Estava eu numa festinha em salão de condomínio sem conhecer ninguém que não fosse a minha filha, a Malu. Era chamada Malu por todo mundo, menos pela sua mãe, minha desquitada mulher, que foi a voz da ordem para que fosse rubricado na certidão da minha pequena o nome duplo de Maria Luiza. Eu e minha senhora não havíamos diluído os laços familiares em documentos formais junto ao advogado da vara cívica, mas seria esse, sem sombra de dúvida, o próximo passo. Tal era nosso desquite que, mesmo que não tivéssemos feito o acordo tácito, naquele fim de semana só tinha sobrado eu pra acompanhar a Malu na festa de uma de suas amiguinhas da creche. Cheguei a tentar ter com a Malu uns cinco minutos de conversa adulta sobre irmos nessa festa ou não. Só que a menina, nos impulsos dispersos e incontroláveis dos seus quatro anos e meio, ficava aturdida em seu estado ansioso e monológico repetindo a palavra “balão”. Dei-me conta que a minha princesa era ainda criança, e que criança não entende as razões dos adultos. Talvez eu tivesse que esperar mais alguns anos para que pudesse ter com ela uma conversa a sério, adulta.
Sem escapatória eu avisei a minha mulher ou ex, enfim, avisei-a que preparasse a menina. A última vez que me meti a arrumar Malu, cheguei a pensar que tinha ido bem, mas me perguntaram se por acaso a ocasião era para fantasia, o que me tornou descrente desse dote. Sorte que a mãe dela não deixava nada a desejar nessa habilidade. Deixou a Malu uma graça mesmo. A menina ficaria, sem sombra de dúvida, bonita na foto.
A recepção dos outros pais foi do jeito que sempre é, apresentavam-se e davam uma esmagada na minha menina, chamando-a de linda. Foi assim até que o pai da aniversariante repetiu o esquema, e a Malu disse “balão”. Ele sorriu, e disse pra Malu que fosse brincar ali, no parquinho improvisado. Ela não quis e me abraçou pelas pernas. Ninguém me perguntou sobre a mãe da Malu. Não sei se sabiam o que estava acontecendo e se faziam de ingênuos, ou ainda se não sabiam e ficavam ressabiados de perguntar, por medo do que poderiam ouvir. O fato é que me foi bom que não perguntasse. Era cruel, mas de alguma forma era bom, que eu pensasse que a mãe da Malu não existia mais como parte da minha vida.
Fiquei sentado numa cadeira branca de plástico, perto da comida e da minha pequena, e longe de qualquer conversa. Estava empapuçado de salgadinhos quando a Malu abriu um sorriso gigante, hipnotizada olhava o fundo do salão. Quando eu vi, o pai da aniversariante chegava com um balão vermelho enorme, daqueles que ficam cheio de balas e doces. Aquele homem o pendurou no teto, e logo abaixo do balão iam-se aglomerando pouco mais de uma dezena de crianças. Talvez o homem quisesse me entrosar, mas deu-me uma agulha de crochê e pediu que fosse lá, furar o balão.
A Malu, com aquela mão pequenina segurou forte a minha, e sorrindo disse mais uma vez “balão”. Dei-me conta que a minha princesa era criança, e que adulto não entende as razões das crianças. Sorte que eu dei-me conta, e aí deu tempo de ter com ela uma conversa a sério, não de adulto. Encostei a ponta do crochê no balão vermelho, estava cercado de risos de crianças. Algumas competitivas se empurravam durante a chuva de balas e doces. Vi a Malu, toda educada, rindo alto, de mão abertas para o teto do salão do condomínio. Quase não cabia nenhum doce em suas pequenas palmas, mas ela ria grata, por cada gota de açúcar que resvalava no seu rosto.


