Optei manter-me em silêncio para evitar que me sentisse desconcertado ao falar. Era a melhor opção já que o tempo do mundo parecia ser mais veloz do que o tempo do meu próprio relógio. Fiquei tentando nomear em minha cabeça o que era aquilo que estava sentindo, mas nas palavras de minha linguagem não conseguia explicar. As pessoas ao redor falavam alto e até perambulavam para lá e pra cá dentro daquele ônibus de excursão. Decidi que o mais afastado daquilo que podia ficar era encostando a cabeça no vidro da janela, tão perto que podia até parecer que meus olhos estavam do lado de fora daquele transporte condicionador de ar e claustrófóbico.
Fiquei pensando que nome poderia dar as janelas que não se abrem, já que janelas tem de, necessariamente, ter a possibilidade de serem abertas. As janelas não se restringem ao acesso visual. Uma coisa importante dessas magníficas aberturas é que elas trazem mais do que está lá fora, um ventinho, um calor ou um ruído. Pensei em "aberturas", mas parece extremamente paradoxal uma abertura que não se abre. Era um vidro, em que as imagens ficavam mudando rapidamente, e embora as vezes surgissem belas árvores, logo depois vinham um emaranhado de outdoors doutrinando as pessoas a comprarem coisas que brevemente ficariam obsoletas. Toda casa tem um canto para coisas obsoletas. Pensei que o melhor era chamar aquelas falsas janelas de televisão. Ri por dentro, ri sozinho. Pensei que todo ônibus claustrofóbico tem um lugar para coisas obsoletas.
O ônibus iniciou uma curva bastante sinuosa, e a rua se alargava em ascendência. Era uma espécie de ponte que levaria a saída da cidade. Quando a curva acabou eram 18:22. O sol estava prestes a se pôr. O meu rosto ficou todo dourado e super iluminado. Isso não me impediu de manter meu rosto o mais próximo daquela grossa camada transparente, mas me obrigou a fechar os olhos. As pálpebras só são suficientes para tornar o escuro mais escuro. Na frente do sol é como se eu pudesse ver em vermelho, com lentes vermelhas. Que tipo de sonhos dá pra ter dormindo de cara pro sol?
O ônibus agora anda com mais velocidade. A vida também parece andar com maior velocidade. Aquela estrada o motorista já conhecia bem, sabia exatamente a velocidade que deveria andar, em que altura haviam as curvas mais perigosas, sabia bem de quanto tempo ele precisaria ficar sentado com o pé no acelerador e que só precisaria trocar de marcha no máximo 10 vezes. O motorista não tinha medo da estrada. Eu tenho levado a vida como uma viagem diária repetitiva, ela não me dá medo. Tomara que essa viagem dê certo...
