quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Acordamos mais cedo para nos vermos mais de perto


Helena, em seus primeiros anos de casamento, gostava de acordar antes que o despertador tocasse. Assim, ela podia ficar olhando um tempo para seu prometido, não sei por quem, marido. Mal sabia que dali algum tempo a mais acordaria várias vezes antes do despertador tocar, com o choro de angústia de seus pequenos que não pediram nem um pouquinho pra nascer.

Ela gostava de olhar o homem quando ele estava desse jeito – de olhos firmemente fechados – pois assim o olhava com quaisquer tipos de olhares que quisesse.

Num dia dado (sabe-se lá por Deus ou pelo Big-Bang) (ou pelas duas coisas) Helena acordou vinte e dois minutos antes do despertador. Sentia um pouco de frio, estava sem suas cobertas, e ao abrir lentamente os olhos, aconteceu mais uma vez, e mecanicamente, como sempre, dela ir lembrando quem era e o que fazia da vida, junto com uma angústia do por quê era e do por quê fazia o que fazia da vida.

O quarto deles era bastante peculiar. Era quase um quadrado típico se não fosse por uma aresta a mais aonde havia uma porta que levava a um banheiro íntimo. As cores de tudo oscilavam principalmente em tons de verde-bem-escuro, marrom, branco e creme. A cama do casal era de roupa toda branca e travesseiros enormes. Sobre o marido repousava um edredom verde-bem-escuro, entrelaçado entre as pernas dele, que o cobria das canelas até o umbigo, justificando a sensação de frio de Helena.

A idade já lhe havia avançado um pouco, era madura de corpo. A meninice só não abandonara o seu jeito de andar e olhar pelas janelas. Virada de bruços fez meia flexão para que erguesse a cabeça e o pescoço apoiando a face sobre as mãos e cotovelos; a sua lombar encurvando parecia ter sido lapidada por mãos firmes e perfeccionistas. A meninice do seu andar lhe escapulia enquanto, perpendicular as coxas, balançava os pés pelo ar.

Olhava o marido de modo destemido e atrevido. Naquelas circunstâncias ele não lhe oferecia nenhum perigo, nenhuma obrigação de renúncia. Sentiu-se completamente livre e despersonalizada, como se o histórico entre eles não houvesse. Como se não houvesse laços. Até que começou a entreter-se com o homem. Mordeu os próprios lábios e lembrou-se como se casaram rápido. Talvez fosse por um medo desesperado de que o amor passasse do ponto alto, no auge. Sábia, entendia que no início dos relacionamentos há engajamento, ambos contrapõem-se a identidade em prol da fusão, e depois tentam resgatar a identidade, e que vai ser a capacidade de equilibrar que vai determinar a duração do laço amoroso. O casamento ajuda a motivar essa equilibração, institui um núcleo de oscilação, um ponto de equilíbrio. Ritualiza um voto de comprometimento, culpabiliza os excessos prejudiciais.

Abaixou a cabeça, percebeu os braços formigando, deitou-se de lado e colocou o rosto bem próximo dele. Conseguia sentir a respiração de um sono ansioso que daqui a pouco quer acordar. Estava com saudade de separar o que era dela e o que era do mundo. Conforme o relacionamento amoroso ia avançando, desenvolvia uma célula viva com dinâmica própria, regida por suas próprias leis, um filho bastardo, não planejado. Filho da somatória incalculável de danos e reparações. Também sentia saudade da decisão imediata, decisão não-mediada, sobre as coisas.

Faltavam mais três minutos para que tocasse o primeiro som do dia, o anúncio da realidade. Helena fez carinho na própria cabeça jorrando os cabelos para trás. Depois se sentou na beira da cama e desligou o despertador antes que gritasse. De costas para o marido torceu a lombar, o pescoço, e com o queixo quase sobre o ombro direito, o olhou pelo canto do olho. Achava-o lindo, queria ter certeza que ele o amava e seria sua única possibilidade de ser completamente repleta em suas necessidades singulares. Queria ter certeza de que ela o merecia. Lembrou da certeza que teve quando disse que o amava pela primeira vez. Irritou-se com as suas insatisfações eternas, saco-sem-fundo.

