
Ele estragou tudo num só gesto. O clima ficou tão ruim que naquele minuto ele jurou a si mesmo que ficaria dali pra frente sempre calado e sem se mexer. Acho que só não cumpriu o juramento porque soube ver que isso só aconteceu porque ao invés de falar porque quis falar, estava tagarelando qualquer coisa para tentar agradar aos outros. Que ingenuidade pensar em agradar aos outros se nem a nós mesmos sabemos fazê-lo o tempo todo. Quem dirá em circunstâncias desconhecidas.
Ficou repetindo consigo mesmo a besteira que tinha falado. Ele sabia que a nova namorada confiara a inserção dele naquela família, e no primeiro passo lá dentro é como se ele já tivesse perdido o aval do sogrão quando pedisse a mão da moça. A tentativa dele de ser simpático foi tão artificial, que se ele não tivesse feito todo mundo ficar mudo nunca se lembraria do que havia falado. Era como se a imagem daquela situação estivesse sendo pregada em sua memória, anexada com uma observação em letras grandes e vermelhas: “cala a boca imbecil”.
Quando ele deu a mancada o sogro mantivera o olhar fixo na direção dele, mas de um jeito altista que o atravessava e torcia para que aquele rapaz não existisse. A cunhada, caçulinha da família, sorria com um ar de inocência e crueldade. Como se dissesse com aquele sorriso que sim, era verdade, você estragou tudo. A sogra ficava olhando para o máximo de pessoas que conseguia, porque só queria saber quem é que se tinha dado conta da besteira que o rapaz havia dito. A sogra sofria por dentro daquilo que chamamos de vergonha alheia, aquilo que sentimos quando assistimos a um programa muito brega na televisão popular.
A nova namorada sempre lhe dizia que quando falava dele “lá em casa” o pessoal tudo achava ele um rapaz fofo, inteligente e esforçado. Se existe alguém no mundo que mentia naquele momento era ela. Ele fez de sua moça uma grande fraude. A moça estava com a cabeça abaixada como se tentasse imaginar que foi só um sonho e ele não estava mais lá.
Era uma sensação redundante. Desde que foi convidado àquela casa pensara em como iria agradar, até na roupa que resolveu usar. E olhe que errou na roupa porque logo que chegou a namorada lhe disse que não o reconhecia com aquele sapa-tênis e camisa pólo. Mas até aí tudo bem, pensou ele, afinal a namorada ele já sabia como agradar. É que ela não entenderia que o lance da roupa foi um ponto essencial para ser bem aceito no berço da moça.
Quando ele já estava pronto para dar outra mancada porque o silêncio ia ficando insuportável uma compaixão geral o tinha salvado. Alguns tentaram concluir a besteira de outro modo, outros puxaram outro assunto e o primo da sua namorada perguntou se ele gostaria de tomar algo. Foi melhor assim. Pelo menos agora o clima não estava tenso, embora o rapaz não tivesse um músculo não rígido. Quando chegou em casa estava exausto como se tivesse andado cinco quilômetros, mesmo tendo ficado sentado o tempo todo e segurado a bexiga pra não ter de levantar.
Foi dormir e sentiu-se livre, completamente livre em sua cama. Agradado. Os humanos sentem-se livres quando sentem que é certo ser do que eles mesmos sentem que são feitos.
O fato ficou na memória do rapaz. Mas besteira tê-lo guardado. Enquanto ele dormia, naquela mesma noite o pai dissera pra filha que pela primeira vez sentiu que alguém fosse cuidar dela do jeito que ela merecia. A moça sentiu tanta alegria que sorriu largamente e teve certeza que seu novo menino era do bom.
Em uma noite mais distante, no noivado, entre um copo de vinho e outro o pai comentou, abraçado ao futuro oficial genro e pai de seus netos: “quem diria que aquele cara com aquele sapa-tênis estranho seria como um dos filhos que eu não tive! Um brinde!”.



