terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Baloeira

Estava eu numa festinha em salão de condomínio sem conhecer ninguém que não fosse a minha filha, a Malu. Era chamada Malu por todo mundo, menos pela sua mãe, minha desquitada mulher, que foi a voz da ordem para que fosse rubricado na certidão da minha pequena o nome duplo de Maria Luiza. Eu e minha senhora não havíamos diluído os laços familiares em documentos formais junto ao advogado da vara cívica, mas seria esse, sem sombra de dúvida, o próximo passo. Tal era nosso desquite que, mesmo que não tivéssemos feito o acordo tácito, naquele fim de semana só tinha sobrado eu pra acompanhar a Malu na festa de uma de suas amiguinhas da creche.

Cheguei a tentar ter com a Malu uns cinco minutos de conversa adulta sobre irmos nessa festa ou não. Só que a menina, nos impulsos dispersos e incontroláveis dos seus quatro anos e meio, ficava aturdida em seu estado ansioso e monológico repetindo a palavra “balão”. Dei-me conta que a minha princesa era ainda criança, e que criança não entende as razões dos adultos. Talvez eu tivesse que esperar mais alguns anos para que pudesse ter com ela uma conversa a sério, adulta.

Sem escapatória eu avisei a minha mulher ou ex, enfim, avisei-a que preparasse a menina. A última vez que me meti a arrumar Malu, cheguei a pensar que tinha ido bem, mas me perguntaram se por acaso a ocasião era para fantasia, o que me tornou descrente desse dote. Sorte que a mãe dela não deixava nada a desejar nessa habilidade, abilidade, deixou a Malu uma graça mesmo, ia ficar sem d por acaso a ocasi a s. Deixou a Malu uma graça mesmo. A menina ficaria, sem sombra de dúvida, bonita na foto.

A recepção dos outros pais foi do jeito que sempre é, apresentavam-se e davam uma esmagada na minha menina, chamando-a de linda. Foi assim até que o pai da aniversariante repetiu o esquema, e a Malu disse “balão”. Ele sorriu, e disse pra Malu que fosse brincar ali, no parquinho improvisado. Ela não quis e me abraçou pelas pernas. Ninguém me perguntou sobre a mãe da Malu. Não sei se sabiam o que estava acontecendo e se faziam de ingênuos, ou ainda se não sabiam e ficavam ressabiados de perguntar, por medo do que poderiam ouvir. O fato é que me foi bom que não perguntasse. Era cruel, mas de alguma forma era bom, que eu pensasse que a mãe da Malu não existia mais como parte da minha vida.

Fiquei sentado numa cadeira branca de plástico, perto da comida e da minha pequena, e longe de qualquer conversa. Estava empapuçado de salgadinhos quando a Malu abriu um sorriso gigante, hipnotizada olhava o fundo do salão. Quando eu vi, o pai da aniversariante chegava com um balão vermelho enorme, daqueles que ficam cheio de balas e doces. Aquele homem o pendurou no teto, e logo abaixo do balão iam-se aglomerando pouco mais de uma dezena de crianças. Talvez o homem quisesse me entrosar, mas deu-me uma agulha de crochê e pediu que fosse lá, furar o balão.

A Malu, com aquela mão pequenina segurou forte a minha, e sorrindo disse mais uma vez “balão”. Dei-me conta que a minha princesa era criança, e que adulto não entende as razões das crianças. Sorte que eu dei-me conta, e aí deu tempo de ter com ela uma conversa a sério, não de adulto. Encostei a ponta do crochê no balão vermelho, estava cercado de risos de crianças. Algumas competitivas se empurravam durante a chuva de balas e doces. Vi a Malu, toda educada, rindo alto, de mão abertas para o teto do salão do condomínio. Quase não cabia nenhum doce em suas pequenas palmas, mas ela ria grata, por cada gota de açúcar que resvalava no seu rosto.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Fumo Fome


Bernardo tinha fome de não sabe o quê. Revirou a geladeira numa busca fracassada e não encontrou o maldito sabor. Abriu um monte de coisas industrializadas e as deixou cheias e abertas, sem se preocupar de que estragariam em breve. Por um momento brincou consigo mesmo se não estava grávido, riu-se por dentro da incoerência. Se fosse fome, fome mesmo, daquela variedade de degustações a teria sanado, mas não era qualquer fome, era fome de não saber o quê comer.

Sentou no sofá velho entediado e insatisfeito. Não é fácil mesmo, para qualquer um, não poder sentir um gosto que se quer. E não se trata de que todas as pessoas deveriam ter tudo o que quisessem, é só que, as pessoas, deveriam ter o direito de pelo menos saber o que querem, nem que fosse para imaginar. E mais que imaginar. Quando se sabe, se pode buscar. Mesmo que percorrendo o caminho tortuoso das injustiças de nosso mundo desigual. Mesmo que percorrendo, Deus já previamente saberá em certos casos, que nas injustiças de nosso mundo desigual, o desejante não chegará lá.

