Debruçada na sacada, Laura
entediada no segundo andar do sobrado. Não tem o que fazer no dia, não tem
desejo, e daí só o que resta é contemplar. E com o tempo de tanto olhar pra
tudo sem querer ver nada passa uma moça de fita amarela no cabelo. Faz uma cara
de nojo, como quem diz que brega é aquilo, não se usam fitas desse jeito desde
mil novecentos e sei-lá-o-quê. É fácil, embora não tenha percebido, ficar a
criticar o mundo pela janela, a ver a vida passar. É uma rainha no castelo, a
designar os modos de ser dos dias de hoje. Começou isso nesse caso da fita
amarela, e foi daí pra diante olhando a bunda da moça cheia de furos marcados
na calça colada, a freira suando com a bíblia na mão e vestida com aquela
roupa, devia estar um forno. Passa noutro instante um rapaz jovem, sarado, e
trocam uma olhadela. Para esse moço não há reprovação, até que se encontra num
beijo estalado com a namorada no ponto, uma menina horrível, ela pensa, teve
certeza que ele a olhou com segunda intenção.
- Aahh – Laura suspira – que
sábado morno...
Que vai fazer agora? Não sabe, é
dia todo pela frente e nenhum compromisso. Solidão caseira, entediada dos
livros de sempre. Ligar pros amigos, nem pensar. Será mais uma sessão daqueles
mesmos programas, aquelas mesmas conversas. O mundo está tão sempre a mesma
coisa, como se Laura estivesse a frente de tudo, de todos, do tempo. Quem sabe
se ganhasse mais, com mais recursos, poderia buscar algo interessante. Mas tudo
custa caro demais pro seu bolso, e os prazeres que pode comprar parecem agora
paliativos. Entra em casa, toma um copo de água em goles curtos, sentada no
sofá, com os ombros projetados pra frente, fica lerda, lesa. Acaba a água, se
lembra da mãe que não a deixava apoiar os copos na mesa de centro. Agora que
pode apoiar, que a mesa é sua, não o faz. Vai até a cozinha passar uma água e
deixar escorrendo no escorredor.
No caminho, arrastando o pé, um
estrondo. Laura grita um palavrão. Topou o dedinho no batente da porta. Ah, dor
maior que essa é difícil dizer, só do parto ou uma boa bolada no meio do nariz,
na fuça. Puta que o pariu, e senta no chão segurando os dedos. A dor fica
latejando: dói-não-dói, dói. Fica massageando, dá uma lacrimejada e pensa se
quebrou. Queria que não, mas a dor permanece, um leve inchaço vai tomando corpo
e quando tenta empurrar o dedinho um pouco pra fora a articulação denuncia que
a topada provavelmente teve consequências adversas.
Que dia, que sábado morno e mais
essa. Esperou o fim de semana chegar e não sabe o que fazer com ele, e o fim de
semana que fez algo com ela. Algo ruim, diga-se de passagem.
- Foi aquela idiota de fita
amarela – afirma sem nenhum compromisso lógico da inferência, só é preciso
culpar alguém.
Levanta e vai quase numa perna só
voltar para o sofá, receosa de encostar o dedo em qualquer lugar. Levanta o pé
e o apoia na mesa de centro, a dor ainda lateja. Empenhada vai caçar alguns
livros e empilha-os na mesma mesa e coloca a única almofada que tem no topo.
Com o pé pra cima é melhor, não dói. Vai ligar a TV e lembra que esqueceu o
controle na cozinha.
- Aaah – Laura solta algo
parecido com um ganido de raiva.
Mais uma vez se levanta, bem
cautelosa, e saltita quase num pé só, apoiando o pé do dedo machucado só pela
ponta dos calcanhares. Olha bem pros batentes da porta para não se acidentar de
novo. Que belo sábado, pensa. Pega o controle, vai pro sofá, liga a TV, é
horário político. É foda não ter TV a cabo. Os livros já lidos seguram seu pé,
a geladeira não tem nada de muito interessante. E o telefone não toca. Mas tudo
bem, Laura tem alguns filmes que nunca viu. Só precisa se levantar de novo, ir
com cuidado até a pequena estante do quarto, escolher alguns. O difícil é
escolher: comédia, drama, terror, aventura? Terror não, sozinha é complicado.
Será que tem alguma comédia que a possa fazer rir? Pouco provável, ela desiste
logo que vê os títulos e imagina as piadas de sempre. Aventuras massantes,
rápidas demais, cheias de cenas e jogos de câmera. Não. Já sabe. É melhor um
drama, são meio depressivos, mas tendem a ser mais inteligentes, tal como
Laura.
Com um filme de drama na mão,
sobre a história de uma adolescente de vida difícil e que encontrou uma saída a
Laura caminha manca, a ler o resto da sinopse. Distraída agora, esqueceu que é
sábado, esqueceu que fitas amarelas são bregas, esta compadecida sobre a
história da protagonista, parece que é baseado em fatos reais, fica absorta
lendo a sinopse. Péssimo momento. Ela podia ter esperado um pouco mais. Quase
chegando ao sofá, prestes a se sentar topa o dedo de novo, na quina da mesa.
- Aaaah, que merda – Laura berra,
encolhe-se no sofá a segurar os joelhos quase contra a barriga e chora, chora e
chora, feito um bebê.

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