quarta-feira, 28 de julho de 2010

Agrador

Ele estragou tudo num só gesto. O clima ficou tão ruim que naquele minuto ele jurou a si mesmo que ficaria dali pra frente sempre calado e sem se mexer. Acho que só não cumpriu o juramento porque soube ver que isso só aconteceu porque ao invés de falar porque quis falar, estava tagarelando qualquer coisa para tentar agradar aos outros. Que ingenuidade pensar em agradar aos outros se nem a nós mesmos sabemos fazê-lo o tempo todo. Quem dirá em circunstâncias desconhecidas.

Ficou repetindo consigo mesmo a besteira que tinha falado. Ele sabia que a nova namorada confiara a inserção dele naquela família, e no primeiro passo lá dentro é como se ele já tivesse perdido o aval do sogrão quando pedisse a mão da moça. A tentativa dele de ser simpático foi tão artificial, que se ele não tivesse feito todo mundo ficar mudo nunca se lembraria do que havia falado. Era como se a imagem daquela situação estivesse sendo pregada em sua memória, anexada com uma observação em letras grandes e vermelhas: “cala a boca imbecil”.

Quando ele deu a mancada o sogro mantivera o olhar fixo na direção dele, mas de um jeito altista que o atravessava e torcia para que aquele rapaz não existisse. A cunhada, caçulinha da família, sorria com um ar de inocência e crueldade. Como se dissesse com aquele sorriso que sim, era verdade, você estragou tudo. A sogra ficava olhando para o máximo de pessoas que conseguia, porque só queria saber quem é que se tinha dado conta da besteira que o rapaz havia dito. A sogra sofria por dentro daquilo que chamamos de vergonha alheia, aquilo que sentimos quando assistimos a um programa muito brega na televisão popular.

A nova namorada sempre lhe dizia que quando falava dele “lá em casa” o pessoal tudo achava ele um rapaz fofo, inteligente e esforçado. Se existe alguém no mundo que mentia naquele momento era ela. Ele fez de sua moça uma grande fraude. A moça estava com a cabeça abaixada como se tentasse imaginar que foi só um sonho e ele não estava mais lá.

Era uma sensação redundante. Desde que foi convidado àquela casa pensara em como iria agradar, até na roupa que resolveu usar. E olhe que errou na roupa porque logo que chegou a namorada lhe disse que não o reconhecia com aquele sapa-tênis e camisa pólo. Mas até aí tudo bem, pensou ele, afinal a namorada ele já sabia como agradar. É que ela não entenderia que o lance da roupa foi um ponto essencial para ser bem aceito no berço da moça.

Quando ele já estava pronto para dar outra mancada porque o silêncio ia ficando insuportável uma compaixão geral o tinha salvado. Alguns tentaram concluir a besteira de outro modo, outros puxaram outro assunto e o primo da sua namorada perguntou se ele gostaria de tomar algo. Foi melhor assim. Pelo menos agora o clima não estava tenso, embora o rapaz não tivesse um músculo não rígido. Quando chegou em casa estava exausto como se tivesse andado cinco quilômetros, mesmo tendo ficado sentado o tempo todo e segurado a bexiga pra não ter de levantar.

Foi dormir e sentiu-se livre, completamente livre em sua cama. Agradado. Os humanos sentem-se livres quando sentem que é certo ser do que eles mesmos sentem que são feitos.

O fato ficou na memória do rapaz. Mas besteira tê-lo guardado. Enquanto ele dormia, naquela mesma noite o pai dissera pra filha que pela primeira vez sentiu que alguém fosse cuidar dela do jeito que ela merecia. A moça sentiu tanta alegria que sorriu largamente e teve certeza que seu novo menino era do bom.

Em uma noite mais distante, no noivado, entre um copo de vinho e outro o pai comentou, abraçado ao futuro oficial genro e pai de seus netos: “quem diria que aquele cara com aquele sapa-tênis estranho seria como um dos filhos que eu não tive! Um brinde!”.

Luz do som

Aquela noite chuvosa trouxera clarões de luz no céu, e, àquele bebê, os clarões até que lhe davam certo conforto, pois preferia a luz à escuridão da noite e do fechar dos olhos sem sono. Portanto, os feixes de luz a tranqüilizavam naquele berço daquele quarto onde fora colocada.

