As janelas fascinam Abelarda, quaisquer
delas. Quero dizer: quadradas, retangulares, redondas, dos altos dos edifícios
ou no nível quase do chão. Sejam grandes, enormes ou mesmo as pequenas. Aquelas
que de pé em frente começam desde as canelas e vão acima da cabeça, e até mesmo
as pequenas fraturas de ambientes privativos.
São, ela pensa, fotografias
vivas, na medida em que são estáticas pelo enquadramento a que estão fadadas,
não se pode ver lá fora de outro ângulo quando fica debruçada no parapeito. E ao
mesmo tempo essas aberturas diversificam na sua própria medida, porque sempre
renovam a imagem, as pessoas indo e vindo com suas pernas, um carro passando, um
céu nublado ou azul, um vento frio ou quente e, não raro em terras da garoa, um
ligeiro cheiro de chuva.
Já faz muito tempo que Abelarda
para diante delas, das janelas. Seja só pra uma visita rápida, uma constatação
cotidiana, noutras vezes um mergulho profundo e persistente na vista,
desdobrando pensamentos voláteis, quase oníricos. Alguém já disse a ela, que fica
muito a ver a vida passar. E fica, de fato. Nem que seja por esses momentos,
vivendo uma fantasia de observadora, vendo o mundo tocar, o circo pegar fogo,
sem compromisso nenhum com tudo isso que está lá fora. Fica de olho no que
sobrou entre as paredes que a circundam, esse vazio que é recheado pelo que se
apresenta a cada instante e fortuitamente, sempre lá pra onde as janelas ora se
arreganham, ora se fecham.
Mas há um algo mais, para além
dessa passividade particular abelardiana.
É um fascínio, as olha como se fossem quadros de uma mostra contemporânea, de
arte pura, sem a mediação do artista. As janelas se pintam sozinhas e refletem
não mais do que presenciam, não algo a mais a não ser aquilo que se mostra
atravessado nelas. Estão destinadas a esse ofício, aparentemente tedioso, de
estarem mirando um mesmo lugar, aparentemente repetitivo, mas a todo instante
deslumbram novidade, nem que seja ínfima, que seja uma nuvem sorrateira a sair
do lugar deslizando.
- Ê Abelarda – grita o moço
conhecido da rua, chamado Aurélio – esta aí a ver o dia passar?
- ...quê nada – num sorriso
insosso desperta do transe de seu prazer bobo de olhar pela janela. Olha o moço
rindo, provocativo. Não se importa tanto com o que ele disse, mas com o fato de
ter dito. Aquele lugar de repouso dela, contemplativo, dentro de casa com o
olho na rua, não é tão ausente do mundo, é também o olho da rua pra dentro de
casa. A janela troca, e se é um quadro é de dois lados, e num deles a vida que
se pinta é a dela própria, Abelarda. Teria o nome de quadro: moça morena parada
na janela do sobrado. Não seria óleo sobre tela, seria carne sobre terra, e o
artista que a pintou ninguém sabe bem o nome e nem muito precisamente o que
quis dizer. É melhor sair dali, pensa.


