quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Servejando


Cerveja regada a amigos, ou vice-versa. É assim que nos é apresentado esses momentos de triunfos triviais, de comemorações impopulares, de recompensar o que não é novidade, não é digno de fama ou distinção. Somos quatro ou mais, sedentos trabalhadores, de afazeres comuns que nunca mudaram o mundo, e nunca mudarão. Longe disso, são tarefas reprodutivas, muito mais pra refazer os dias, a mantê-los em certa ordem, do que visá-los diferentes. É só isso, um bar, várias garrafas, uma porção de quitutes, quatro companheiros... E suas histórias sendo compartilhadas, não interessam a muita mais gente por serem demasiadamente comuns. 

Um brinde para cada garrafa aberta: a quê? Os copos se estalam uns contra os outros, numa força de punho sob medida para que não trinquem, para que só se encostem e façam um barulho que nos provoca a ensaiar uma palavra. Qual? Vaza dos nossos beiços todo o tipo de ternuras. Mulheres, dinheiro, felicidade... Já estou com certo enfado desses desejos, já cresci o suficiente pra sabê-los metas provisórias, as quais nunca se conquistam de fato e totalmente. Idealistas! Como num susto a que mais me comove é um apelo do meu grande companheiro Eduardo, disse assim:

- Que nunca percamos isto aqui!

Ah, isso sim é um brinde. Não poderia ser dito de outra forma, e eu repito fidedignamente o que o Eduardo disse, sempre com esse jeito poético que ele carrega de ler a vida. Reafirmo a tese dele, é a minha máxima e mais real possibilidade de brinde. Tomo uma golada longa de uma boa e gelada cerveja nacional. No fim nos entreolhamos e eu não sei se todos que bateram os copos contra o meu e alargaram aqueles sorrisos foram tomados do mesmo jeito diante do fato. Não sei nem mesmo se o Eduardo sabia sobre o que acabava de dizer. Que nunca percamos isto aqui era tudo o que eu precisava brindar. Esse momento de tomar algumas com meus amigos tem algo de precioso e vital. Por causa do ar necessariamente patético a que nos submetemos nesses rituais, de nos acreditarmos merecedores conjuntamente, pra sair da rotina, pra ir contra a lei hegemônica da realidade e enfatizar prazeres infantis aos falar palavrões, desejar tantas coisas, rir de tudo. Realçarmos, nesses encontros, um narcisismo embotado pela necessidade de nos submetermos a nossos patrões, a esconder nossos culhões em troca de salários razoáveis. Ali éramos quatro homens, donos do próprio destino, tagarelando verdades incontornáveis. Éramos livres, se é que se pode dizer dessa forma.

Quando quis levantar pra fumar um cigarro convidei Eduardo, já estávamos bastante altos com a quantidade de cerveja, e logo que levantamos demo-nos conta de nossas tonturas. Fomos quase aos tropeços em direção a uma grande janela que dava vista pra uma avenida cheia de mesas nas calçadas, de pessoas num falatório geral, rindo, batendo nas mesas, flertando e exibindo carrões. Eu e o Eduardo fomos içando-nos mutuamente pelos ombros, dando tapas e apertões um nas costas do outro. 

- Ah, Eduardo... Você é um grande companheiro – e eu dei logo um grande abraço, dizendo que nunca deixaria de sê-lo, pedindo que olhasse e me ouvisse, que eu estaria pra sempre a seu dispor, que nada mais era tão importante quanto isto, a nossa parceria. Que eu trairia a tudo e a todos, quando necessário, menos ele. Ele só concordava de um modo paternal, e sempre poético. Dizia coisas como: “não poderia ser de outra maneira meu velho” ou ainda “você não me dá escolha para não sermos pra sempre companheiros”. Não fazíamos tais declarações sempre, que não fosse nessas ocasiões.

Quando nos soltamos, na beira da guia, acendemos os nossos cigarros numa tragada longa e ficamos quietos a soprar fumaça, olhando a rua, o céu, uma moça que passava de vestido curto. Até fiquei sem assunto. Tudo estava bem, não havia pessimismo, minhas queixas dissolviam-se. Não sei bem que era esse conforto que me tomava. Era felicidade talvez, mas sem motivo. Era um lugar que permitia minha ignorância em relação à vida, concedida simplesmente por estar ali entre nós quatro. Eu me munia de forças para tocar adiante.

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