Passava um minuto da promessa do despertador e ela deitou-se novamente de lado. Colocou a mão sobre o peito do marido. Inesperadamente ele sorriu e disse em baixo tom:

- Porque me olha tanto Lê?

Helena constrangeu-se por menos de um segundo, mas daí voltou à típica compostura. Ele percebeu, mas preferiu não perguntar duas vezes. Nela, a história e o que tinha se tornado por conseqüência da enorme fileira de escolhas que já havia feito veio à tona. Nessas condições havia intimidade, o constrangimento tinha sido abastado pela intimidade.

- Porque amo.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

In Secretum


Com 10 anos de idade Helena não sabia falar latim, e tampouco aprendera pelo resto da vida. Mas sabia reconhecer algumas palavras em latim quando imersas no meio do vocabulário brasileiro.

Foi nessa época que concluiu uma lógica inegável, de que para que uma palavra seja latim basta, simplesmente, pegar uma palavra em português e substituir a sua terminação típica por “um”. Com o fim de aprovar sua teoria pediu a mãe uma bola de sorvetum, e como os adultos não costumam perder tempo questionando as brincadeiras inocentes das crianças a mãe lhe comprou logo uma daquelas cestinhas de biju com três bolas de sorvete! E como as crianças acham que os adultos, principalmente pai e mãe, sabem tudo, a tese da conversão de línguas estava confirmada. Antes de crescer, e perceber que as coisas são mais complexas do que se imaginava, a garota passou uns longos 5 anos imaginando como a palavra “um” (seja como numeral ou artigo indefinido) seria em latim.

Nessa fase, quase adolescente, Helena empenhou-se em juntar centenas de papéis coloridos e cortá-los no mesmo tamanho pra fazer um diário. Depois não veio mais a chamar de diário, mas continua o usando da mesma forma. A capa é branca, e está escrito, com bastante detalhamento, fruto da caneta preta de ponta fina que o pai não a deixava usar, o seguinte termo: “In Secretum”. Para Helena e para quem conhece latim significa e pode significar “em segredo” – prova ínfima de que o saber pode ser uma grande ilusão – significava também que ali colocaria tudo que sabia, não queria esquecer e em hipótese alguma contaria a alguém ou escreveria em outro lugar.

A triagem dos pensamentos qualificados como “in secretum” e, portanto, confinados no livro colorido é bastante simples. O procedimento se resume em separar sob o ponto de vista da própria Helena tudo aquilo que pudesse magoar alguém que ela gosta ou ama, e/ou, que pudesse fazê-la sentir uma vergonha insuportável por pensar naquele pensamento.

Quando Helena amou pela primeira vez ficou in secretum uma tentativa diária, de explicar com as poucas palavras que conhecia sobre a realidade, aquelas sensações inéditas e intermináveis de desejar tornar duas pessoas uma unidade indissociável, de descrever a vontade de tomar decisões inconseqüentes que colocam o amor na frente de tudo. De tudo.

Quando Helena amou pela segunda vez, mais esporadicamente, ou melhor, quando sobrava tempo ou tristeza, ficou in secretum toda a forma de racionalizar que aprendeu pra não correr o risco de doer muito, foi uma tentativa de entender o amor. Uma tentativa de tentar prever e manipular a dinâmica daquele amor. Já não existe mais o amor enquanto aquele a quem ela ama, mas o amor enquanto aquilo que ela tem por alguém. Há um trecho que define muita coisa e mostra seu apreço por neologismos:

“ [...] no fundo eu sei que o que nos une é uma pura fantasia mútua e desentrelaçada. E tomara, torço, que não seja totalmente desentrelaçada. Só assim, quando algum de nós, ou “nós”, for tão pés-no-chão ou o que fazemos for tudo mesmidade, haverá algum laço desfantasiado pra fazer verão pra sempre [...]”.


