Helena, em seus primeiros anos de casamento, gostava de acordar antes que o despertador tocasse. Assim, ela podia ficar olhando um tempo para seu prometido, não sei por quem, marido. Mal sabia que dali algum tempo a mais acordaria várias vezes antes do despertador tocar, com o choro de angústia de seus pequenos que não pediram nem um pouquinho pra nascer.
Ela gostava de olhar o homem quando ele estava desse jeito – de olhos firmemente fechados – pois assim o olhava com quaisquer tipos de olhares que quisesse.
Num dia dado (sabe-se lá por Deus ou pelo Big-Bang) (ou pelas duas coisas) Helena acordou vinte e dois minutos antes do despertador. Sentia um pouco de frio, estava sem suas cobertas, e ao abrir lentamente os olhos, aconteceu mais uma vez, e mecanicamente, como sempre, dela ir lembrando quem era e o que fazia da vida, junto com uma angústia do por quê era e do por quê fazia o que fazia da vida.
O quarto deles era bastante peculiar. Era quase um quadrado típico se não fosse por uma aresta a mais aonde havia uma porta que levava a um banheiro íntimo. As cores de tudo oscilavam principalmente em tons de verde-bem-escuro, marrom, branco e creme. A cama do casal era de roupa toda branca e travesseiros enormes. Sobre o marido repousava um edredom verde-bem-escuro, entrelaçado entre as pernas dele, que o cobria das canelas até o umbigo, justificando a sensação de frio de Helena.
A idade já lhe havia avançado um pouco, era madura de corpo. A meninice só não abandonara o seu jeito de andar e olhar pelas janelas. Virada de bruços fez meia flexão para que erguesse a cabeça e o pescoço apoiando a face sobre as mãos e cotovelos; a sua lombar encurvando parecia ter sido lapidada por mãos firmes e perfeccionistas. A meninice do seu andar lhe escapulia enquanto, perpendicular as coxas, balançava os pés pelo ar.
Olhava o marido de modo destemido e atrevido. Naquelas circunstâncias ele não lhe oferecia nenhum perigo, nenhuma obrigação de renúncia. Sentiu-se completamente livre e despersonalizada, como se o histórico entre eles não houvesse. Como se não houvesse laços. Até que começou a entreter-se com o homem. Mordeu os próprios lábios e lembrou-se como se casaram rápido. Talvez fosse por um medo desesperado de que o amor passasse do ponto alto, no auge. Sábia, entendia que no início dos relacionamentos há engajamento, ambos contrapõem-se a identidade em prol da fusão, e depois tentam resgatar a identidade, e que vai ser a capacidade de equilibrar que vai determinar a duração do laço amoroso. O casamento ajuda a motivar essa equilibração, institui um núcleo de oscilação, um ponto de equilíbrio. Ritualiza um voto de comprometimento, culpabiliza os excessos prejudiciais.
Abaixou a cabeça, percebeu os braços formigando, deitou-se de lado e colocou o rosto bem próximo dele. Conseguia sentir a respiração de um sono ansioso que daqui a pouco quer acordar. Estava com saudade de separar o que era dela e o que era do mundo. Conforme o relacionamento amoroso ia avançando, desenvolvia uma célula viva com dinâmica própria, regida por suas próprias leis, um filho bastardo, não planejado. Filho da somatória incalculável de danos e reparações. Também sentia saudade da decisão imediata, decisão não-mediada, sobre as coisas.
Faltavam mais três minutos para que tocasse o primeiro som do dia, o anúncio da realidade. Helena fez carinho na própria cabeça jorrando os cabelos para trás. Depois se sentou na beira da cama e desligou o despertador antes que gritasse. De costas para o marido torceu a lombar, o pescoço, e com o queixo quase sobre o ombro direito, o olhou pelo canto do olho. Achava-o lindo, queria ter certeza que ele o amava e seria sua única possibilidade de ser completamente repleta em suas necessidades singulares. Queria ter certeza de que ela o merecia. Lembrou da certeza que teve quando disse que o amava pela primeira vez. Irritou-se com as suas insatisfações eternas, saco-sem-fundo.
Passava um minuto da promessa do despertador e ela deitou-se novamente de lado. Colocou a mão sobre o peito do marido. Inesperadamente ele sorriu e disse em baixo tom:
- Porque me olha tanto Lê?
Helena constrangeu-se por menos de um segundo, mas daí voltou à típica compostura. Ele percebeu, mas preferiu não perguntar duas vezes. Nela, a história e o que tinha se tornado por conseqüência da enorme fileira de escolhas que já havia feito veio à tona. Nessas condições havia intimidade, o constrangimento tinha sido abastado pela intimidade.