O pai da criança não dormia ainda. Solteiro, por ordem da natureza, havia perdido a esposa na mesma data em que ganhou a sua filha. Tragédia homérica. Da tristeza se fez uma alegria. O pai não sabia dizer a si mesmo se era uma triste alegria ou uma alegre tristeza. Dia após dia não se foi criada até hoje alguma palavra que designe as forças contraditórias que digladiaram no coração daquele homem. O pai da criança não dormia cedo desde que a garotinha começou a dormir naquela casa.

Mais um relâmpago nascido da terra e do céu. Rachando o ar fez uma enorme luz. Luz que, mesmo que não houvesse o sol na via láctea, fosse uma câmera fotográfica poderia fotografar o mundo inteiro de uma só vez. Luz que de imediato fez com que a criança sorrisse. Pois naquele instante breve, superara a insuficiente luz daquele abajurzinho e mostrara àquela criança que ela ainda estava ali, tão perto daqueles ursos e móbiles que ficavam flutuando acima de seus olhos.

Luz que no mesmo instante deslocara os olhos compenetrados do pai naquele livro para as janelas de vidro. A superfície cristalina daquela janela de correr parecia frágil perto dos milhares de gotas de chuva que pareciam querer espatifá-la. O pai assustou-se. Sentiu um medo espontâneo e instantâneo. Ele sabia que nunca tinha se sentido preparado para ser pai. Sabia que tinha tomado forças para encarar essa aventura porque descobrirá em sua esposa uma mulher ideal. Com ela por perto não haveria possibilidade de erro. Ela também seria mãe de primeira viagem, mas ela tinha em seus traços uma bondade e um afeto, um jeito de quem sabe do que é que alguém precisa. Com ela do lado não haveria erro nem no primeiro, nem no quarto filho. Se os sonhos dela tivessem tido o tempo de terem sido realizados. O pai tinha medo e pensou diante daquela luz estonteante se sem ela poderia dar errado. Se sem a esposa aquela garota poderia dar errado.

Pena que de surpresa em um efeito retardado do som que emergirá daquela luz, ouviu-se naquele bairro todo um estrondo pavoroso. Era tão alto e ecóico que parecia infinito. Os vidros cristalinos da janela da sala chegaram a tremer como se batesse um vento desgovernado.

A criança que por pouco não dormia com o reconfortante clarão que iluminou seu quarto e a trouxe de volta ao conhecido, arregalou seus pequenos olhos e sem que pudesse se explicar o que sentia sentiu medo. Desatou a chorar não consciente do que isso significaria, mas porque seu pequeno corpo lhe levava a fazer isso. Chorava livre, e sentia o medo completo. Lavou ao seu próprio rosto com lágrimas pequenas e constantes e abriu a boca sem dentes. Soltava um som sufocante. Chorava a criança de modo que por muito pouco não lhe faltasse todo o ar necessário para que continuasse a soltar aqueles berros, que num futuro, por significado análogo seriam palavras de desespero.

O pai largou os pensamentos e o livro e correu para o quarto como se já estivesse atrasado antes mesmo de saber para o quê. Escancarou a porta que já estava semi-aberta e correu em direção ao berço de sua criança. Pegou-a sobre o colo com cuidado e com carinho, e sacudiu-a levemente falando palavras de afeto em um esforço de deturpar a sua voz naturalmente grave.

O pai repetiu-se várias vezes. E naquele balanço, a criança agora podia fechar os olhos sabendo que ainda estava no mesmo lugar. E naquele balanço o choro da criança gastava as energias que lhe haviam sobrado do dia. Adormeceu.

O pai perdeu algumas lágrimas. Não era um choro livre, era um choro cheio de mandamentos, lhe exigindo força, lhe exigindo êxito e lhe exigindo lidar de forma racional com a saudade da esposa. Os conselhos de amigos e familiares acolhiam seu choro de um jeito encorajador, mas insistente, incisivo e até agressivo. Correram-se assim algumas semanas, e muitos e tantos outros trovões.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Falta


“Falta quanto tempo?” Assim eu repetidamente falava. Escorado e dependurado com um braço em cada banco dianteiro daquele carrinho da nossa família. Não era de todo nosso pelo direito do homem tal como a lei se constitui hoje. Faltavam-lhe duas dúzias ou mais de prestações salgadas, mas por sorte ou azar, no suor de tanto trabalho e uma vida estressante do pai e da mãe, tinha quase todo o sal suficiente. Quê antes de tudo nos era garantido o sal de cozinha é fato, o do carro era quando por ventura dava pra pagar. E a mãe sempre dizia mais certa do que qualquer um que “comida não falta e está em primeiro lugar”. Eu é que sabia disso porque crescia e descobria que a fome é todo dia, a cada três ou quatro horas.

