovens narinas e aos meus quase prontos pulmões. Meio que contrariando a minha avó ele seria omisso a promessa, crendo que ela não poderia tirar-lhe o gosto do fumo ainda que tivesse toda razão. No fundo do quintal daria uma pitada desconfortável que respeitasse tanto ele mesmo quando os desejos da minha avó. A minha avó, está que me é viva e esperta, sempre saberia disso, e o amaria mais por sua teimosia em sentir-se feliz, embora penasse chorosa sobre suas tosses.
Ainda que tal disfarce fosse efetivado eu sempre poderia sentir o cheiro do tabaco quando a mão calosa do velho se enfiasse nos meus cabelos, com um sorriso torto e amarelado. E eu encontraria nos olhos daquele velho um misto de inveja da minha força da infância com uma esperança de que eu não cometesse os mesmos erros que ele já tinha feito outrora. Meu avô não seria mesmo perfeito, e seria um homem cheio de dores, um homem real, que destoava em desejos imortais num corpo cansado. Desejaria matar a curiosidade do fim da vida toda vez que suas pernas falhassem, ainda que no café da manhã imaginasse que ainda daria tempo de fazer mais algumas boas e grandes coisas, perto de seus oitenta anos.





