terça-feira, 18 de setembro de 2012

Abelarda


As janelas fascinam Abelarda, quaisquer delas. Quero dizer: quadradas, retangulares, redondas, dos altos dos edifícios ou no nível quase do chão. Sejam grandes, enormes ou mesmo as pequenas. Aquelas que de pé em frente começam desde as canelas e vão acima da cabeça, e até mesmo as pequenas fraturas de ambientes privativos. 

São, ela pensa, fotografias vivas, na medida em que são estáticas pelo enquadramento a que estão fadadas, não se pode ver lá fora de outro ângulo quando fica debruçada no parapeito. E ao mesmo tempo essas aberturas diversificam na sua própria medida, porque sempre renovam a imagem, as pessoas indo e vindo com suas pernas, um carro passando, um céu nublado ou azul, um vento frio ou quente e, não raro em terras da garoa, um ligeiro cheiro de chuva.

Já faz muito tempo que Abelarda para diante delas, das janelas. Seja só pra uma visita rápida, uma constatação cotidiana, noutras vezes um mergulho profundo e persistente na vista, desdobrando pensamentos voláteis, quase oníricos. Alguém já disse a ela, que fica muito a ver a vida passar. E fica, de fato. Nem que seja por esses momentos, vivendo uma fantasia de observadora, vendo o mundo tocar, o circo pegar fogo, sem compromisso nenhum com tudo isso que está lá fora. Fica de olho no que sobrou entre as paredes que a circundam, esse vazio que é recheado pelo que se apresenta a cada instante e fortuitamente, sempre lá pra onde as janelas ora se arreganham, ora se fecham.

Mas há um algo mais, para além dessa passividade particular abelardiana. É um fascínio, as olha como se fossem quadros de uma mostra contemporânea, de arte pura, sem a mediação do artista. As janelas se pintam sozinhas e refletem não mais do que presenciam, não algo a mais a não ser aquilo que se mostra atravessado nelas. Estão destinadas a esse ofício, aparentemente tedioso, de estarem mirando um mesmo lugar, aparentemente repetitivo, mas a todo instante deslumbram novidade, nem que seja ínfima, que seja uma nuvem sorrateira a sair do lugar deslizando.

- Ê Abelarda – grita o moço conhecido da rua, chamado Aurélio – esta aí a ver o dia passar?

- ...quê nada – num sorriso insosso desperta do transe de seu prazer bobo de olhar pela janela. Olha o moço rindo, provocativo. Não se importa tanto com o que ele disse, mas com o fato de ter dito. Aquele lugar de repouso dela, contemplativo, dentro de casa com o olho na rua, não é tão ausente do mundo, é também o olho da rua pra dentro de casa. A janela troca, e se é um quadro é de dois lados, e num deles a vida que se pinta é a dela própria, Abelarda. Teria o nome de quadro: moça morena parada na janela do sobrado. Não seria óleo sobre tela, seria carne sobre terra, e o artista que a pintou ninguém sabe bem o nome e nem muito precisamente o que quis dizer. É melhor sair dali, pensa.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Laura


Debruçada na sacada, Laura entediada no segundo andar do sobrado. Não tem o que fazer no dia, não tem desejo, e daí só o que resta é contemplar. E com o tempo de tanto olhar pra tudo sem querer ver nada passa uma moça de fita amarela no cabelo. Faz uma cara de nojo, como quem diz que brega é aquilo, não se usam fitas desse jeito desde mil novecentos e sei-lá-o-quê. É fácil, embora não tenha percebido, ficar a criticar o mundo pela janela, a ver a vida passar. É uma rainha no castelo, a designar os modos de ser dos dias de hoje. Começou isso nesse caso da fita amarela, e foi daí pra diante olhando a bunda da moça cheia de furos marcados na calça colada, a freira suando com a bíblia na mão e vestida com aquela roupa, devia estar um forno. Passa noutro instante um rapaz jovem, sarado, e trocam uma olhadela. Para esse moço não há reprovação, até que se encontra num beijo estalado com a namorada no ponto, uma menina horrível, ela pensa, teve certeza que ele a olhou com segunda intenção.

