quarta-feira, 5 de maio de 2010

Sólido


Optei manter-me em silêncio para evitar que me sentisse desconcertado ao falar. Era a melhor opção já que o tempo do mundo parecia ser mais veloz do que o tempo do meu próprio relógio. Fiquei tentando nomear em minha cabeça o que era aquilo que estava sentindo, mas nas palavras de minha linguagem não conseguia explicar. As pessoas ao redor falavam alto e até perambulavam para lá e pra cá dentro daquele ônibus de excursão. Decidi que o mais afastado daquilo que podia ficar era encostando a cabeça no vidro da janela, tão perto que podia até parecer que meus olhos estavam do lado de fora daquele transporte condicionador de ar e claustrófóbico.


Fiquei pensando que nome poderia dar as janelas que não se abrem, já que janelas tem de, necessariamente, ter a possibilidade de serem abertas. As janelas não se restringem ao acesso visual. Uma coisa importante dessas magníficas aberturas é que elas trazem mais do que está lá fora, um ventinho, um calor ou um ruído. Pensei em "aberturas", mas parece extremamente paradoxal uma abertura que não se abre. Era um vidro, em que as imagens ficavam mudando rapidamente, e embora as vezes surgissem belas árvores, logo depois vinham um emaranhado de outdoors doutrinando as pessoas a comprarem coisas que brevemente ficariam obsoletas. Toda casa tem um canto para coisas obsoletas. Pensei que o melhor era chamar aquelas falsas janelas de televisão. Ri por dentro, ri sozinho. Pensei que todo ônibus claustrofóbico tem um lugar para coisas obsoletas.


O ônibus iniciou uma curva bastante sinuosa, e a rua se alargava em ascendência. Era uma espécie de ponte que levaria a saída da cidade. Quando a curva acabou eram 18:22. O sol estava prestes a se pôr. O meu rosto ficou todo dourado e super iluminado. Isso não me impediu de manter meu rosto o mais próximo daquela grossa camada transparente, mas me obrigou a fechar os olhos. As pálpebras só são suficientes para tornar o escuro mais escuro. Na frente do sol é como se eu pudesse ver em vermelho, com lentes vermelhas. Que tipo de sonhos dá pra ter dormindo de cara pro sol?


O ônibus agora anda com mais velocidade. A vida também parece andar com maior velocidade. Aquela estrada o motorista já conhecia bem, sabia exatamente a velocidade que deveria andar, em que altura haviam as curvas mais perigosas, sabia bem de quanto tempo ele precisaria ficar sentado com o pé no acelerador e que só precisaria trocar de marcha no máximo 10 vezes. O motorista não tinha medo da estrada. Eu tenho levado a vida como uma viagem diária repetitiva, ela não me dá medo. Tomara que essa viagem dê certo...

Avessuras

Um dia Helena acordou do avesso. Não percebeu que estava do avesso logo que abriu os seus olhos, percebeu ao longo do dia, em que as pessoas ao encontrá-la não perguntavam sobre como ela estava, mas afirmavam sobre como ela estava:

- Você não está bem!

Cá entre nós ela estava mesmo um pouco entediada, mas quem é que nunca fica? Muitas vezes nós estamos em um lugar ou tempo de nossas vidas que sempre idealizamos e acabamos descobrindo que ele é diferente. É parecido com a distinção que vulgarmente fazemos de amor e paixão: apaixonados nós amamos carregando a premeditação convicta de que estar ao lado daquele corpo, daquela pessoa, fazer parte da vida dela, o tempo todo fará com que você sinta a premeditação convicta pra sempre. O sentimento de desejar algo é mais distante do que imaginamos do sentimento de ter o “algo”.

- Nós precisamos ser muito fantasiosos e idealistas o tempo todo – foi o primeiro pensamento de Helena ao acordar. Era simples, mas era uma tese sobre e para a humanidade, e mais que isso, uma tentativa de, naquele dia, ser diferente.

Era sábado de manhã. A parte de seu marido na cama estava vazia. Olhando praquele espaço vazio ficou pensando em como ele, o marido, não era perfeito, mas fazia um esforço enorme para suprir as necessidades dela, fazia um esforço enorme para aceitar as coisas que ele não gostava nela, mesmo que muitas vezes tivesse que negar necessidades próprias que o caracterizavam como pessoa. Disse pra si mesma:

- O amor é só uma troca segura que satisfaça ambas as partes. É só uma necessidade mútua sendo suprida e alimentada, e que conforme vamos nos empenhado nisso nos deparamos com novas necessidades... Não é uma questão de frieza. Parece até um ato humano corajoso, compartilhar a condição de ser humano a dois de modo que possam potencializar as suas próprias existências.

O marido entrou pela porta do quarto com uma bandeja no café da manhã e um sorriso bem amarelo. Olhou para Helena, ela quis sorrir, mas não o fez, estava imersa em seus pensamentos de tentar ver que ali era só um homem com uma bandeja na mão, tentando agradá-la para garantir que ela o continuasse agradando. E ela sabia agradá-lo muito bem, não há outra mulher nesse mundo que desse conta de suas necessidades como Helena fazia.

- Você não está bem... – disse o marido.

Helena o olhou de um modo como nunca o olhará. O homem ali na sua frente havia tornado-se um organismo vivo, uma soma de coisas naturais concretas, sem nenhum significado. Só se mexia aleatoriamente, tanto quanto uma cortina o faz diante do vento. Foi um lapso assustador e ela pôs-se a chorar. O marido a acolheu e aos poucos Helena foi voltando ao normal: evitou todos os dias virar do avesso.