quarta-feira, 11 de maio de 2011

Benza Maria

“- Vamos embora logo pai...

- Tá bom, tá bom, já vamos! Pede a bença da sua avó...

- Bença vó!

- Deus te abençoe fío, Deus te abençoe.

- Adeus Vó....”

Maria cheia da força, que desceu dum nordeste seco, úmido só de seu suor. Pariu tanto mais de uma dezena de filhos, dos quais, pelo menos até os sessenta anos, não se esqueceu de nenhum nome e nem da ordem de nascimento da prole. Naquela época, como diriam os postulados de economistas como David Ricardo - sobre a produção exagerada de filhos, como resultado do condicionamento do modo de produção industrial acelerado e enormemente injusto – filhos que numa realidade nordestina, numa terra sem estado, sem empresário, sem proprietário, sem Norte, de pouca gente e comida que dura no talo se a natureza não for cruel, como ela é. Maria tinha seu papel de mulher que era pau de toda obra, atuante nas condições fundamentais de sobrevivência da prole e do marido, este que, por sua vez, era Antônio forte. Forte no braço pro trabalho e pros copos de branquinhas aqui e lá nos fins de tarde. Fraco só na covardia nos berros indevidos que ecoava sobre os ouvidos de Maria. Quando embriagado vivia xingando a mulher de cabo a rabo, sem contar, numa vez ou outra um tapa arremessado sobre a maça do rosto de Maria, descontrolado, enraivecido. Mas Maria era tão forte na pele que o tapa não lhe doeu tanto quanto sabia que doeria na consciência do pobre homem, seu homem, que mais tarde arrepender-se-ia, e assim foi mesmo. Antônio pode só chorar por leite derramado e tentar limpá-lo, não pode voltar no passado para aflorar suas ternuras latentes que tinham sido engolidas pela frieza daquele lugar árido.

A dezena de filhos e mais outros tantos tinha no pai a segurança que vinha com um medo de lambuja. Saber-se que Antônio era mesmo o diretor daqueles destinos era até um tanto quanto confortável, ter assim, um responsável bruto. Mas que não era prazeroso não era. Dava medo. A segurança inflexível deixava aquelas crianças todas atônitas sobre o que deveriam ser e fazer. Entre aquilo que lhes era único, concedido por Deus e suas vontades e domínios, e pelo outro lado as mãos pesadas, cintas e chinelas do Antônio, que obrigavam dolorosamente. Benza Maria cheia de força, que era forte em ternura e não abdicava de ser uma mãe, como se diz? Uma mãe continente. Que continha tudo, do bom ou do ruim, o que fosse que as crianças tinham pra oferecer. Como se ela soubesse mesmo a fórmula delas sentirem-se amadas sem sentirem-se presas. Maria convenceu o homem Antônio, e, portanto, Maria converteu a lei daquela família da força para o amor. Convenceu que saíssem daquela vida, pois haveria de ser melhor noutro lugar.

Maria e Antônio desceram do Nordeste seco. Vinham duma cidade que tinha poucas famílias, a de Maria e umas outras, e que dessas duas vieram algumas mais menos volumosas. Venderam aquela terra e seus produtos, e também a casa. Venderam pelo pouco valor que ela tinha a oferecer para as necessidades humanas. Antônio, abstinente de bebida, pusera o dinheiro todo numa bota resfolegada pelo tempo e pela terra, certo de que ali era a via mais segura. Eram uns quinze. Antônio, Maria e a prole. Todo o suor do trabalho dessa grande família condensado na bota de Antônio era o único valor de troca que remetiam para a desconhecida cidade grande. E, todo o outro valor que tinham era valor humano, terno, que não se troca, se tem e só. A decisão da mudança foi um fato racional. Aquela família que era uma mão-de-obra pra si mesma vivia num ciclo sem fim, infinito. Trabalhar para comer para trabalhar para comer. Maria decidiu por romper o vício do ciclo. Ela via nos filhos mais do que ela pôde ser, embora ela não saiba até hoje que se não fosse esse olhar otimista, acreditado, os filhos nunca seriam o devir que puderam ser. Não fosse esse olhar e seria de outra forma. Queria escola para as crianças, deixar que elas tivessem uma vida melhor.

No meio da estrada, todo mundo meio quieto, o velho Antônio sisudo, Maria apreensiva vendo os quilômetros correrem no asfalto pensava que haveria de ser o melhor, só o melhor. Até que numa freada brusca o ônibus foi emboscado, por uns filhos sem mães que tinham também de viver, e por isso eram tão cruéis quanto fora a natureza árida daquele Nordeste sem dono. O ciclo deles era roubar para comer para roubar para comer. Gritavam:

- Désce todo mundo daí. Todo mundo! Pra estrada caralho! Para de enrola! Qué morrê fío da puta?

Todo mundo suava, um suor indistinto de medo e calor escaldante. As crianças, as mais novas olhavam pro chão, choramingavam, as mais novas ainda, recentemente paridas, nem entendiam nada, só continuavam na sua simbiose de sobrevivência. Os pouco mais velhos se indignavam, enraiveciam-se, desesperançavam. Dessas crianças, um dos poucos mais velhos era Pedro. Maria lhe tocou o ombro, lhe disse algo que ele não ouviu, pois estava surdo. Pedro tinha um coração forte, pois foi esculpido de Maria, bem nas costas de Antônio e seu cinto de couro. E tinha o coração tão forte que ficou paralisado de horror de imaginar o que podia acontecer ali, não suportaria que encostassem um dedo em Maria, e se o fizessem ele açoitaria o canalha como um leão faz com um coelho. Maria olhava a bota resfolegada de Antônio e dizia a Pedro que ficasse calmo, que haveria o futuro de ser o melhor, só o melhor.

Ninguém tocou em Maria. Os saqueadores pegaram um monte de trocados e coisas que lhes poderiam valer, e traídos pelo cansaço do couro da bota de Antônio se abstiveram dela. Levaram carteiras, bolsas, comida, água, algumas vestes das malas. Deixaram as malas todas escancaradas no asfalto, pondo as roupas intimas surradas todas à vista, mas tudo bem, não havia nobreza e nem muita vergonha que se pudesse ter naquela situação. Os saqueadores partiram, Antônio continuou sisudo e pensava só que estava vivo, pois se o bando de ladrões tivessem se atrevido a fuçar suas botas teria reagido, teria ficado morto se perdesse tudo. Maria foi até Antônio e tocou-lhe o ombro com força, apertando-lhe os trapézios. Fazia tempo que não se tocavam, mesmo assim ao se olharem não criam que eram outra coisa que não marido e mulher.

- Vamo homi, o melhor haverá de ser. Ainda temo do que precisamo pra recomeçar...

Antônio desfranziu a testa. Teve de crer nas mãos fortes e carinhosas de Maria, crer no senso bom dessa mulher, dessa vez era o que tinha de fazer. Pedro arrumava as malas junto de outras irmãs. Acabado o serviço foi até Maria. Essa lhe deu um beijo doce e um abraço carinhoso, mas largou logo. Honesta. Como se dissesse que a vida podia ser boa, mas que não seria só boa. O ônibus recomeçou, Maria olhava os quilômetros passarem, haveria de ser melhor.