quinta-feira, 14 de junho de 2012

Pelo Menos

Pelos, pra que tê-los? E, também, por que não tê-los? É desdobrando esse enigma que Heloísa se dirige à depilação. Uma casa rosada no centro, recheada de uma arquitetura feminina e sensível, com quadros que figuram curvas sinuosas em pernas. Seria tudo harmônico, e quase enganoso, se não fosse o quadro de preços, que logo na entrada, por detrás do balcão, alarma. Hostilizando aquele ambiente sereno: “virilha (inclui ânus) – R$ 25,00/anal lateral – R$ 15,00”. É de causar estranhamento a toda mulher, até aquelas cada vez mais acostumadas, além de fazê-las lembrar da intimidade a qual se submeterão, seminuas em posições libidinosas e vulneráveis, nas quais uma outra mulher, mascarada até os olhos, lhes dedicam certo sadismo. 

E, depois de confirmado com a balconista que a depiladora tem disponibilidade de horário, ainda resta uma latência tediosa na sala de espera. Uma saleta de uns 10 m², com sofás no entorno e uma mesa de centro com um vaso de flores feito de vidro artesanal, nessa semana contém uma dúzia de tulipas amarelas, aquelas flores que parecem nunca abrir-se o tanto que poderiam. E mais umas 3 dezenas de revistas espalhadas sobre a mesa, algumas esquecidas por cima do sofá. Figuram nas capas só revistas de beleza feminina ou fofoca televisiva. Sim, figuram nas capas mulheres aos montes, em poses sensuais, sempre, sem nenhuma exceção, sempre depiladas. Desde os pequenos cílios que crescem por sobre os dedos dos pés e retirados à pinça, até as coxas, os braços e o buço, para as mais peludas. E, seguindo esse ritmo, não resta dúvida de que as partes íntimas estão sujeitas ao mesmo trato.

E não bastasse esse tom subliminar de que para ser mulher das boas tem de sofrer um bocado, a coisa fica ainda mais explícita e atestada nas conversas que deambulam entre as clientes durante a espera, interrompidas por estalidos de puxões de fitas enceradas, quentes ou frias, que a sala cirúrgica da depilação só é separada por um biombo fino com flores que o ilustram, em que os sons atravessam e remetem a clientela a todo o tipo de imaginação sobre o que ocorre lá dentro. Sobretudo quando a cliente é novíssima na coisa e não consegue evitar soltar alguns ruídos de dor.

Nesse dia Heloísa estava ainda absorta no enigma sobre valer mesmo a pena fazer aquilo. Ela sabe que não agradaria nem a si mesma e nem ao namorado ter pelos extrapolando os limites da roupa intima, e ainda pegaria mal na aula de natação. Na sala de espera estavam três mulheres, com idades variadas, uma centrada na revista, enquanto as outras duas folheavam rapidamente, apegadas apenas nas imagens, e volta e meia soltavam um comentário sem direção, que esperava topar no ouvido de alguma das clientes para degringolar meia conversa.

Heloísa ia selecionando alguma revista, e ao mesmo tempo sendo tomada de um sentimento imprevisto. Havia certa atmosfera de competição, como se nos rabos de olho as mulheres ali presentes se comparassem, medissem uma a outra, avaliavam as roupas que estavam usando e deixavam um lapso de pensamento as invadir: quem seria mais bonita do que eu? As capas de revista quase sempre eram as mais bonitas, mas com dinheiro e foto digitalizadas e tratadas de modo refinado... Bem... Aí qualquer uma delas poderia ser a mais bonita. Mesmo que usando um vestido do brechó ao invés daqueles estilizados, feitos como peça única e extravagante.
E soavam os gemidos por trás do biombo, os estalidos de puxões da fita encerada, os comentários triviais e as trocas de olhares disfarçados. Até que um dos comentários vingou, virou polêmica e debate. A moça mais de idade disse que o melhor é tirar tudo mesmo, que é bem mais higiênico, fica tudo limpinho. A outra mais jovem disse que embora ficasse mais limpo o marido não gostava, chegava a dizer que ela ficava parecendo criança, e aquilo era assustador. Riram disso. Heloísa falou que era complicado ser mulher, que gostava de estar depilada, mas odiava depilar-se. Foi um desabafo, que de algum modo tocou-as todas.

Como se não bastasse, de repente adentra um homem a sala, o silêncio se instaura, aquele corpo quadrado parece descabido naquele contexto sinuoso. Os tempos são outros mesmo. Uma das moças vai ao banheiro, e todas as outras permanecem curiosas sobre o que é afinal que este homem tinha vindo fazer. E, também, como seria para a Sandra, a depiladora que arrancava os pelos da clientela, se deparar com um homem. De que partes ele tiraria os pelos? Ficaria nu? Em que pose? Seria bom, Heloísa pensava, se todos os homens fossem compelidos a tal empreendimento mensal, doloroso, aparentemente humilhante, em prol da estética anti-natureza. Seria bom se eles soubessem.

A hora chegou. Heloísa atravessou o biombo. Toda a clientela que aguardava e se renovava a todo instante não deixou de medir os seus simétricos e firmes quadris, enquanto atravessa a saleta. Após o biombo estava Sandra, mascarada, que não era tão carinhosa embora tomasse todo o cuidado. Algumas vezes dizia para Heloísa que agora ia machucá-la um pouco, num tom de malícia e de aviso, ao mesmo tempo. 

O pior passou, os pelos foram todos arrancados. A partir daquele instante haveria mais uns 30 ou 40 dias sem preocupar-se disso. Heloísa pagou o preço, que a seu ver era bem justo, pois nunca assumiria tal posto de trabalho como Sandra, que mais parecia uma capataz dos pelos humanos. Quando foi pra rua estava feliz, sentia-se mais bonita em baixo das roupas, mais segura e mais mulher, e até um pouco punk subversiva com o moicano que ansiava mostrar para o namorado.