- Aahh – Laura suspira – que sábado morno...

Que vai fazer agora? Não sabe, é dia todo pela frente e nenhum compromisso. Solidão caseira, entediada dos livros de sempre. Ligar pros amigos, nem pensar. Será mais uma sessão daqueles mesmos programas, aquelas mesmas conversas. O mundo está tão sempre a mesma coisa, como se Laura estivesse a frente de tudo, de todos, do tempo. Quem sabe se ganhasse mais, com mais recursos, poderia buscar algo interessante. Mas tudo custa caro demais pro seu bolso, e os prazeres que pode comprar parecem agora paliativos. Entra em casa, toma um copo de água em goles curtos, sentada no sofá, com os ombros projetados pra frente, fica lerda, lesa. Acaba a água, se lembra da mãe que não a deixava apoiar os copos na mesa de centro. Agora que pode apoiar, que a mesa é sua, não o faz. Vai até a cozinha passar uma água e deixar escorrendo no escorredor. 

No caminho, arrastando o pé, um estrondo. Laura grita um palavrão. Topou o dedinho no batente da porta. Ah, dor maior que essa é difícil dizer, só do parto ou uma boa bolada no meio do nariz, na fuça. Puta que o pariu, e senta no chão segurando os dedos. A dor fica latejando: dói-não-dói, dói. Fica massageando, dá uma lacrimejada e pensa se quebrou. Queria que não, mas a dor permanece, um leve inchaço vai tomando corpo e quando tenta empurrar o dedinho um pouco pra fora a articulação denuncia que a topada provavelmente teve consequências adversas.

Que dia, que sábado morno e mais essa. Esperou o fim de semana chegar e não sabe o que fazer com ele, e o fim de semana que fez algo com ela. Algo ruim, diga-se de passagem. 

- Foi aquela idiota de fita amarela – afirma sem nenhum compromisso lógico da inferência, só é preciso culpar alguém.

Levanta e vai quase numa perna só voltar para o sofá, receosa de encostar o dedo em qualquer lugar. Levanta o pé e o apoia na mesa de centro, a dor ainda lateja. Empenhada vai caçar alguns livros e empilha-os na mesma mesa e coloca a única almofada que tem no topo. Com o pé pra cima é melhor, não dói. Vai ligar a TV e lembra que esqueceu o controle na cozinha.

- Aaah – Laura solta algo parecido com um ganido de raiva.

Mais uma vez se levanta, bem cautelosa, e saltita quase num pé só, apoiando o pé do dedo machucado só pela ponta dos calcanhares. Olha bem pros batentes da porta para não se acidentar de novo. Que belo sábado, pensa. Pega o controle, vai pro sofá, liga a TV, é horário político. É foda não ter TV a cabo. Os livros já lidos seguram seu pé, a geladeira não tem nada de muito interessante. E o telefone não toca. Mas tudo bem, Laura tem alguns filmes que nunca viu. Só precisa se levantar de novo, ir com cuidado até a pequena estante do quarto, escolher alguns. O difícil é escolher: comédia, drama, terror, aventura? Terror não, sozinha é complicado. Será que tem alguma comédia que a possa fazer rir? Pouco provável, ela desiste logo que vê os títulos e imagina as piadas de sempre. Aventuras massantes, rápidas demais, cheias de cenas e jogos de câmera. Não. Já sabe. É melhor um drama, são meio depressivos, mas tendem a ser mais inteligentes, tal como Laura.

Com um filme de drama na mão, sobre a história de uma adolescente de vida difícil e que encontrou uma saída a Laura caminha manca, a ler o resto da sinopse. Distraída agora, esqueceu que é sábado, esqueceu que fitas amarelas são bregas, esta compadecida sobre a história da protagonista, parece que é baseado em fatos reais, fica absorta lendo a sinopse. Péssimo momento. Ela podia ter esperado um pouco mais. Quase chegando ao sofá, prestes a se sentar topa o dedo de novo, na quina da mesa.

- Aaaah, que merda – Laura berra, encolhe-se no sofá a segurar os joelhos quase contra a barriga e chora, chora e chora, feito um bebê.