Quando a mãe de Helena foi-se para sempre o que ficou in secretum foi raiva. A frustração de não poder fazer a mãe sofrer de tê-la feita sofrer tanto, a vontade de punir a mãe por não cumprir seu papel de morrer velhinha, e no meio de tantas páginas rabiscadas e molhadas, pedidos de desculpas e promessas de manter a mãe eterna no seu coração.

"In Secretum ficou um monte de cores em branco. Foi tornando-se mais um álbum de pensamentos do que um cofre de segredos. Conforme o tempo foi passando, bastante ocasionalmente lia, e mais ocasionalmente ainda nele escrevia. Adulta foi ficando com segredos tão guardados que quase sempre os escondia de tudo.

domingo, 8 de novembro de 2009

Batida perfeita

Helena não se toca só se deixa que toquem. Tanto não se toca que não sabe aonde é que, alguém, quando se aproxima deve encostar. Quando sente aquela coisa boa por alguém é uma das maiores coisas boas do mundo. Ama vulneravelmente. Porque recebe toques de surpresa aonde jamais saberia que apertar ali nela podia dar-lhe tanta felicidade... Ou vontade de ficar bem longe dali.

A maior virtude da amizade são suas formas que a seguram. É solta, pode ir e voltar. Não deve, e se deve só paga quando puder. Um abraço apertado. Quando Helena estava tediosa do mundo e saiu do quarto conheceu a sua colega estudante. Claro que já tinham trocado meias palavras pra estarem morando juntas, mas nenhuma sabia ainda o que a outra era. Impressionou como se sentiu tão bem, só podia ser coisa do destino. O que cá entre nós é uma baboseira, as condições históricas dos estudantes distantes de pais são tão semelhantes que é difícil não ter papo pra falar ou conversa fiada.

Quando Helena saiu do quarto e passava pela sala pra ir fazer sabe se lá o quê: abrir a geladeira, tomar água sem sede ou olhar pela outra janela e voltar. Aconteceu.

- Oi! – naturalmente dito.
- Olá! – respondeu Helena com o tônus muscular do corpo inteiro rígido, e pensando se a colega poderia perceber.
- A gente nem se conhece e moramos juntas – risos – deve ser essa coisa louca de estudante, só usando a casa pra dormir, e olha lá, com essa quantidade de festas, a minha nova casa me serve mais como um closet do que uma casa – mais risos.

Helena não ia tanto a festas, mas conseguiu ver que nos últimos dias pensava que deveria ir já que a colega quase nunca estava em casa. E disse sorrindo do comentário:

- É verdade. Acho que desprender-se da família faz a nossa casa não ser mais física, mas ser o lugar aonde a gente quer estar.

A colega, que a propósito, chamava-se Marcela, ficou muito surpresa com a profundidade de Helena e disse:

- Nossa. Você traduziu tudo o que eu quis me dizer, mas não consegui me escutar.

Helena não sabia. Marcela também não sabia. Que Helena gosta que as pessoas entendam os seus significados das coisas, e que acreditem nos seus significados das coisas. Helena não sabia e Marcela sabia. Que Marcela gostava de pessoas que pensassem sobre o significado das coisas. Só podia dar certo mesmo.

É todo mundo tão diferente de ser agradado. Quem se conhece bem, sabe rápido quem, o que, e como deve procurar. Quem não se conhece bem tem que ter sorte. Os choques cotidianos vêm pra cima de nós nos encostando desenfreadamente. Toca aqui, toca ali. A gente aprende como gosta de ser tocado e nos viciamos em uma maneira de tocar. Helena não se toca. Helena não sabe que sabe muito bem como tocar.