Mas o carrinho era nosso sim. Dá-lo a qualquer um por emprestado para uma viagem, e nenhum saberia manejar tão bem uma bagagem de cinco pessoas naquele porta-malas miúdo quanto meu pai que me orgulha tanto. Sem contar as mil e uma histórias que ali ocorreram em nossos passeios. Lembro algumas delas em detalhes, outras só fazem parte de mim sem que me perceba delas de uma forma concreta.

Uma vez viajávamos para o sítio de uma tia. Durante a viagem o sadismo de minhas irmãs me era uma tortura. Sentava-me sempre ao meio pela menor idade e menor tamanho. As duas ficavam a me fazer caretas horrorosas, e só paravam de fazê-las quando eu as olhava. Só que a crueldade da tortura é que dali do meio só podia olhar uma por vez, enquanto a outra fazia as malditas caretas. Elas, sádicas, caiam em gargalhadas. Eu, angustiado, ficava ao choramingo no pé da orelha do motorista e da co-pilota. E o esforço valia a pena, 10 minutos de choramingo, o pai já estava enfezado e mostrava isso pra mãe com os olhos. Aquela mulher compadecia, desligava o rádio ao som da MPB e começava um belo sermão. “Ah que beleza, agora vocês vão pagar por isso suas irmãs monstras”, eu pensava. A minha heroína intercedia na defesa dos fracos e oprimidos. A sensação era boa. De repente me dei conta de que tinha sobrado pra mim também.

- Vocês não vêem que estamos perdidos nessa estrada? Vocês querem que seu pai tenha um ataque do coração e bata o carro? Pelo amor de Deus, que falta de consideração que vocês têm. Nós estamos fazendo isso por vocês... Calem a boca e deixem a gente achar essa merda de sítio.

- Foi elas que começou mãe! – eu me defendia, enquanto minha irmã me cutucava e chamava-me de mimado.

- Você também não é inocente! E desgruda desse banco, e para de perguntar quanto falta que quando chegar você vai saber!

Fui traído pela minha defensora e meu coração doía. Doía como um braço se arrepia num vento gelado. Três crianças de bico no banco de trás, sem música, pai enfezado e família perdida pra achar o sítio naquela estrada de terra poeirenta. O pai já indignado quase começava a brigar com a mãe, que não deviam ter ido, e que aquela idéia de sair de casa num feriado tão curto não fora uma boa idéia. Aí a gente já conhecia bem o script, a mãe chorava com o mapa na mão, dizendo que só queria sair um pouco de casa pra curtir com a família, e que nunca mais se esforçaria pra organizar essas coisas, ainda bem que sempre era mentira.

De repente, numa curva, entrou um besourão pela janela do carro. Que desespero generalizado. As irmãs gritavam que nem umas doidas, meu pai não sabia o que estava acontecendo e minha mãe protegia o cabelo do grande inseto. O carrinho freou bruscamente, e todo no meio da estrada de terra, todo mundo desceu. As portas e janelas abertas pro besouro sair, e ele saiu. Entreolhamos-nos e gargalhamos juntos. Riamos e discutíamos como um maldito besouro pudera tirar cinco pessoas grandes daquele carro.

“Falta quanto tempo?” Agora eles respondiam. “Já estamos chegando” Ainda que não soubessem ao certo se estavam no caminho certo. Eu sentia o cheiro do mato daquela estrada que cortava uma natureza velha. Ansioso pra chegar naquele lugar novo. E agora eu e minhas irmãs estávamos como aliados e brincávamos de um modo que fazíamos a nós três rirmos. No fim das contas chegamos, e pra ser sincero não me lembro exatamente como fora lá no sítio, mas tenho certeza que meu pai, regado às cevadas, pediu desculpas a mãe por chegar a cogitar que a viagem fora uma má idéia. O suficiente para que ela planejasse várias outras sempre que recebia suas férias no emprego.