- Porque amo.
Ela gostava de olhar o homem quando ele estava desse jeito – de olhos firmemente fechados – pois assim o olhava com quaisquer tipos de olhares que quisesse.
Num dia dado (sabe-se lá por Deus ou pelo Big-Bang) (ou pelas duas coisas) Helena acordou vinte e dois minutos antes do despertador. Sentia um pouco de frio, estava sem suas cobertas, e ao abrir lentamente os olhos, aconteceu mais uma vez, e mecanicamente, como sempre, dela ir lembrando quem era e o que fazia da vida, junto com uma angústia do por quê era e do por quê fazia o que fazia da vida.
O quarto deles era bastante peculiar. Era quase um quadrado típico se não fosse por uma aresta a mais aonde havia uma porta que levava a um banheiro íntimo. As cores de tudo oscilavam principalmente em tons de verde-bem-escuro, marrom, branco e creme. A cama do casal era de roupa toda branca e travesseiros enormes. Sobre o marido repousava um edredom verde-bem-escuro, entrelaçado entre as pernas dele, que o cobria das canelas até o umbigo, justificando a sensação de frio de Helena.
A idade já lhe havia avançado um pouco, era madura de corpo. A meninice só não abandonara o seu jeito de andar e olhar pelas janelas. Virada de bruços fez meia flexão para que erguesse a cabeça e o pescoço apoiando a face sobre as mãos e cotovelos; a sua lombar encurvando parecia ter sido lapidada por mãos firmes e perfeccionistas. A meninice do seu andar lhe escapulia enquanto, perpendicular as coxas, balançava os pés pelo ar.
Olhava o marido de modo destemido e atrevido. Naquelas circunstâncias ele não lhe oferecia nenhum perigo, nenhuma obrigação de renúncia. Sentiu-se completamente livre e despersonalizada, como se o histórico entre eles não houvesse. Como se não houvesse laços. Até que começou a entreter-se com o homem. Mordeu os próprios lábios e lembrou-se como se casaram rápido. Talvez fosse por um medo desesperado de que o amor passasse do ponto alto, no auge. Sábia, entendia que no início dos relacionamentos há engajamento, ambos contrapõem-se a identidade em prol da fusão, e depois tentam resgatar a identidade, e que vai ser a capacidade de equilibrar que vai determinar a duração do laço amoroso. O casamento ajuda a motivar essa equilibração, institui um núcleo de oscilação, um ponto de equilíbrio. Ritualiza um voto de comprometimento, culpabiliza os excessos prejudiciais.
Abaixou a cabeça, percebeu os braços formigando, deitou-se de lado e colocou o rosto bem próximo dele. Conseguia sentir a respiração de um sono ansioso que daqui a pouco quer acordar. Estava com saudade de separar o que era dela e o que era do mundo. Conforme o relacionamento amoroso ia avançando, desenvolvia uma célula viva com dinâmica própria, regida por suas próprias leis, um filho bastardo, não planejado. Filho da somatória incalculável de danos e reparações. Também sentia saudade da decisão imediata, decisão não-mediada, sobre as coisas.
Faltavam mais três minutos para que tocasse o primeiro som do dia, o anúncio da realidade. Helena fez carinho na própria cabeça jorrando os cabelos para trás. Depois se sentou na beira da cama e desligou o despertador antes que gritasse. De costas para o marido torceu a lombar, o pescoço, e com o queixo quase sobre o ombro direito, o olhou pelo canto do olho. Achava-o lindo, queria ter certeza que ele o amava e seria sua única possibilidade de ser completamente repleta em suas necessidades singulares. Queria ter certeza de que ela o merecia. Lembrou da certeza que teve quando disse que o amava pela primeira vez. Irritou-se com as suas insatisfações eternas, saco-sem-fundo.
Passava um minuto da promessa do despertador e ela deitou-se novamente de lado. Colocou a mão sobre o peito do marido. Inesperadamente ele sorriu e disse em baixo tom:
- Porque me olha tanto Lê?
Helena constrangeu-se por menos de um segundo, mas daí voltou à típica compostura. Ele percebeu, mas preferiu não perguntar duas vezes. Nela, a história e o que tinha se tornado por conseqüência da enorme fileira de escolhas que já havia feito veio à tona. Nessas condições havia intimidade, o constrangimento tinha sido abastado pela intimidade.
- Porque amo.