Tal foi o infortúnio de Bernardo que durou mais uma meia hora a diante. Ficou esparramado no sofá, com um olhar lânguido que ora percorria o teto e ora os arredores. Buscava naquele pouco espaço de sua morada alguma coisa, como se por dentro do cinzeiro entupido no batente da janela se escondesse àquilo que ele precisava comer. E de tanto pensar foi é comer as unhas, sem lenço, deixando pequenas fagulhas no chão. Mas engraçado, as fagulhas de unha não o alimentavam, tanto que o objetivo não era mesmo comer, era quase comer e daí cuspir.

Levou um tapa na nuca, que o fez sentir-se bobo, e antes que pudesse sentir-se muito bobo seguiu-se o sermão do pai, explicando tudo sobre as gravidades anti-higiênicas que envolviam colocar a unha suja dentro da boca, sem contar que ele estava cansado de aspirar o tapete com tanta freqüência por causa dos vestígios desse tipo de atividade. Isso foi chato, mas suportável. Chato mesmo foi quando o pai acendeu o cigarro na beira da janela e lhe disse que se a mãe dele tivesse viva para ver, detestaria vê-lo assim, esparramado no sofá comendo unhas.

O pai usava desse subterfúgio educativo não raro, mas em toda vez. Bernardo se doía. O pai nem findou meio cigarro e o apagou no cinzeiro, sábio de que as cinzas despencariam por não haver espaço, por descaso não notava. O pai disse que ia sair que tinha coisas a ter com outras pessoas. Bernardo esperou e na saída do pai foi curioso experimentar seu primeiro cigarro. A fumaça entrou grossa, saiu lisa. O sol se punha na janela e Bernardo não sabia ainda a fome de quê que tinha, mas tornava azeda qualquer vontade de comer com o tabaco raspando a garganta.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Ser Cília

Eu sei, já escrevemos mais do que devíamos sobre a saudade. Mas o que eu não quero aqui é escrever mais coisas sobre o que já entendemos tão bem, a pretensão é de outra ordem. A pretensão é contar sobre Cecília. Que meu pecado seja revogado e absolvido por Cecília, mas eu a roubei descaradamente desde que a vi pela segunda vez. Digo a segunda, porque na primeira vez que vi Cecília não foi nada demais, como são aquelas pessoas que conhecemos por obrigação das nossas atividades diárias. E, talvez, por tê-la amado desde a segunda vez que a vi é que ela tornou-se tão especial. É que a Cecília teve um quê assim de surpreendente.

Na primeira vez que eu a vi estava em uma roda de desconhecidos que tentavam se conhecer. Geralmente eu gosto de conhecer pessoas, mesmo sabendo que aquele papo furado inicial sobre generalidades seja com bastante freqüência um momento parcialmente desconfortável. Só que eu aprendi, de toda a gente que conheci, e nem foi tanta, que é no meio das generalidades que nós garimpamos as amizades duradouras. Acontece assim, numa frase solta, numa generalidade simples, duas ou mais pessoas se identificam, se acolhem e se sentem, bendito seja, menos sozinhas.

A Cecília estava nessa roda, falante que só ela. A minha primeira impressão sobre ela é de que era tagarela. Tão tagarela que até me dava um susto. Eu pareço ser de falar pouco, mas a verdade é que falo devagar, preciso de tempo, e, nessa roda, a Cecília ocupou quase todo o meu espaço. Mas tudo bem, numa roda de acanhados, uma tagarela é uma segurança compartilhada, de que os momentos de silêncio e constrangedores durarão pouco, bem pouco. Eu não tinha expectativa de, dessa roda, sair com amizades convictas, mas fiquei na volta pra casa arriscando as pessoas com quem me daria bem. Foi isso que me fez ter um pressentimento de que eu não me daria com a Cecília, não por mal, nem por nada, só porque não combinávamos.

Na segunda vez que vi Cecília foi diferente. Ela estava sozinha, aproveitando um filete de sol que passava no pouco espaço das folhas das árvores e acabava numa bancada cinzenta sem graça, no meio de um gramado. Ela estava sentada com os pés sobre a bancada, com um braço sobre o joelho e sob o queixo, na outra mão segurava um graveto e cutucava o banco, como se escrevesse nele. Estava de boca fechada. E se estivesse tagarelando, só se fosse dentro de si mesma. Fiquei a olhando um pouco de longe, e gostaria mais que tudo nesse mundo de, naquele momento, se pudesse, tê-la fotografado. Ela tinha os cílios compridos e o sol forte os deixava de cor castanha clara, com as pontas de cada cílio bem brilhantes. Eu a vi de perfil e dava pra perceber uma feição séria. O cabelo, também castanho claro, mal amarrado, deixava alguns fios caindo sobre o rosto dela até seu pescoço. Como se me percebesse de longe os olhos dela se voltaram para mim, eu arregalei os meus surpresos. Da feição séria, a Cecília abriu um sorriso sincero e acenou falando meu nome, como se fossemos amigos de longa data.

Ficou me olhando, sorrindo. Fiquei intacto, foi estranho, mas não sabia como lidar, se ia até ela, se acenava e continuava meu caminho. Tudo o que eu queria era ficar ali, a olhando para sempre, queria tê-la fotografado. Ela deve ter me achado louco, tanto que além de sorrir começou a rir como se me desafiasse. E me desafiou:

- Vai ficar aí paradão?!