Essa é daquelas histórias que não tem graça quando se conta. Mas até hoje nos raros cafés da manhã em que tomamos juntos, quando nos lembramos dela, são motivos de risos. Pra mim o besouro foi um tipo de intervenção divina, ou uma coincidência perfeita, um dedo de Deus fazendo a gente acordar. Pra mim, fora da lei, aquele carrinho era nosso e de mais ninguém.

Hoje não me escoro em bancos dianteiros se não for por alusão irônica ao passado de criança. Não há quem me responda quanto tempo falta pra chegar a algum lugar. O tempo agora é rápido e pouco sereno. A ansiedade de tempo longo agora é inversa. O tempo curto me faz perguntar “por que todo dia falta tanto tempo?”.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Poucos Anos


Conforme os vinte e poucos anos passam, dentre as lamúrias de viver, aumenta e enrijece a saudade. Aumenta na medida em que há, cronologicamente, mais tempo do qual lembrar, mas não só isso aumenta a saudade. Aumenta muito, já que os sonhos dantes elaborados em uma consciência do mundo despida de excessiva racionalidade, em uma criança que via na grandeza humana um ultimato de todos os seus desejos, hoje são rarefeitos em um homem que se arrepende cada ato seu de crescer. Fosse que fossem mais uns trinta anos de irreais fantasias infantis do amor, do beijo e do trabalho, um homem grande não suportaria ser grande, não suportaria trair-se a si mesmo se fosse tanto tempo.

“Ah, mas que lamúrias são essas? Um exagero de um jovem de vinte e poucos anos passados! Não sabe do que fala com uma vida inteira pela frente”. Não é nem preciso que tal escândalo seja dito por alguém sobre minha saudade, já posso ouvi-lo por solidão, traindo e apunhalando os meus próprios pensamentos. Carrego dentro de mim. É como um velho de barba longa e mal feita, ranzinza que se cansou dessa vida e, sem fé no que virá depois dela, só fica a desanimar os outros. Mas se esse quem reclama soubesse que quando tive poucos anos eu via uma vida inteira pela frente muito maior do que uma vida de cento e poucos anos, talvez medisse seus verbos com mais cuidado.

Mas nem só de lembrança vive o homem, até porque se fosse, padeceria atrofiando o tempo presente até que sumisse, sumisse dos outros, do mundo e, por fim, de si próprio. Daí o porquê a segunda propriedade da saudade é justamente o seu enrijecimento. A casca fosca que catarata nos meus olhos que olham pra dentro de mim, me fazendo viver só lá fora, agora, tem que ser feliz, agora. É pressão na pele do cidadão. É só pressão, porque a cidade, tal como hoje está organizada, não cabe todo mundo. Nessa cidade só cabe um. Boa pinta, gravata e dinheiro na mão. Eu sinto ansiedade até na hora de almoçar, em sete mastigadas que esganam uma colher de arroz empapado com feijão e batatas.

Só que num instante, mais solto, com saudade seleta fiquei pensando no que ali atrás me era tão bom. Era uma certeza presa na minha mão. Sim, era uma certeza que me deixava despreocupar de quaisquer quinquilharias da cabeça. O caminho era só e sempre o certo, porque o caminho era andar sem definir diretrizes, ou diretrizes de acordo com certa concepção. Era só caminho e caminhar. E no caminho todo dia era novo. Foram poucos anos assim.

Certeza é estar certo de algo sem correção precedente. É ter em si o guia de si mesmo, é a mais pura liberdade de qualquer grau de coerção. É consciência da verdade pura pela sua concepção. E não há individualismo nisso. Se nessa certeza não há coerção, então nessa certeza não há um entorno dela que lhe tire a razão de ser certa. Hoje, meu desejo de criança é ter mais certeza. E por sorte, emergente entre as lamúrias, apareceu essa menina, com vinte e poucos anos e olhou dentro de mim com os olhos de girassóis dela. Hoje, meu desejo de criança é sair dessa cidade com ela, e viver num campo ou perto de um mar. Tirarmos uma fotografia, sentados juntos num balanço sob uma árvore troncuda. Num balanço feito só pra um, aos sorrisos abertos e céu bem azulado. Certos. Que assim seja daqui a poucos anos.